Convivendo Espiritualidade

Renascimento

Sol Felix
Escrito por Sol Felix
Muito estranho este mês, a começar pelo 1º de Abril. Paulo não ouviu nenhuma piada ou mentirinha, nem de criança, nem de velho, nem de ninguém na fila da padaria.

Porém, nas raras vezes que via TV, mais e mais mentiras e suspeitas eclodindo desprevenidas dos bueiros midiáticos. Ele ficou um pouco chateado ao perceber que alguns suspeitos já foram seus candidatos de outros tempos.

Antes de berrar “ninguém presta” ou “o mundo está perdido”, Paulo voltou-se para seu planejamento mensal com os olhos focados nos feriados. Ele detesta a Páscoa. Geralmente viaja e só volta quando os ovos de chocolate já estão mais baratos, ou porque estão quebrados ou porque a data comemorativa já passou. Alívio, ufa! Aí sim retribui atrasado o que recebe, com a desculpa na ponta da língua: “Eu estava viajando”.

Talvez tenha sido a cirurgia que seu filho sofreu dia 8, ou o choque da descoberta de que coelhos são mamíferos e, portanto, não botam ovos, mas este ano Paulo refletiu sobre a Páscoa. Dentre todas as palavras em tudo o que leu, seja cristã ou pagã, a palavra RENASCIMENTO reluziu em sua mente e lá ficou. Por horas!

Ninguém pode nascer de novo, exceto se inserir uma “morte” entre o nascer e o renascer. Contudo, mesmo que metaforicamente, seria admitir a reencarnação. Isso Paulo não admitiria. É um homem cético!

Como renascer, sem aceitar que é preciso morrer? Como acreditar que de fato renascerá para, enfim, permitir-se morrer? E, o mais importante: como fazer tudo isso em vida?

Não viajou e não participou de almoços em família. Também não comprou chocolates (nem após o feriado). Em sua inusitada inquietação, ficou em casa e notou que ela necessitava de alguns reparos aqui e ali, coisas que ele mesmo podia fazer. E fez.

Em meio à arrumação fora de hora, encontrou uma imagem de Santo Expedito que era de sua mãe. Achou também os primeiros dentes de leite de seu filho. Encontrou antigos uniformes de trabalho e livros mofados que leu há 10, 15 anos.

Devido à sujeira, o pó e o mofo ouvia-se os espirros de longe e era possível sentir a preguiça vencendo a guerra. Paulo se arrependeu da faxina quando lembrou que na segunda-feira viria a diarista. Largou tudo.

Enquanto reconsiderava a ideia de reencaixotar suas coisas e esquecê-las novamente em um canto qualquer, olha para o lado e encara a imagem de Santo Expedito — como um assombro imediatista — pisoteando o corvo e gritando HODIE*.

Paulo suspira, lembra de sua mãe e recomeça.

Salve, Santo Expedito!

*Hodie – palavra em latim que significa “hoje”

Sobre o autor

Sol Felix

Sol Felix

Atriz formada pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul e Designer Gráfico (Universidade Paulista). Nesta vida, resido em São Paulo desde sempre. Não sou viciada em tecnologia e amo chocolate amargo. Acredito, de forma encantada, que o ser humano é, por excelência, Arte e Artista.