Convivendo Educação

Os olhos nas pontas dos dedos

Marisa Pretti
Escrito por Marisa Pretti

Lá atrás, bem lá onde nem enxergo a data exata, há uns 20 anos passados, guardados no tempo.

Em um dos muitos cursos que já fiz nesta minha vida de pessoa inquieta, sempre à caça de mais informação, iniciei um curso de locução.

Curso que hoje delineia grande parte da minha atuação profissional.

Na primeira aula, eu, a inquieta, sentada lá no fundão, como sempre fiz, notei na primeira fileira uma moça pequena com um cabelão indecentemente lindo.

Falante, mais que eu, com uma vozinha miúda e irritantemente aguda.

Qual seria a graça da minha busca por evolução espiritual se maldosamente, de imediato, não tivesse se formado na minha testa uma placa luminosa gritante com a pergunta: que raios essa menina está fazendo aqui com essa voz de cigarra? 

Eu, que ao final do curso, depois de milhões de broncas e de correções, fui avaliada como Pillow Voice, definição técnica da fonoaudióloga para não me chamar de rouca, voz que naquela época era totalmente fora do padrão. Hoje, me safo bem com ela.

A menina, de pequena estatura, era grande de aptidão. Quieta quando devia ficar… e todo mundo atrapalhava a aula. Divertida quando ninguém entendia a piada do professor-ator e sua aula em ritmo de stand-up.

Voz boa a menina não tinha, mas tinha uma ótima dicção e projeção vocal.

Mão iluminada para cima

O nome, o nome dela não lembro.

Mas enfim o nome não interessa no momento, e sinceramente também não vai interessar em outro momento, o que importa é que na primeira aula ela, pessoa com deficiência visual, recebeu uma apostila escrita.

Faça-me o favor, senhor diretor! Senhor ou senhora, não sei quem é o organizador deste curso.

E olha, escola reconhecida, boa mesmo, viu, não posso revelar o nome por questões éticas.

Mas isso faz uns 20 anos, e o desrespeito merece perdão. Ou não?

Toda essa introdução é para comentar que a escola não disponibilizou o material em Braille, e claro a menina virou minha heroína quando meteu a boca no microfone na primeira oportunidade e lançou um: exijo apostila em Braille ou o material em formato digital.

Palmas, muitas palmas, gritos de uhuuu, a sala inteira em pé gritando o nome dela.

Nome que eu não lembro, e claro essa comemoração também foi silenciosa, minha.

Agora, feche os olhos, só se você estiver ouvindo o artigo gravado, do contrário fique com os olhos abertos e continue a leitura.

Mãos de pai e mãe fazendo coração em volta dos pés de um bebê

Imagine uma comuna nos arredores de Paris, Coupvray.

No dia 4 de janeiro de 1809, uma quarta-feira de um inverno ferrenho, às 4h, nasce Louis.

Um bebê comum, e como todos os bebês com aquela carinha de joelho ossudo com pais boquiabertos achando a coisinha mais fofa de toda a França.

O bebê de sobrenome Braille chega ao mundo em uma madrugada acinzentada de provável névoa, assim como, a partir dos 3 anos de idade, ficaram anuviados os olhos, conta a história, azuis, do pequeno francês.

O pai de Louis herdou do avô o ofício de seleiro, e os registros afirmam que o menino deitava os olhinhos curiosos a admirar o progenitor na arte da produção de artefatos para montaria, como selas e arreios.

E divertindo-se com a arte da selaria o menino aprontou uma outra arte, daquelas que só Deus não duvida.

E meteu-se em uma encrenca que mudou a história da humanidade e seu próprio destino.

Criança, mesmo sob cuidados, consegue deixar até a Monja Cohen de cabelo em pé.

Louis, brincando no ateliê do pai, quem sabe imitando o gesto, começa a cortar tiras de couro e com uma sovela, instrumento de perfuração muito pontiagudo, fere gravemente o olho esquerdo.

Calma, gente, ele foi socorrido. Mas vamos rememorar as aulas de história e lembrar que a penicilina foi descoberta em 1928 pelo escocês Alexander Fleming e nessa data nosso devastador das trevas, morto bem antes em 1852, já havia passado dessa para uma melhor.

Com a medicina ainda engatinhando, o ferimento inicial no olho esquerdo toma proporções de uma grande infeção, que atinge o olho direito.

Azar? Dele. Porque assim é a vida. Azar de uns, sorte de outros.

E dessa tragédia nasceu para a sorte de muitos cegos o sistema Braille.

Mas antes de inventar o sistema Louis frequentou a escola da sua comunidade ainda por dois anos. O bacana é que a escola era frequentada por crianças videntes, uma iniciativa absurdamente inovadora para a época, a integração das crianças com ou sem deficiência.

E dizem que o garoto não era fraco, não.

Tanto que rapidinho ganhou uma bolsa de estudos aos 10 anos para ingressar em um colégio interno em Paris.

O danadinho, já interno no Instituto Nacional para Jovens Cegos, aprendeu mais através do sistema utilizado, criado pelo fundador, Valentin Hauy.

Era um método bem rudimentar, porém tinha lá sua eficiência: as letras de forma impressas em relevo no papelão eram tateadas pelos alunos.

