Espiritualidade

O Real Valor está no Interior

Uma pessoa de braços abertos em meio a natureza. Ela olha pra cima. Ao fundo, montanhas.
jomnicha / 123rf
Escrito por Roberto Guelfi

As sociedades pressupõem que as religiões visam oferecer o acolhimento à devoção espiritualista das pessoas. No entanto a espiritualidade não depende da religião, já que a prática espiritualista é interna ao indivíduo e não pressupõe a crença em dogmas nem a prática de rituais coletivos ou a obediência a preceitos concebidos por uma organização religiosa hierarquizada e dogmática.

A espiritualidade é proativa, espontânea e praticada de acordo com o nível de consciência de cada um. As religiões tendem a ser impositivas, restritivas e moralmente coercitivas.

Muitas pessoas são religiosas, mas não espiritualistas, já que não possuem autonomia espiritual; dependem de um deus externo que as proteja e as salve dos próprios pecados, além de precisarem da identificação grupal; outros são espiritualistas puros e compreendem as incoerências das religiões e sua motivação de poder e domínio. Outros, ainda, são espiritualistas parcialmente convictos e procuram o aconchego psicológico de uma religião, “just in case” (1)

(1) Expressão, em inglês, que significa “Em caso de…”, “por segurança”.

Do EU ao ego

O crescimento espiritual é um processo que se desenvolve de dentro para fora, ou seja, do interior do ser — da conscientização crescente da sua unidade com o cosmo e com o Universo — para o exterior — para a expressão dessa conscientização em seus pensamentos, sentimentos e ações. A palavra conscientização, aqui empregada, tem o sentido de percepção, de observação consciente de algo que existe, mas que não necessariamente aparece no radar da mente racional.

Um homem vestindo um terno e enchendo um balão de ar com a boca.
D-Keine de Getty Images Signature / Canva / Eu Sem Fronteiras

O que ofusca a visão da Totalidade — que é o ser humano — são as camadas de individualismo egóico que se formaram ao longo de sua caminhada pelos campos da matéria. O que era para ser apenas um instrumento de interação do Ser com a matéria de que se revestiu — “EU, o espírito Uno individualizado no contexto da experiência terrena, tenho um corpo físico e a habilidade do pensamento e dos sentidos” — transformou-se em sua identidade: “Eu, esta personalidade singular, diferenciada de qualquer outra, sou meu corpo físico, meus pensamentos e meus sentidos”.

Assim, a consciência do EU — que nunca deixou de existir como reflexo do Criador no ser humano — transformou-se na consciência limitada do eu inferior ou do ego, como uma barreira entre o Espirito Uno no ser e o mundo material, campo da experiência para a qual foi trazido ao planeta. A palavra “religião”, do latim “religare”, tem este sentido original: religar a personalidade, a individualidade do ser ao Todo, a Deus.

Do ego ao EU

Crescimento espiritual, portanto, é o processo de fazer a consciência superar o bloqueio do ego e alcançar o EU, sua origem. Não se trata de anular o ego; trata-se de transferir a identificação com o ego para a identificação com o EU.

Trata-se de não mais se afirmar na ilusão do “eu sou o meu ego: meu corpo físico meus pensamentos e minhas emoções” e passar a compreender a realidade do “EU não sou o meu ego, EU sou o Espírito Uno individualizado, apenas portador de um corpo e uma psique no contexto da experiência terrena”.

Este é o caminho de volta, o retorno para Casa, para a verdadeira identidade com o Criador. Não seria esse potencial de identificação com o Criador o significado da expressão: “Somos feitos à imagem e semelhança de Deus”?

“Identificar-se” significa assumir a identidade de alguma coisa, significa existir tendo a consciência de ser essa coisa. Minha identidade é o que eu tenho consciência de ser. Sua identidade é o que você tem consciência de ser. A humanidade, ainda em grande parte no estágio atual de sua evolução espiritual, identifica-se com o ego, que, portanto, é a sede de sua consciência. Em sua origem primordial, o homem identificava-se com a Fonte, com o Espirito Uno — que é a sede da consciência cósmica — antes de essa identificação se desviar para o ego — corpo, mente, emoções, sensações — ao longo de sua experiência na matéria.

Uma pessoa sentada no solo. em meio à noite. Uma luz enfoca ela.
Saptashaw Chakraborty de Getty Images / Canva / Eu Sem Fronteiras

Esse processo de transferência da identidade individual, em retorno, do ego para o EU, é o que se chama de evolução espiritual. Ela impõe a participação em tempo integral do ser, seja de forma consciente ou inconsciente. Nada ocorre no Universo, e mesmo na vida dos seres humanos, que não seja para sua própria evolução.

A eficácia do processo, no entanto, depende de como cada um responde às oportunidades de despertar para o EU que lhes são oferecidas. Aqueles que as compreendem e as acolhem têm uma caminhada mais suave e mais célere no processo evolutivo. Aqueles que não as reconhecem e as rejeitam têm seu percurso mais lento e doloroso na senda da evolução.

Acordar para o espírito é um processo inexorável, cosmicamente determinado, que foge ao livre-arbítrio. O livre-arbítrio apenas pode interferir em como cada um decide fazer essa caminhada. Mas não existe liberdade sem responsabilidade. Por isso cada um responde pelas escolhas que faz a favor ou contra a orientação cósmica da evolução em direção ao espírito.

A dor é apenas um lembrete de que talvez estejamos ainda navegando em águas rasas ou mesmo que, embora já em mar aberto, onde as correntes conduzem a consciência ao seu destino, em algum momento houve um desvio do curso que colocou em risco a chegada ao verdadeiro e real porto seguro.

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No estágio atual de evolução da humanidade, a consciência humana habita o ego, incapaz, portanto, de “enxergar” o EU. O ego é capaz de perceber conscientemente o seu contexto: corpo e psique. Mas o que existe em dimensões mais sutis somente poderá ser percebido quando a consciência se ancorar nestas dimensões:

O EU somente pode ser percebido a partir de si mesmo!

Sobre o autor

Roberto Guelfi

Espiritualista, escritor, revisor literário, músico amador. Seu trabalho é divulgado na mídia digital e por meio de livros que propaguem a Luz.

De formação profissional na área de gestão de empresas e na área acadêmica, particularmente em finanças, desde muito jovem tem se lançado ao desafio de seguir o roteiro, imposto pela consciência de olhar para cima, para fora do sistema socioeconômico-cultural (a matrix), fazendo do desenvolvimento da consciência seu projeto de vida, o que só parece fazer sentido se compartilhado com quem quer que se coloque na trajetória dessa intenção.

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Livro: Ousar Saber