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O ódio é uma criança ferida: raiva, polarização e a dor que ninguém quer ver

Menino sentado no chão, com a cabeça apoiada nos braços sobre os joelhos, demonstrando tristeza e isolamento.
Matt_Brown / Getty Images Signature / Canva
Escrito por Andrews Rodrigues

Por que o ódio virou o sentimento que organiza a vida pública? Neste artigo, proponho um olhar radicalmente humano sobre a raiva e o ódio, não como defeitos morais, mas como escombros de uma criança destruída que nunca pôde chorar suas dores.

Hoje me é claro que a raiva, que o ódio, são escombros de uma criança destruída, e esses escombros cobrem uma dor visceral há muito enterrada no peito e no ventre do indivíduo.

A violência se torna um mecanismo de defesa. Isso não é nada surpreendente: todos já vimos como mesmo um ratinho ataca quando encurralado. Os indivíduos carregados de ódio são esses ratinhos, não é uma comparação pejorativa, apenas uma constatação, pois o padrão de sobrevivência que atua em ambos é o mesmo.

Considerando que o ser humano possui um sistema nervoso muito mais complexo, com uma gama de emoções intensas e difíceis de processar, o ódio se torna, com o tempo, uma resposta automática aos impulsos do ambiente.

Pior ainda é que, como seres com autopercepção de nós mesmos, tendemos a absorver aspectos de nossas emoções e compreendê-los como nossa própria identidade. Uma vez que uma pessoa tomada pelo ódio assume que aquilo faz parte de quem ela é, esta o pintará como uma virtude. Nesse estado, se tornará praticamente impossível que se liberte deste sentimento que consome a sensibilidade e a clareza de qualquer mente sã.

Uma mulher e um homem discutem com gestos expressivos, demonstrando tensão e dificuldade de comunicação.
Timur Weber / Pexels / Canva

A polarização em que vivemos hoje revelou como grande parte da sociedade se veste com essa armadura pesada e hostil sem perceber que essa carapaça espinhosa protege uma ferida nunca tratada a latejar em seu interior. A ira os protege dessa dor que os destruiria, o próprio sistema biológico age para preservar sua existência. Para essa força inconsciente, é questão de vida ou morte.

Hoje, com o advento da internet, vemos essas pessoas se unindo, tornando o seu ódio seco em um elo de pertencimento. Elas encontram porto seguro em outros como elas. Passam a lhes contar uma história de luta e honra, vendo a si mesmos como guerreiros carregando a espada que livrará o mundo dos tolos que querem um mundo feliz. Mas eles não aceitam a felicidade: a dor lhes consome e a ira é o combustível que os mantém de pé.

Não há muito o que fazer com essas pessoas, e é difícil não espelhar a elas o ódio que despejam no mundo. Todavia, estes não são maioria. Todos carregamos a raiva e a temos como uma reação natural a ameaças no ambiente, porém nem todos tornam isso parte central de sua identidade.

Nosso cuidado deve ser garantir que mais pessoas entendam do que sofre essa parcela da sociedade, e entender que não se pode permitir que essas pequenas figuras feridas, que se esforçam em gritar alto para suprimir o próprio choro, decidam o caminho que tomamos como sociedade.

Devemos garantir que as próximas gerações possam chorar suas dores e compreendê-las ainda criança. Esse cuidado só pode ser feito coletivamente. E sabemos que o caminho da direita não tem como base o coletivo, mas apenas o indivíduo em sua sede por ganho próprio. Seguir pela esquerda, por mais problemas que ainda haja no entendimento desta, é saber que se segue em direção do único caminho possível: o da união de todos, o cuidado mútuo do coletivo, onde o indivíduo tem uma base sólida para crescer e se desenvolver. Não há outro caminho.

A vida é coletiva, ninguém é uma ilha. Então, abracemos nossos companheiros e sigamos nessa causa da qual nossa sobrevivência depende.

Abraço e até a próxima reflexão.
Fique bem!

  • Andrews Rodrigues

    Andrews Rodrigues

    Agente de Transformação
    [email protected]@andy.creatives@conexaocolablinkedin.com/in/andy-creatives-a776a0102serliricoficial

    A vida é algo raro e a gente parece não se dar conta disso apenas porque vivemos em um oásis onde ela é abundante.
    Quero viver em um mundo que garanta a vida no centro de todas as nossas ações. Um mundo onde possamos desenvolver o melhor do potencial humano, superando o comportamento mecânico que tem nos levado a um caminho obscuro e incerto.
    Quero viver em um mundo onde o indivíduo seja sustentado pelo coletivo, tendo espaço para crescer e fortalecer ainda mais a comunidade. Um mundo que respeite o lugar que cada um ocupa, e no qual cada indivíduo seja responsável ao assumir seu papel.
    Quero viver em um mundo possível, mas que, para acontecer, exige transformação: não no planeta em si, mas no nosso modo de construí-lo. Isso requer abandonar os velhos padrões apoiados no mero instinto de sobrevivência e assumir a plena consciência de nossas ações.
    Convido você a fazer parte desse movimento.Andrews Rodrigues | Escritor, artista visual e estrategista narrativo.