Convivendo Relacionamentos

O trabalho que dá a boa companhia

Leila de Sousa Aranha
Todos parecem buscar um relacionamento agradável, com parceria e companheirismo em relação aos próprios gostos e maneiras de ser. Entretanto existem alguns impedimentos para que isso ocorra com a maioria da pessoas. Sejam eles motivos pessoais, sociais ou familiares, o indivíduo se vê cercado de forças, vamos chamar assim, que ele desconhece ou domina muito pouco.

O primeiro obstáculo, mas não necessariamente o mais importante, é a competição entre os pares. Ela acontece de diversas maneiras, algumas veladas. Pode ser a diferença de idade que motive a disputa, a diferença financeira também conta muito, a formação profissional e até pessoal, níveis de educação diferentes ou questões de gênero. Ou seja, são pontos reais e significativos que estão ali, entre os dois, gerando desconfiança, desconforto e insegurança.

Para superar esses percalços, há que se fazer um exame detalhado das nossas intenções na relação. Sim, somos nós que devemos pensar a respeito do tema que mais nos incomoda, porque jogar a culpa no outro não eliminará a diferença provocante assim tão fácil. Quais são as minhas intenções nessa relação? O que espero do outro? Como me vejo daqui a dois, três anos com essa pessoa? A partir de um questionamento como esse, é possível avaliar o que vale a pena compreender e aceitar o que vale a pena conversar mais acuradamente para uma possível mudança. Mas já adianto que a mudança geralmente começa conosco. O outro é o outro, alguém a ser conhecido aos poucos, com respeito e atenção. Aliás, nós também.

Outro aspecto bem comum é a falta de transparência na relação. O casal vai criando um modo de funcionar tão particular e estável, que não percebe o quanto se tornou rígido, sem abertura para novidades, alegria e conversas francas. É o medo da mudança que alimenta esse comportamento. Achamos que já encontramos o tipo ideal de relacionamento e que já está muito bom, uma vez que tem tanta gente sozinha por aí…

Esse pensamento alimenta uma falsa ideia de que tudo está bem, que nada de ruim acontecerá. É uma acomodação e uma falha na comunicação. O ruim, na verdade, já está acontecendo! As conversas são automáticas, os contatos já se tornaram rotineiros (nada contra uma boa rotina), mas a verdade do coração fica de fora. O resultado é o esfriamento da relação, a desconfiança e, às vezes, até a busca de relações compensatórias.

A verdade tem que ser o terceiro elemento da relação, aquele que a nutre e transforma sempre que necessário. Viver sem verdade torna o casal vazio de sentimentos, indiferente à necessidade do outro e incapaz de se expressar com sinceridade e beleza. Há que se procurar a melhor forma de dizê-la e vivê-la porque Divaldo Franco, orador espírita, disse certa vez que a verdade é como um diamante, mas se for lançada no rosto não passa de pedra, antes se deve envolvê-la em um veludo para, então, apresentá-la.

Essa capacidade de delicadeza com o outro tem que ser construída diuturnamente, passando, antes de tudo, pela delicadeza com nós mesmos.

E, assim, chegamos ao terceiro ponto: delicadeza. O que está havendo com a humanidade? A falta de gentileza virou praga, doença. São raros os seres humanos gentis que encontramos pelo caminho e muitos os que estranham o nosso modo educado.

No consultório, atendo homens que comentam não conseguir encontrar companheiras que aceitem ser cuidadas, pois logo alegam que se trata de “dominação masculina”, que não deve ser sincero. Também há mulheres que se queixam de grosseria por parte dos homens. Namoros entre pessoas muitos jovens já começam com um quê de frieza e falta de educação que chega a espantar. E não estou falando de nenhum grupo social específico, mas de gerações que já iniciam suas relações com os piores modelos.

Qual a solução? Penso que não podemos deixar de revisar as nossas relações, antes de tudo, torná-las mais acolhedoras, nutritivas e significativas em todos os níveis, pelo menos naqueles que conseguirmos. Refletir sobre tudo isso é de suma importância para nós, mas também para os que nos copiam. E são muitos. Mesmo quem não tem filhos está ensinando algo sobre relacionamentos, porque o tom das conversas, a alegria do contato, a maneira como lidamos com a intimidade, tudo reflete no comportamento daqueles que nos cercam.

Por fim, escolher viver bem, sem competição, sem mentiras e sem indelicadezas faz de nós pessoas melhores, dignas do reflexo no espelho. Encher a vida de colaboração, verdade e delicadeza torna tudo mais leve, mais saboroso e divertido. E tudo isso em boa companhia.


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Sobre o autor

Leila de Sousa Aranha

Leila de Sousa Aranha

Sou psicóloga clínica, formada em Jornalismo e com Mestrado em Psicopatologia e Saúde, com o tema de pesquisa sobre o Perdão Interpessoal.
Atendo pessoas de todas as idades em consultório particular há 15 anos e gosto muito do ser humano, de acompanhar o seu desenvolvimento e auxiliar a melhor lidar com as situações de sua etapa de vida.

Sou divorciada e mãe de duas mulheres de 31 e 27 anos. Gosto de arte marcial e treino Aikido. Sou vegetariana, aprecio a natureza e os animais e gosto de encontrar meus amigos com frequência.

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