Louis vislumbrava, além de outros métodos que aprendeu na sequência, inscrições em alto-relevo, feitas com letras costuradas em papel.

E olha só esta anotação no diário do menino: “Se meus olhos não me deixam obter informações sobre homens e eventos, sobre ideias e doutrinas, terei de encontrar outra forma”.

Por favor, pausa para levantar da cadeira e uma grande salva de palmas para Louis Braille!

Indignar-se é preciso para não ficar estagnado.

Eu fico aqui imaginando a vivacidade de Louis, hoje certamente seria diagnosticado como hiperativo.

Louis achava aquele método leeeeeeeeeeeeeento demais para sua pressa em aprender e não se conformou com o tatibitate.

Um belo dia, porque em todos os dias há alguma beleza, Charles Barbier, um capitão reformado, visita o instituto onde Louis estudava e apresentou um método que ele desenvolveu para que os soldados pudessem ler nos campos de batalha, no escuro, sem utilizar luz, bem quietinhos para não serem descobertos pelo inimigo.

O sistema de pontinhos em relevo em um papelão era muito parecido com o Braille, porém muito complicado.

Então claro que o Louis não ia deixar quieto, arregaçou as mangas da camisa que devia ser branca e começou a estudar o sistema para aperfeiçoar e simplificar.

E quatro anos à frente estamos em Paris, 1824.

Para tudo. Vamos abrir um champanhe, cerveja, suco ou água mesmo.

Vamos levantar novamente da cadeira e bater palmas outra vez!

Mãos juntas lendo livro em Braille

Sabe qual era a idade de Louis quando ele finalmente chega à excelência do método?

15 anos, meu povo!

Aí sim, Louis adolescente nada em grandes braçadas, descansa na praia dos que não desistem e pousa seus dedos ágeis no papelão cor de areia.

Eba! Em 1989, o método já está publicado.

Um sistema genial, com 64 símbolos em relevo, resultante de uma combinação de até seis pontos dispostos em duas colunas com três pontos cada uma.

Como na leitura à tinta, é feita da esquerda para a direita, de cima para baixo, com pontuação e tudo o mais. Com a ponta dos dedos de uma ou das duas mãos ao mesmo tempo.

O sistema também é utilizado para matemática e conta com símbolos musicais.

Mas, como toda semente cresce em flores e frutos e morre, Louis parte para outras missões, creio eu, para ensinar novos métodos na espiritualidade, em 1852.

Jovem demais, com tuberculose, como muitos naquela época, aos 43 anos.

E ele deve ter ficado muito bravo, viu? Depois dessa trabalheira toda, o método só foi adotado nas escolas em 1854, quando ele não estava mais aqui para validá-lo definitivamente!

No Brasil, o sistema foi introduzido desde 1854, data da inauguração do Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro.

E o Brasil, olha lá, o nosso Brasilzão, minha gente, foi o primeiro país da América Latina a adotar o sistema.

Eu me sinto bem feliz, sabe, quando vejo amigos cegos, em igualdade de oportunidades graças ao menino com olhos cor de futuro.

E a escrita Braille acontece através da utilização de uma reglete, uma espécie de régua vazada, e de um equipamento chamado punção, com um metal afiado na ponta que pressiona o papel para criar os pontos em relevo.

E também através das máquinas de escrever em Braille e das impressoras Braille.

Só me preocupa saber que por causa da tecnologia crianças com ou sem deficiência estão deixando a escrita para o tablet.

Os softwares e os leitores de tela têm diminuído a alfabetização em Braille, tão essencial quanto a alfabetização à tinta.

Mas é isso aí, leitores, o textão hoje é para comemorar o Dia Nacional do Sistema Braille.

Quanto à menina da introdução… nunca mais tive notícias dela!

Beijos acessíveis!


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Sobre o autor

Marisa Pretti

Marisa Pretti

Amigo leitor...
Caro leitor...
Querido leitor...

Prefiro chamar você de Passageiro Leitor.
Afinal, você está aqui de passagem como eu. Caminhando nessa Terra cheia de buracos e tanta água que haja braços e pernas fortes para não se afogar.
Viver, a começar pelo ato de nascer é para quem tem pacto fechado com a teimosia. O ar inflando os pulmões e o primeiro choro para que ninguém se engane: não estamos aqui só para sorrir, mas principalmente. Sim!!!
Sou mãe por vocação. Entusiasta por opção. Audiodescritora por paixão e profissão.
Minha profissão se resume em traduzir imagens em palavras com o maior detalhamento possível para a pessoa com deficiência visual. Simples e complicado assim.
Provavelmente foi esse gosto pelas letras encadeadas, mastigadas, saboreadas na língua como um demorado beijo que me trouxe até aqui.
Pretendo contribuir com escritos e experiências sem pretensão alguma. Uma leitura leve, um livre pensar, nem por isso descompromissada com a sua inteligência.
Trabalhar com inclusão é estar atento ao outro, é ser um facilitador e igualar oportunidades.
E porque creio na humanidade, na diversidade e inclusão aceitei colaborar com o #EuSemFronteiras.

OBRIGADA.

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