Convivendo

Dia das Bruxas, ontem e hoje

Mulher branca com roupas e capa escuras, ao lado de um lago.
Irina / 123rf
Tereza Gurgel
Escrito por Tereza Gurgel

Nas antigas sociedades, a mulher era considerada um ser sagrado, pois a ela lhe foi dado o privilégio de reproduzir a espécie. O papel do homem na reprodução foi reconhecido bem mais tarde; à medida que a tecnologia foi avançando, o “poder cultural” masculino começou a se sobrepujar ao “poder biológico” feminino. No momento que o homem começa a dominar sua função biológica reprodutiva, passa também a controlar a sexualidade feminina. A mulher passa a ser propriedade do homem e sua submissão psicológica perdura até os nossos dias.

Como entender o papel das bruxas ao longo da história? Antes detentoras do poder de se comunicar diretamente com a Criação – e as primeiras deidades foram femininas –, as mulheres foram também sendo colocadas à margem do poder religioso.

A Igreja Cristã teve uma longa trajetória até se tornar a religião oficial do império, e procurou consolidar essa posição combatendo toda forma que desafiasse o poder central, na figura do papa. Religião e Estado se unem, criando uma série de normas e leis para manter o controle da sociedade. Crenças ancestrais e costumes populares que não estivessem de acordo com o estabelecido deveriam ser combatidos com força total. Assim o papel proeminente das mulheres nas comunidades tinha que ser combatido – afinal, eram elas que guardavam o segredo de ajudar nos partos, de evitar uma gravidez indesejável, de saber quando plantar, onde colher e como usar as melhores plantas para curar etc.

O pensamento dominante passa a ser: dominar a própria natureza. A sexualidade e o prazer devem ser reprimidos, se preciso com violência. O amor, a integração com o meio ambiente e com as próprias emoções são elementos desestabilizadores da ordem vigente. Por isso é preciso se precaver de todas as maneiras contra a mulher, que será considerada a “tentadora”, aquela que perturba a relação do homem com a transcendência e que causa conflitos entre eles. Isso se faz impedindo-a de interferir nos processos decisórios, forçando-a a introjetar uma ideologia que a convença de sua própria “inferioridade” em relação ao homem.

A propagada inferioridade da mulher começa no próprio termo: “femina” (latim) vem de “fides” (“fé”, em latim) e “minus” (“menos”, em latim). Assim, “femina” é a que tem “menos fé”, a que é a mais fraca do que o homem em preservar a crença, e isso se deve à sua natureza crédula. Para os teólogos, por causa do desejo carnal “insaciável” das mulheres, era natural que houvesse mais bruxas que bruxos. Calcula-se que de 50 mil vítimas da Inquisição uns 25% eram homens.

Criança branca vestido de bruxa enquanto brinca com um balde preto.
Paige Cody / Unsplash

Por serem curadoras populares, detentoras do saber ancestral passado de geração em geração, as mulheres eram uma ameaça ao poder médico – predominantemente masculino (que surgia com o início das universidades) – e ao poder feudal (pois as mulheres participavam ativamente de revoltas camponesas).

As religiões cristãs (católica romana e protestantes) contribuíram para a centralização do poder, instituindo tribunais eclesiásticos para eliminarem os que julgassem heréticos ou bruxos. Já no século 5 existiram leis contra a prática da bruxaria. Mas o período de maior perseguição sistemática ocorre do fim do século 14 até meados do século 18. Em 1484, o papa Inocêncio VIII escreve a “Bula das Feiticeiras”. São nomeados dois frades dominicanos alemães, J. Sprenger e H. Kramer, como inquisidores. Em 1486/1487 esses dois frades escrevem o famoso “Martelo das Bruxas” ou “Martelo das Feiticeiras” (“Malleus Maleficarum”, em latim), que se tornou uma espécie de manual dos inquisidores. Os autores consideram a bruxaria algo exclusivamente feminino – os homens podiam ser magos, no sentido de mágicos; estes trabalhariam com “formas de superstição”, não com malefícios.

Assim, as mulheres ficaram estigmatizadas como um instrumento satânico, expostas à perseguição e ao castigo. A caça às bruxas serviu para eliminar crenças e práticas da Europa rural pré-capitalistas, que passaram a ser vistas como improdutivas e potencialmente perigosas para a nova ordem econômica. Um novo código social e ético foi imposto e toda fonte de poder independente do Estado e da Igreja se tornou suspeita.

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A perseguição continua ainda em nossos dias, com assassinatos cometidos sob a alegação de bruxaria: na Tanzânia, mais de 5 mil mulheres foram assassinadas como bruxas. Em 2016, na República Centro-Africana, mais de 100 foram executadas. Na Índia, a eliminação de supostas bruxas também ocorre, como no Nepal, em Papua Nova Guiné e na Arábia Saudita. Infelizmente até aqui no Brasil vemos a demonização e perseguição de religiões de origem africana. E não podemos esquecer o caso ocorrido no Guarujá (estado de São Paulo), quando uma mulher foi confundida com outra que supostamente sequestrava crianças para rituais de magia; após seu linchamento por cerca de 100 pessoas, verificou-se que a história era inventada.

Todas essas perseguições têm raízes na caça às bruxas do passado, justificadas pela religião, pelo poder e misoginia. Ser bruxa sempre foi um ato de resistência, uma luta pela retomada da liberdade de exercer a espiritualidade de modo mais natural e isento de dogmas. Assim, no Dia das Bruxas, podemos refletir sobre qual o real significado de ser bruxa ou bruxo e como essa história será passada às gerações futuras.

Referências

“Malleus Maleficarum” – https://pt.wikipedia.org/wiki/Malleus_Maleficarum

“Caça às Bruxas” – https://pt.wikipedia.org/wiki/Caça_às_Bruxas

“O Martelo das Feiticeiras” – Edições Bertbolso – Introdução de Rose Marie Muraro

“Eunucos pelo Reino de Deus” – Uta Ranke-Heinemann – Editora Rosa dos Tempos, Rio

de Janeiro, 2019

“Mulheres e Caça às Bruxas” – Silvia Federici – Editora Boitempo, 2019

“Calibã e a Bruxa – Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva” – Editora Elefante, 2017

Sobre o autor

Tereza Gurgel

Tereza Gurgel

Formada em Psicologia (F.F.C.L. São Marcos - SP). Filiada à ABRATH (Associação Brasileira dos Terapeutas Holísticos) sob o número CRTH-BR 0271. Atua na área Holística com Reiki, Terapia de Regressão e Florais de Bach. Mestrado em Reiki Essencial Metafísico e Bioenergético Usui Reiki Ryoho, Shiki, Tibetano e Celtic Reiki. Ministra cursos de Reiki e atende em São Paulo (SP).

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