Budismo Espiritualidade

A identificação e o sofrimento

Francicleiton Cardoso

Uma análise budista da condição exausta do ser humano atual.

“Agora, bhikkhus, esta é a nobre verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.”

(Samyutta Nikaya LVI.11 – Dhammacakkapavattana Sutta)

Uma premissa base no Budismo➀ é de que a nossa relação com o mundo em que nós vivemos, imerso em uma realidade condicionada e condicionante, feita de transitoriedade (anicca) e insubstancialidade, gera todos os tipos de sofrimento (dukkha). Esta primeira Nobre Verdade➁ não quer nos assustar, nem aprecia a possibilidade de nos desesperarmos diante do fato. Ela nos desvela a situação. Fora da lógica dos conceitos que criam a percepção limitada da natureza das coisas, das pessoas e do próprio mundo; já não se estaria mais sobre os domínios de dukkha. Já não se agiria em motivação do desejo, do anseio nem da ambição (tanha), e toda a insatisfatoriedade (dukkha) nos apareceria como roupas da nossa infância, pelas quais guardamos um carinho especial, mas também uma absoluta compreensão de que não nos servem mais.

Vista como filosofia, a impressão sutil de Shakyamuni Buda pode parecer impraticável. Se olharmos para a realidade virtual que criamos, na qual estamos temporariamente enjaulados, veremos que não é difícil encontrar quem acredite piamente em verdades intocáveis que são defendidas até com o uso de agressões, preconceitos e muita dor. E quando essas verdades não expressam exatamente a essência daquilo que nós somos, em unidade? Nós estamos acostumados a crer e levar muito a sério aquilo que acreditamos ser o certo, sem que ninguém, nem nós mesmos, tenhamos garantia de que este certo realmente diminui o sofrimento. Ou não seria viver sem sofrimento a busca mais sensata que poderíamos realizar nesta vida, que é tão impermanente como todos os fenômenos?

A young woman suffering from noise and covering her earsA verdade é que existe uma peça muito mais deslocada neste quebra cabeça, que é difícil de achar. Estamos concentrados no estímulo-resposta. Um rotineiro espetáculo que nos faz crer que temos não só verdades, como também beleza, posse, felicidade, etc. Uma ilusão, de fato, que junto consigo traz a identificação com algo que consideramos ser um eu. É aqui a raiz do problema. Se sou vazio e todos os acontecimentos são vazios, qual o ganho em tentar se apegar a qualquer coisa? Não parece ser perca de tempo continuar nessa ciranda de tanha. Era disso que Buda estava tratando; e a resposta fundamental que ele deu para esse ciclo não poderia ter sido diferente dos demais sábios que compreenderam a natureza dos fenômenos: o desapego (vairagya).

No Vedanta, vairagya é a prática principal, através da qual é possível realizar a completa compreensão e alcançar altos degraus de elevação espiritual. Sivananda, swami reconhecido, explica que vairagya nasce de viveka, isto é, da discriminação entre eterno e não-eterno (nitya e anitya), real e não-real (sat e asat) e essência e não-essência (tattwa e atattwa). Ele propõe ainda que a devoção (aradhana) e o altruísmo praticado nas diversas vidas nos encaminha para viveka➂. De todas as formas, mesmo a concepção hindu ainda busca uma identificação, algo separado de nós e que atingiremos com o nosso esforço.

O que Buda propõe é como ele mesmo denomina, “ir contra a corrente”, nos elevando à compreensão de que a essência primordial não existe, tal como alma separada, Eu, ou espírito; e que, para além do ego e da personalidade, somos consciência livre, não-eu (anatta➃). A apreensão sutil de Shakyamuni invade o íntimo dos nossos sentimentos e sentidos e perturba o corolário da nossa existência. O que sugere o meditador é que entremos também em profunda meditação (samadhi), para presenciarmos a bolha da nossa existência desmaterializar-se ao mergulhar no oceano da compreensão. O fato é que soaria brevemente contraditório um argumento que suscita anicca como uma verdade dar, ao mesmo tempo, a possibilidade de um eu permanente; embora esta não fosse a preocupação fundamental de Buda, que se ocupou principalmente com a extinção da ignorância de incontáveis seres de maneira mais simples e clara.

