Empoderamento Feminino

O medo da mãe negra

Mãe negra beijando rosto do filho bebê
Jose Pelaez / Getty Images / Canva
Márcia Leite
Escrito por Márcia Leite

Ser mãe é o sonho de muitas mulheres, o sonho da continuidade, o sonho da dedicação, o sonho da alegria, com todos os seus percalços. Poder segurar aquela vidinha iniciante nos braços, depois de meses esperando, gestando ou não em seu próprio corpo, traz a esperança de um futuro mais preenchido, com a chance de ajudar na formação emocional, profissional, de caráter… Essas coisas não passam conscientemente na cabeça das pessoas em muitos casos.

Pintura de mãe negra com seu filho
Rosana Renata dos Santos Dominguez

Porém a mãe negra tem um pensamento que habita e a incomoda.

Alguém já ouviu falar que o jovem negro precisa andar obrigatoriamente com documentos pessoais o tempo todo? E que antigamente se fosse encontrado sem a carteira de trabalho era taxado como vagabundo?

Quase todo jovem negro já foi parado pela polícia para averiguação…

Eu mesma, quando tinha 20 e poucos anos, cansei de ser parada, inclusive tive meu carro revistado, porque estava em um bairro central da cidade.

Pintura de Rosana Renata dos Santos Dominguez
Rosana Renata dos Santos Dominguez

O medo de ser confundido com outra pessoa também rodeia o pensamento de quem carrega mais melanina na pele, chamando a atenção para as frequentes acusações de pessoas inocentes, e que foram depois liberadas, sob a alegação de “me confundi”, “achei que era outra pessoa”, “era um negro alto…”, “fiquei com medo, não vi direito”, entre outras desculpas.

Já li muitos depoimentos sobre o medo das mães negras, que se ajoelham pedindo para o Protetor Maior levar e trazer seu(s) filho(s) de volta para casa, são(s) e salvo(s). Não têm segurança do que vai acontecer no caminho de seus “bebês”, mesmo que a vida deles caminhe por vias bem pavimentadas, que estudem, que trabalhem, que tenham como princípio a honestidade e a verdade.

Pintura de garoto negro com a cabeça entre os joelhos
Rosana Renata dos Santos Dominguez

É um medo que desgasta demais, principalmente aquelas que vivem em situações mais difíceis que a vida impõe, em que a área financeira é precária e as condições básicas necessárias para todos os seres humanos não são alcançadas.

Seus filhos são criados com amor e dedicação, sem medir esforços. E as mães vão trabalhar em vários locais, deixando seus pequenos com outras pessoas dispostas a ajudar, e, nos poucos momentos em que estão em casa, os veem se desenvolvendo de forma absoluta, apesar das adversidades impostas pela pobreza, pela falta de opção, pela assistência em saúde fraca demais, cercadas pela violência dos poucos, porém agressivos seres, que moram na vizinhança, contra o desprezo de alguns que são mais endinheirados e até de alguns que também sonham ser.

E essas mães que veem seus filhos serem mortos pela ótica da sociedade atual de que todo preto é suspeito – “atira, depois pergunta” – têm seu coração rasgado pela perda sem nenhum sentido, pelo vazio que as marcará pelo resto de seus dias na Terra, pela solidão que vai governar a sua existência.

Muitas dessas mulheres, além de perderem seus filhos, já sofreram com o abandono pelo homem de sua vida, seja por vontade dele mesmo, seja também por motivos violentos, ou por outros acontecimentos que o fizeram sumir da vida delas, acentuando o isolamento dessas mulheres.

No entanto, como lobas, gigantes e fortes, essas mulheres se erguem, enfrentando todas essas cicatrizes, que marcaram a sua vida, superando com desejo descomunal todos os obstáculos que surgiram em seu caminho, pedregoso, espinhoso, cheio de trilhas íngremes, muitos deles de mata fechada, em meio a muitos perigos, e chegam a uma enseada, olhando para trás e enxergando a vitória à frente.

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Não basta que coloquemos no papel essas sensações de impotência diante dos acontecimentos da vida real, mas precisamos como sociedade apoiar e auxiliar essas mulheres para que passem por menores sofrimentos, exigindo uma reorganização dos setores que aumentam as chances de elas poderem reagir com maior rapidez aos problemas que as atingem. É necessário que se multipliquem as ações e os órgãos que as levem a um patamar melhor na vida.

Rosana Renata dos Santos Dominguez

Natural de Itajaí, SC, iniciou sua trajetória artística com apenas 12 anos de idade. É formada e pós-graduada em artes visuais e mestre em educação pela Furb (Fundação Universidade Regional de Blumenau), SC. Possui inúmeras exposições coletivas pelo Brasil e algumas individuais. É catalogada por várias revistas e catálogos de arte, tais como “Mostra Bordeaux” e “Consulte – Arte e Decoração”. É consultora artística, assessora artística de projetos de pesquisa e extensão, foi membro do CMC (Conselho Municipal de Cultura de Blumenau), SC. Foi presidente da Bluap (Associação Blumenauense de Artistas Plásticos), orientadora artística da Olimpíada do Conhecimento Senai e Senac, Blumenau, SC. Lecionou na Furb por dez anos e no Senac de Blumenau. É proprietária do Arte Vária Ateliê, técnica utilizada nas artes que foi desenvolvida para aquarelas, que estão publicadas especialmente para este texto.

Papel livre de ácido, próprio para aquarela. Francês, Canson Montval. Grano fino, 300 g/m2.

Tinta em pastilhas, linha profissional da Winsor & Newton + bisnaga da linha Cotman “Water Colours”, da Winsor & Newton.

Sobre o autor

Márcia Leite

Márcia Leite

Graduada em Farmácia e atualmente estudante da área de Humanas, mostro interesse em diversos temas. Incomodada com questões sociais e que mexem com a convivência e a saúde das pessoas.