Convivendo Espiritualidade

Uma história inspiradora: St Kevin, eremita

Ilustração de St Kevin olhando para um pássaro, ao lado de um ovo.
Reprodução
Priscilla Herrerias

Há algum tempo escutei a história de Saint Kevin de Glendalough (Irlanda). Sua história (ou lenda) me tocou tão profundamente que nesses tempos em que o mundo inteiro está de quarentena, obrigado a parar, me pareceu ser ainda mais inspiradora…
Que nesse tempo de recolhimento possamos olhar com amor para dentro… que possamos fortificar nossos corações e entender, verdadeiramente, que somos um….
E que nos momentos de dúvida, a gente se pergunte: o que o amor faria?


Diz a lenda que St. Kevin, eremita, estava rezando em sua pequena, minúscula cela.
Ajoelhado, havia tirado um braço para fora da janela…
Quando um pássaro negro pousou em sua mão, ajeitou-se e fez aí seu ninho…
Botou seus ovos…
E st. Kevin, braço estendido, palma aberta, aí ficou…
Ficou até que dos ovos nascessem pequenos seres, até que crescessem e criassem penas e abrissem asas e voassem….

Então, meus olhos de criança imaginam a cena.
E minha cabeça de mulher adulta imagina perguntas.

Ilustração de St Kevin em pé, em um parque, com um corvo apoiado em uma das mãos.
Reprodução

Meus olhos de criança veem a delicadeza do pássaro no calor da mão macia e do braço talvez peludo de St. Kevin
E veem os olhos brilhantes do santo ao intuir as batidas do coração do pequeno pássaro
Seu peso ligeiro
O sopro de sua respiração

Meus ouvidos de criança escutam o barulho da água de um rio que talvez corresse ali ao lado
E sentem o desejo da gota que passa na água, em deter-se para contemplar o quadro
E o cervo que viria para beber do rio fresco também pararia, enamorado…

Talvez fosse inverno e houvesse neve
Que ressaltaria o brilho nos olhos pequenos e azuis do santo, os cílios molhados, as penas negras do pássaro, a casca fina e morna dos ovos…
Minha cabeça de mulher adulta pergunta qual era o pássaro, onde estava a janela, quem era o santo, que luz era essa que entrava na cela…

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Sangrariam os joelhos, congelaria o braço, dormiria? Onde estaria o pensamento, o cansaço, as dúvidas, os medos, tanta fragilidade, tanta vulnerabilidade, o espaço entre pele e janela, quem faria a comida, quem aqueceria a casa, de onde viria a força para alongar o braço?

Meus olhos de criança só veem uma coisa.
Um coração-pena-pássaro-palma-braço-coração.
Um pássaro-coração.
Coração-coração.

Chegaria a primavera.
Nasceriam os pequenos.
E ruidosos levantariam voo.
St. Kevin talvez apostasse consigo mesmo qual deles voaria primeiro.

Ilustração de um corvo visto de perfil.
Dribbble/Helena Cintra

Minha cabeça de mulher adulta vê st. Kevin exausto, escorrendo pela parede, deitando-se no chão, magro, quase morto, mas com um brilho nos olhos, uma alegria, um silêncio de uma mente sem perguntas, uma paz atemporal, branca, vazia, feliz… Minha cabeça de mulher adulta teria inveja de st Kevin, de ver que ele, o pássaro, o ninho, o espaço entre a pele e a janela, a luz, a gota de água, o cervo e mesmo a estrela que também contemplava… eram um, coração-coração.

E nesse momento meus olhos de criança que ainda imaginam a cena veem a mim, mulher adulta, e a si mesmos, colocando o travesseiro debaixo da cabeça de Kevin, dando de comer e de beber àquele corpo exausto e feliz, limpando-lhe as feridas dos joelhos, olhando nos olhos pequenos, fundos, infinitos… vigiando seu sono, aquecendo com a mão seu coração para que ele mesmo, em um silêncio ruidoso de alegria, voasse…

Então, minha cabeça de mulher adulta e meus olhos de criança, juntos, entenderiam o que é confiar… E agradeceriam a Terra pela confiança em cada um de seus pequenos, destemidos filhos.

Sobre o autor

Priscilla Herrerias

Priscilla Herrerias

Sou formada em Artes Cênicas e por muitos anos me dediquei ao teatro, onde me apaixonei pelas artes do corpo e do movimento. Seguindo este caminho, comecei a me aproximar das terapias corporais. Sou formada em Myofascial Energetic Release (Liberação Miofascial Energética), uma terapia de toque profundo e consciente, pelo fundador da técnica, Satyarthi Deva, na França. Depois de ter feito o caminho de Santiago como peregrina, pude estar durante dois anos e meio atendendo aos caminhantes. E essa também foi uma grande escola.

Atualmente atendo em São Paulo, Vila Mariana.

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