Krishnamurti, filósofo e livre-pensador indiano, acreditava no potencial humano para compreensão de anatta e defendia que somos capazes de alcançar o que chamou de pensamento criativo, isto é, a felicidade como fruto da observação pura da realidade e da não-dualidade no discernimento da natureza das coisas. Esta ideia fundamenta a concepção budista do não-eu, uma vez que, desapegando-se dos conceitos e preconceitos, naturalmente o ser humano liberta-se também da ideia de um eu.

A potência criadora surge quando estamos livres da servidão do anseio, com o seu conflito e seus pesares. Pelo abandono do “eu”, com sua positividade e crueldade, com suas lutas incessantes por vir a ser, surge a Realidade criadora. Na beleza de um pôr de sol ou de uma noite calma, já não sentistes uma alegria intensa e criadora? Num momento desses, estando o “eu” temporariamente ausente, ficais suscetíveis, abertos à Realidade. Essa é uma ocorrência rara, não buscada, independente de nossa vontade, mas o “ego”, havendo-a provado uma vez, em toda a sua intensidade, quer continuar a deleitar-se com ela, e por isso começa o conflito.

(Krishnamurti in O Egoísmo e o Problema da Paz, 1949)

Liberto da sensação de um eu permanente, sobra o que ao ser humano?

Sobrevive o que descreve acima Krishnamurti: uma realidade criadora, que é livre do véu da rotineira aparência dos fenômenos em que vivemos. Como examina o filósofo, em momentos sutis da nossa vida, já saboreamos esse esvaziamento e autoesquecimento, que frutifica o íntimo da experiência e nos impulsiona como seres neste planeta. Basta tentarmos nos lembrar do êxtase experimentado no esplendor do prazer sexual. Ou do momento de imersão causado ao observarmos a beleza de uma borboleta em pleno voo. O samadhi, neste sentido, não parece tão irreal, ao menos se não voltássemos rapidamente destas experiências para o contexto egoísta das nossas existências individuais.

Não é preciso investigar muito profundamente para deduzirmos que estas experiências nos colocam diretamente em cheque, uma vez que nos dão uma centelha daquilo que é a verdadeira felicidade e nos mostram o quão superficialmente estamos diante do potencial cósmico que carregamos.

Infelizmente, esta contradição que experimentamos diariamente não é capaz de dissolver por completo a nossa identificação com a realidade de sofrimento do mundo moderno; muito embora estejamos vivendo feito uma árvore que foi posta para crescer dentro de uma caixa de vidro, onde não há mais espaço.  Um sistema que cria uma realidade completamente dicotômica e segregadora está em meados de falir e tem provocado exaustão na humanidade.

A ansiedade generalizada advinda da instabilidade daquilo que achávamos que não mudaria tão rápido e drasticamente tem causado conflitos, como a ansiedade no corpo, gera doenças psicossomáticas. Ao mesmo tempo, a capacidade de condicionar desejos da nossa era de consumo dificulta a possibilidade de entendermos todo o processo do abandono do eu e da verdadeira felicidade que a realidade criativa é capaz de dar ao ser humano. Uma possibilidade que temos para sair da instabilidade e do medo e de evoluirmos enquanto raça para o benefício comum de todos os seres.


➀ A discussão sobre a natureza do budismo como religião ou filosofia é tão ampla, que se julga mais justo considerá-lo aqui como uma profunda e sincera compreensão da realidade, nos possibilitada graças ao empenho zeloso de Shakyamuni Buda.

➁ O budismo reconhece Quatro Nobres Verdades para compreensão da nossa realidade de sofrimento.

Essence of Vairagya. SIVANANDA, Swami. Tradução de Nando Pereira para o Darmalog. Original. 

➃ Leitura sugerida: Anatta: A Doutrina do “não-eu”, de Walpola Rahula

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Sobre o autor

Francicleiton Cardoso

Francicleiton Cardoso

Jornalista deseducado pelo zen-budismo. Grato pela existência da sabedoria oriental e de tudo que ela proporcionou sobre a filosofia da mente em um sentido advaita, sem falar sobre a imensurável contribuição do Tantra e da Yoga, legado indispensável. Tem formação em psicologia do eu profundo e direitos humanos.

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