Nunca houve tanta produção de conteúdo sobre saúde mental. Psicólogos, terapeutas e outros profissionais passaram a ocupar as redes sociais para explicar transtornos, orientar a população, combater preconceitos e ampliar o acesso à informação. Esse movimento trouxe benefícios importantes. Milhões de pessoas passaram a compreender melhor temas que antes permaneciam restritos aos consultórios e às universidades.
Ao mesmo tempo, surgiu uma questão que merece atenção.
Até onde termina o compartilhamento de conhecimento e começa a exposição do sofrimento humano?
A resposta nem sempre é simples.
Existem conteúdos que explicam conceitos, apresentam pesquisas, discutem comportamentos e ajudam o público a compreender melhor determinadas questões. Esse tipo de comunicação cumpre uma função social importante. O problema aparece quando a experiência íntima de alguém passa a ocupar o centro da narrativa.
Nos últimos anos, tornou-se comum encontrar profissionais iniciando vídeos com frases como “Hoje atendi uma paciente que…”, “Um caso me chamou atenção esta semana…” ou “Quero contar uma situação que aconteceu no consultório”. Em muitos casos, nomes são alterados, detalhes são modificados e nenhuma identificação direta é possível.
Ainda assim, permanece uma pergunta que vai além do sigilo.
A história foi levada ao consultório para produzir conhecimento ou para alimentar conteúdo?
O consultório representa um dos poucos lugares onde uma pessoa acredita que poderá falar sem medo de exposição. Aquilo que chega até o terapeuta costuma carregar vergonha, culpa, medo, insegurança e experiências que, muitas vezes, nunca foram compartilhadas com ninguém. Essa confiança constitui um dos pilares da relação terapêutica.
Quando histórias clínicas passam a aparecer repetidamente nas redes sociais, mesmo adaptadas, parte dessa confiança pode ser colocada em risco.
Também existe outro aspecto pouco discutido.
As plataformas digitais recompensam conteúdos capazes de despertar identificação imediata. Quanto maior a carga emocional, maiores costumam ser o alcance e o engajamento. Aos poucos, surge uma tentação difícil de perceber. Casos emocionantes parecem comunicar melhor do que conceitos. Histórias geram mais interesse do que pesquisas. O sofrimento passa a ocupar um lugar privilegiado dentro da produção de conteúdo.
Esse movimento merece reflexão.
O sofrimento humano não pode se transformar em estratégia de crescimento digital.
Existe uma diferença importante entre utilizar anos de experiência clínica para construir conhecimento e utilizar experiências particulares como principal fonte de visibilidade.
Também vale considerar o olhar do paciente.
Mesmo quando jamais será identificado, ele pode reconhecer a própria história. Pode perceber que uma experiência profundamente íntima passou a fazer parte de um vídeo assistido por milhares de pessoas. A questão deixa de ser jurídica e passa a ser ética.
A relação terapêutica depende da certeza de que aquele encontro pertence exclusivamente ao processo de cuidado.
Outro risco aparece quando histórias complexas são resumidas em poucos segundos. A vida humana raramente cabe em explicações rápidas. Um comportamento isolado dificilmente revela toda a trajetória de uma pessoa. Um diagnóstico não resume uma existência. Uma sessão não explica uma história inteira.
Quando essas experiências são transformadas em conteúdo, existe a possibilidade de simplificar aquilo que, por natureza, é complexo.
Produzir conteúdo faz parte da realidade de muitos profissionais. Também representa uma forma legítima de aproximar conhecimento científico da população. A questão não está na comunicação em si, e sim na origem daquilo que está sendo comunicado.
A psicologia oferece um campo vasto de pesquisas, estudos, teorias e reflexões que podem enriquecer o debate público sem recorrer às histórias particulares de quem procurou ajuda.
Toda profissão possui escolhas que definem sua identidade.
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Na saúde mental, uma das mais importantes acontece longe do consultório. Ela aparece diante da tela do computador, no momento em que o profissional decide o que merece ser publicado e o que continuará pertencendo apenas à relação construída com quem depositou nele sua confiança.
Nem tudo o que pode ser contado deve ser contado.
Essa diferença preserva algo que nenhuma estratégia de comunicação consegue substituir: a confiança de quem procurou ajuda acreditando que sua história seria tratada com o respeito que ela merece.
