Filosofia

Querer é poder?

Caixa de pensamento desenhado em uma lousa com giz. Dentro do pensamento, uma lâmpada.
TeroVesalainen / Pixabay / Canva
Escrito por Luis Lemos

Embora algumas pessoas exagerem, o dito popular “Querer é poder” tem muito de verdade. Lembro-me de que, quando eu estudava no primeiro ano do ensino médio, o professor de Filosofia começou a falar da vida de Sócrates e como ele morreu.

Foi amor à primeira vista. A partir daquele dia, eu disse para mim mesmo que seria filósofo e vivia repetindo “Querer é poder”. Passei a acompanhar a aula do professor de Filosofia com mais atenção do que as aulas dos outros professores.

Um dia, tomei coragem e falei assim para o professor: “Mestre, eu amo Filosofia. Como faço para ser um filósofo?”. O professor riu um riso enigmático e disse em voz alta para que todos os alunos presentes ouvissem: “Vejam aqui quem quer me substituir”.

Eu interrompi a fala do professor e disse: “Não. Não. Não é isso professor. Acho que o senhor me interpretou errado”. Ele insistiu: “É isso mesmo. Você vai me substituir quando eu me aposentar”.

Naturalmente eu quase morri de vergonha, além, é claro, da uníssona vaia que levei da turma. Mas o professor tentou colocar ordem naquela bagunça e, também, aos gritos, começou a falar mais alto do que todos: “O que eu estou dizendo é que o Luís nunca faltou a uma aula minha. Ele sempre fez as atividades e entregou todos os trabalhos em dia. Ao contrário de muitos aqui…”.

Professor em frente da sala, com alunos prestando atenção a sua fala
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À medida que o professor ia falando, todos iam se calando. “Digam-me”, continuou ele: “Não é verdade que quem quer fazer Medicina deve se dedicar as matérias da área da saúde; quem quer ser advogado deve se dedicar aos estudos das leis e códigos; quem quer ser padre deve estudar Teologia, enfim, quem quer ser filósofo, como o Luís, deve estudar Filosofia, isso é natural…”.

Quando o professor acabou de falar: “Quem quer ser filósofo, como o Luís”, todos riram, novamente, às gargalhadas, e alguns começaram a falar assim: “Não desperdiça o teu tempo fazendo Filosofia”, “Filosofia não contribui em nada para a sociedade”, “Vai fazer um curso que te faça ganhar dinheiro Luís”, “Filosofia é coisa de vagabundo”.

O professor respondeu a cada uma daquelas colocações e falava olhando nos olhos dos seus autores. E, depois, voltando-se para mim, que, àquela altura, me encontrava recolhido no canto da sala, disse-me: “Se você quer ser mesmo um filósofo, continue lendo, lendo, mas lendo muito. Só assim você será um filosofo”.

“E o que é um filósofo?”, perguntou o único aluno que não me vaiou quando eu disse para o professor que queria ser filósofo.

“Bom…”, disse-me o professor, “para responder a essa sua pergunta, vamos chamar aquele que quer ser um filósofo. Venha para cá, Luís!”. Todo tímido, eu fui e comecei a ler Friedrich Nietzsche: “Um filósofo é um homem que vive, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente com coisas extraordinárias, que fica surpreso com suas próprias ideias como se viessem de fora, do alto e debaixo, como por uma espécie de acontecimentos e de raios de trovão que só ele pode sofrer”.

O professor, achando o máximo a minha leitura e a referência filosófica, voltou a falar: “Agora, para ver se o Luís será um bom filósofo, responda-nos: quando é que se comemora o Dia da Filosofia?”. “Sinceramente, professor, eu não sei” – respondi-lhe. Então ele começou a falar, e em cada uma de suas palavras era uma aula magna:

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“Comemora-se o Dia Mundial da Filosofia sempre na terceira quinta-feira do mês de novembro, pois foi nessa data que morreu, provavelmente, Sócrates. Essa data foi criada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por acreditar no valor da Filosofia para o desenvolvimento do pensamento humano em cada cultura e cada indivíduo, sustentando que o pensamento crítico ajuda a dar sentido à vida e às ações realizadas no contexto internacional”.

E eu, querendo aprender cada vez mais com aquele grande mestre, perguntei-lhe: “Qual é a importância da Filosofia?”. Ele, com a sabedoria que lhe era característica e a paciência de sempre, respondeu-me: “Você vai ter que descobrir por conta própria. Observe ao seu redor. Abrace o novo. Reflita. Para mim, Luís, o fundamento último da Filosofia é tornar o mundo um lugar mais tolerante e feliz para se viver”.

Por fim, peço ao estimado leitor e à estimada leitora que voltem ao primeiro parágrafo deste texto e vejam se concordam com o ditado popular ou não. Particularmente, essa é a minha filosofia de vida, sem a puxação de saco nem puxar o tapete de ninguém, porque, em última instância, acredito que a “Filosofia é a arte do bem viver”, como disse Marilena Chauí.

Sobre o autor

Luis Lemos

Luís Lemos é filósofo, professor universitário e escritor, autor, entre outras obras, de Filhos da Quarentena: A esperança de viver novamente, Editora Viseu, 2021.

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