Convivendo Educação

O que os olhos não veem, a boca conta e a mente entende

Foto em fundo de chão cimentado gasto. Ao lado direito, fones com fio vermelho.
Marisa Pretti
Escrito por Marisa Pretti
Talvez você tenha lido o “sobre o autor”, eu, Marisa Pretti, e ficou curioso para saber o que faz um audiodescritor.

O que é audiodescrição (ou áudio-descrição)? 

As duas formas estão corretas, por questões de escola e escolha, adoto audiodescrição.

O nome causa estranhamento, esse recurso de acessibilidade ainda é desconhecido pelo público em geral e também por muitos cegos.

Para vocês terem uma noção da importância desse recurso de acessibilidade, no Brasil, o último censo de 2010 revela deficiência em 23,9% da população: 45,6 milhões com algum tipo de deficiência física, visual, auditiva, intelectual ou múltipla.

E a visual ocupa o primeiro lugar no ranking, com 35.791.488.

A audiodescrição é considerada uma tradução intersemiótica, onde um signo visual é traduzido para o verbal, a recepção é feita por meio de voz gravada, narrada ou sintetizada, permitindo assim que pessoas cegas e com baixa visão tenham acesso ao conteúdo de diversos produtos visuais, sejam eles estáticos ou dinâmicos.

Surgiu nos EUA nos anos 70, expandiu-se pela Europa e chegou ao Brasil por volta de 2000.

Com uma defasagem de aproximadamente 30 anos, agora está se fortalecendo no Brasil como uma ferramenta acessível imprescindível.

Foto em fundo preto. No canto superior esquerdo, imagem parcial de rosto no escuro, em perfil à direita. Apenas a ponta do nariz, lábios e queixo estão aparentes, iluminados por um foco de luz. No canto inferior direito, um microfone direcionado à boca. Fim da descrição.

De maneira bem objetiva, a audiodescrição é a tradução das imagens em palavras. Todo produto que puder ter a imagem traduzida em palavras pode ser audiodescrito: filmes, peças de teatro, ópera e musicais, dança, eventos esportivos e culturais. Quem se beneficia com isso? O público alvo são os cegos e as pessoas com baixa visão, que terão um entendimento maior daquilo que é apresentado e, com isso, uma interação maior com as pessoas videntes. Mas também contempla pessoas com dislexia e idosos.

Estudos validam benefícios para as pessoas com espectro autista e para as pessoas com dificuldade de atenção.

Gestos, cores, formas e tudo o que for relevante para a compreensão de determinada obra são traduzidos ao olhar atento do audiodescritor para que a pessoa com deficiência tenha condições de igualdade para opinar, decidir e até adquirir algo que seria impossível sem o recurso acessível.

O profissional audiodescritor deve ser um bom observador. 

Traduzir com fidelidade aquilo que ele vê, detalhar sem opinar e com objetividade. Avaliar se aquela informação é relevante ou não para a compreensão do contexto.

Já conversei com cegos que adoram receber tudo detalhado. Outros cegos querem apenas as informações de ações que não são faladas.

Foto da cintura para cima. Em primeiro plano, uma moça e um rapaz em conversa. A moça com cabelos longos lisos e escuros, usa camiseta cor de areia e segura na mão direita uma xícara. A mão esquerda espalmada, aponta para o rapaz. Ele é loiro com cabelos curtos e lisos, bigode e barba bem aparados, usa camisa jeans clara, está encostado em uma parede e segura entre as mãos uma xícara amarela. Os dois miram- se, sorridentes. Em fundo desfocado, ambiente descontraído, com objetos de trabalho e/ou estudo sobre uma bancada e uma bike à frente do cômodo bem iluminado.

Então, o bom senso me leva ao meio termo! 

O produto chegará até o cego de nascença, o que perdeu a visão jovem, o adulto e o que tem baixa visão.

Uma boa audiodescrição sempre começa com um bom roteiro e uma ótima revisão, feita por outro audiodescritor e um revisor audiodescritor com deficiência visual.

O audiodescritor utiliza de técnicas aprendidas e habilidades individuais: bom vocabulário, facilidade para escrever frases bem encadeadas, fluentes e sem entraves sonoros perceptíveis na hora da recepção. 

Uma boa audiodescrição deve priorizar a tradução com riqueza de detalhes do que é visto, porém, sintetizada, para que não seja cansativa.

Se for narrada, que seja por um bom narrador, com boa dicção, sem interpretação, mas com entonação adequada a cada produto.

Se for gravada, que seja com uma qualidade técnica no mínimo boa e com bons aparelhos receptores, sem interferências.

Em espetáculos (como teatro, dança e óperas), trabalhamos assistindo ensaios, conversando com os atores, bailarinos, diretor, figurinistas e cenógrafos.

Foto mostra cena de uma ópera. Ao centro, um casal homem e mulher lado a lado. Ele está levemente atrás, com a mão direita, enlaça a mão direita dela e segura junto ao peito, dele. Abre a boca em canto. Ela fecha os olhos. Os dois tem pele clara, cabelos castanhos, os dela, com alguns reflexos. O figurino em tons terrosos, avermelhados e dourados, remete à nobreza da era medieval.

O detalhamento se torna necessário: descrever o local do evento, o palco, cenários, figurinos, tecidos utilizados, iluminação, tornar o convite do evento acessível, com descrição das imagens contidas em e-flyers.

Todo esse trabalho passa despercebido porque acontece muito naturalmente na hora da apresentação, mas requer muito tempo de preparo.

