Sempre tive dificuldade com a maneira como o mundo define produtividade. E não porque eu seja avesso ao esforço ou ao compromisso, mas, ao contrário, porque muitas das práticas socialmente consagradas como “produtivas” me parecem, na verdade, ações de manutenção disfarçadas de valor.
Dormir, por exemplo, é indispensável. Sem ele, tudo colapsa. Mas ainda assim, quando olho com frieza, vejo o sono como um período em que me retiro do mundo. Ele me recompõe, não resta dúvida, me preserva, me impede de adoecer… Mas não produz nada fora de mim. Seu valor é intrínseco, fechado, autocentrado. Ele mantém o sistema funcionando, mas não o expande.
Não sinto isso como me rebelando contra o sono, mas como um incômodo de cunho filosófico: por que aceitamos tão facilmente que enormes fatias da vida sejam organizadas como “zonas mortas” de produção? Esse mesmo incômodo aparece quando penso em exercício físico: sempre detestei academia, mas não por algo que passe pela preguiça ou por falta de disciplina: elas apenas me provocam um sentimento que vou destilando pelos corredores pouco iluminados da filosofia.
Nunca deixei de me exercitar – é bom que se diga – mas academias me remetem a um modelo artificial de valor. Um espaço onde sou obrigado a concentrar esforço em blocos longos: deslocar-me até ela, interromper o fluxo da vida, esgotar o corpo, para então voltar ao mundo “depois”, como se aquele intervalo tivesse sido um parêntese indesejável, apenas “necessário”, mas pouco prazeroso. Não nego o benefício. Ele existe, claro. Mas me passa uma forte sensação de tempo perdido. Durante aquele tempo, nada mais acontece. Nenhuma outra ação é possível. É como se a vida tivesse sido colocada em pausa para focar na manutenção do corpo.
Já em casa, faço o oposto: intercalo! Uma prancha de 45 segundos, e volto ao que estava fazendo. Um supino de um minuto, um minuto e meio, e retorno à atividade anterior. Não há deslocamento, não há ritual vazio, nem exaustão performática. O exercício aqui não me sequestra o tempo, não me submete às suas regras: ele se acopla à vida! Nesse modelo, nada é sacrificado: nem a prática e nem a produção cotidiana. Ambos acontecem como partes de uma mesma coisa. O corpo é ativado e o mundo continua girando. Foi aí que comecei a entender que o meu problema nunca foi com determinadas práticas, mas com o critério de valor que as sustenta.
A lógica dominante destes nossos tempos confunde esforço com produtividade: quanto mais tempo concentrado e desgaste visível, quanto mais suor e exaustão, mais “valor” parece trazer. Mas isso é um resíduo de uma mentalidade industrial, que precisa ver o tempo sendo consumido para legitimar o resultado. O que me interessa é outra coisa: me envolver com ações que não interrompem o fluxo da vida para se fazerem presentes. Quando uma prática exige que eu me retire do mundo para que ela funcione, sinto como se a vida me escorregasse por entre os dedos, em vez de vivê-la.
Ações “mantenedoras” sempre me produzem esse tipo de sentimento, como se fossem desnecessárias por não agregar nada, apenas manter o que já se tem. Necessárias, às vezes inevitáveis, mas ainda assim um custo. Mas quando a ação se integra ao cotidiano, sem criar hiatos, sem exigir preparação artificial ou gerar fadiga residual, aí sim ela se aproxima do que considero produção real. Produção, para mim, não é o que cansa. É o que se soma.
Essa distinção ajuda a entender por que o sono também entra nesse mesmo contexto. Ele é indispensável, mas estruturalmente antissocial: durante o sono não há troca, não há externalidade, não há valor circulando. O máximo que ele faz é impedir que eu me degrade a ponto de não produzir depois. Mas, do ponto de vista analítico – ou filosófico, como queiram – isso revela algo maior: nossa civilização só reconhece valor quando há output visível, mensurável e imediato. Tudo o que é integrado, silencioso, distribuído no tempo de forma harmoniosa, mas pouco perceptível, é tratado como intervalo entre coisas mais importantes, e não pelo prazer que produzem.
O meu incômodo nasce exatamente aí. Talvez o erro não esteja no que se faça, mas no modelo que insiste em separá-las da vida, transformando tudo em compartimentos estanques: trabalho de um lado, corpo do outro, descanso em outro canto, como se a existência pudesse ser fatiada sem perda. O que busco, intuitivamente, é uma redefinição de “valor”.
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Um critério em que o que importa não é a intensidade isolada de uma ação, mas sua capacidade de coexistir com outras sem anular nenhuma. Quando isso acontece, não há desperdício. Não há tempo sequestrado nem esforço exibido como prova de mérito. Apenas continuidade do que se é, sem pausas para o que não agrega nenhum valor, com “V” maiúsculo.
Talvez seja isso que me afasta de certos modelos prontos e me aproxima de soluções próprias: não quero práticas que funcionem “apesar da vida”, mas que se integrem a ela sem interromper seu fluxo. Se isso é produção ou manutenção, no fim das contas, depende menos do nome e mais de uma pergunta simples, mas que muda tudo: isso me cobra sair do mundo para acontecer, ou me permite permanecer nele enquanto acontece? A resposta a essa pergunta define, para mim, o que realmente vale.
