Autoconhecimento Convivendo

A alegria é discreta

Bebê recém-nascido, enrolado em cobertores, esboçando um sorriso.
123rf/Tetiana Chernykova
Anna Bheatriz Nunes
Escrito por Anna Bheatriz Nunes

Têm-se confundido — muitas vezes — alegria com fuga de si. Lá fora, existem muitas barracas de pseudoalegrias para vender. Mas, ao retornar para o lar, torna-se perceptível que era apenas ilusionismo. Com a terceirização da alegria — se assim posso dizer — nos tornamos dependentes do excesso para que o sorriso apareça no rosto. Mas, na verdade, a alegria é discreta.

Mulher usando casaco, e girando com os braços abertos e sorrindo. Folhas secas caem, e outras já preenchem o chão.
Pexels/Andrea Piacquadio

Quando era criança, me sentia alegre com o abraço dos meus pais, com a roupa que aquecia, com um inesperado banho de mangueira, com uma acerola colhida fresquinha do pé. Acordava feliz e dormia feliz. Criança sabe ser presente. Porém, com a educação para o futuro, aconteceu uma distorção. Enredei-me na crença — limitante — que dizia que a alegria estava ao passar no vestibular, e não estava. Que estava na formatura, e, mais uma vez, não estava. Então, parei no meio do caos exterior incessante e entendi que no futuro não há alegria, pois ela consiste em voltar os olhos para o momento e receber o presente. É nele que a alegria se encontra.

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Ao contrário da felicidade, que é perene — estado de bem-estar, a alegria é a sua manifestação. A felicidade é como um copo d’água parado; a alegria é como um copo tão cheio, que transborda. Ser alegre é estar em êxtase. E o êxtase está no presente. E o presente? Ele é sutil, discreto. Por isso, a alegria também é.

Em alguns versos do grande poeta brasileiro Mário Quintana (1906–1994), é possível ter um vislumbre interior do que é a alegria. Eu, pelo menos, sorrio ao final dos versos. E o sorriso é uma doce expressão da alegria.

Menina em parque, segurando uma flor próxima ao seu rosto, e sorrindo com a boca aberta.
Matheus Bertelli/Pexels

DA DISCRETA ALEGRIA

Mário Quintana

Longe do mundo vão, goza o feliz minuto

Que arrebataste às horas distraídas.

Maior prazer não é roubar um fruto

Mas sim ir saboreá-lo às escondidas.

Que possamos saborear os nossos próprios frutos.

Que possamos sentir

a discrição extasiante da alegria.

Sobre o autor

Anna Bheatriz Nunes

Anna Bheatriz Nunes

Eu sou Anna Bheatriz Nunes, arquiteta, urbanista, escritora e poetisa. Autora do livro de poemas "da distorção à transformação", publicado pela Ape'Ku Editora. Expresso-me para dar vazão ao que sou e para me encontrar. Que as nossas expressões criem belos encontros!

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