A narração é sempre presencial, ao vivo, pois pode haver um improviso. 

No caso de roteiros para filmes, como não há cenas improvisadas, podem ser gravados e o roteiro recebido por fones de tradução simultânea ou aplicativos.

Só para você ter uma ideia: para fazermos um filme de 2 horas, são necessárias aproximadamente 40 horas.

Assistimos várias vezes o filme, damos pausas, voltamos, corrigimos, quebramos a cabeça para encaixar o roteiro acessível nas pausas das falas. A sobreposição às falas só acontece em casos extremos.

Pela minha experiência profissional, a maior dificuldade são os espetáculos de dança. Por quê? Porque não tem fala, apenas a música e eventualmente alguns sons. Tem um enredo, uma história, uma beleza, um encantamento suspenso na imaginação de quem ouve que pode ou não coincidir com o tempo dos movimentos.

A ação dos corpos no espaço que ele ocupa tem que ser traduzida.

Não basta usar termos como vira, gira, roda, salta, você tem que pesquisar muito sobre o que o coreógrafo quis transmitir.

Por isso, nessa situação, um consultor bailarino é imprescindível.

Pelo segundo ano consecutivo, o blog “As Meninas Dos Olhos” fez a audiodescrição do carnaval paulistano, até o momento, o nosso maior desafio! Missão dada é missão cumprida.

E você? Está pronto para uma missão?

Em primeiro plano, mão direita oferece um microfone. Em fundo claro desfocado, imagem parcial do corpo vestido com terno escuro, sobre camisa branca e gravata vermelha.

Vamos começar pelo básico?

Nas redes sociais: postou foto ou imagem? O que você vê? Simples assim: descreva para quem não vê.

O computador e o celular fazem parte do nosso dia a dia, e mais ainda, como um facilitador das pessoas com deficiência visual.

A acessibilidade digital é feita por meio de dispositivos, como hardwares e softwares de voz.

Acontece que o leitor de voz utilizado pelos cegos, Jaws, Dosvox, NVDA e outros, não leem imagens, então, se tiver algum conteúdo escrito inserido dentro de uma imagem, o cego não terá acesso, assim como fotos e qualquer outro tipo de imagem.

Procure fazer uma breve descrição, traduza o que acontece na cena.

O Facebook já utiliza de inteligência artificial para descrições, mas ainda são muito básicas.

Descrevendo as suas imagens, você demonstra boa vontade e respeito!

Tudo é questão de hábito, com o tempo, o ato de descrever imagens torna-se algo natural.

Na página “Iris Cor de Mel”, você encontra muitos exemplos de descrições, é só passar por lá e começar: https://www.facebook.com/AsMeninasdosOlhos?ref=br_rs.

Pequenas dicas para tornar as suas apresentações mais acessíveis visualmente:

  • Antes de iniciar a palestra, apresente-se ao microfone e fora do microfone. Assim, o público cego saberá onde estão localizadas as caixas de som;

  • Se o palestrante sabe que o evento terá audiodescrição, disponibilize o material antes para o audiodescritor;

  • Outro detalhe importante é dar uma pequena pausa entre um slide e outro para que o audiodescritor tenha tempo de descrever as imagens;

  • Se não tiver o recurso audiodescrição, o próprio palestrante pode descrever as imagens de maneira simples:

O slide cujo título é… É ilustrado por… No slide, uma foto de… No slide, o gráfico mostra os resultados de…

Um grande abraço acessível!


Você também pode gostar de outro artigo desta autora. Acesse: MEU PAI E A BERGÈRE SEM FUTURO

Sobre o autor

Marisa Pretti

Marisa Pretti

Amigo leitor...

Caro leitor...

Querido leitor...

Prefiro chamar você de Passageiro leitor.

Afinal, você está aqui de passagem como eu. Caminhando nesta Terra cheia de buracos e tanta água que haja braços fortes e pernas ligeiras para não se afogar.

Viver, a começar pelo ato de nascer, é para quem tem pacto fechado com a teimosia. O ar inflando os pulmões e o primeiro choro para que ninguém se engane: não estamos aqui só para sorrir, mas principalmente. Sim!

Sou mãe por vocação. Atriz por formação. Entusiasta por opção. Audiodescritora por paixão e profissão desde 2010.

Minha profissão, em uma breve descrição, se resume em traduzir imagens em palavras com o maior detalhamento possível para a pessoa com deficiência visual. Um recurso acessível também para idosos, disléxicos, pessoas com deficiência intelectual e para quem mais sentir necessidade dessa ferramenta assistiva. Simples e complicado assim. Trabalho com filmes, espetáculos de dança, teatro, vídeos, suportes empresariais, e o maior desafio foi levar acessibilidade visual ao Carnaval paulistano, desde 2017.

O mundo é visual, estímulos visuais são constantes! Por meio da audiodescrição qualquer produto pode ser traduzido em palavras.

Trabalhar com inclusão é estar atento ao outro, é ser um facilitador e igualar oportunidades.

Provavelmente foi esse gosto pelas letras encadeadas, mastigadas e saboreadas na língua como um demorado beijo que me trouxe até aqui.

Pretendo contribuir com minhas vivências e reflexões sem pretensão alguma, apenas para compartilhar alguns saberes. Uma leitura leve, um livre pensar, mas nem por isso descompromissado com a sua inteligência.

E porque creio na humanidade, na diversidade e na inclusão aceitei colaborar com o #EuSemFronteiras.

Abraços acessíveis!

OBRIGADA.

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