Convivendo

A grande ironia

Garoto chorando.
Márcia Leite
Escrito por Márcia Leite

Chegamos ao mês da Consciência Negra, e vemos como o nosso Brasil é bastante bipolar.

Ligamos o rádio, tocam-se músicas de origem das senzalas espalhadas por todo país e até no mundo.

Cansamos de escutar pessoas se pronunciando de forma (in)consciente com palavras usadas de forma pejorativa:

“… e aí, nego, vem me dizer …”

“Para de denegrir a imagem dele…”

“Nuvem negra; fumaça negra.”

“Olha o cabelo dele, parece palha de aço.”

“Negro fede.”

“Senta aí, macaca.”

Presenciamos artistas e jogadores sendo agredidos publicamente…

Pudemos assistir alguns vídeos denunciando práticas segregacionistas, incluindo um em que a razão do problema estava no não fornecimento de yakissoba em plena Avenida Paulista, alegando a falta do produto, e em seguida, sendo servido o referido prato oriental no mesmo local para uma família não negra.

É radialista falando que o cabelo da mais famosa vítima do sistema, assassinada em uma emboscada juntamente com seu motorista, era horrível. Um personagem que nem cabelo tem mais …

E então, se justifica um refrão de um funk:

“É som de preto

De favelado,

Mas quando toca

Ninguém fica parado…”

Punho fechado.

Nas festas, sejam de aniversário, de casamento, até em quermesses, toca-se a tal música de preto, e o povo canta, o povo dança, põe no último volume no carro …

Como é que uma população misturada como a nossa é capaz de agredir um segurança em um jogo de futebol, querendo desclassificá-lo por causa da etnia. Assim como, em uma atitude separatista, colocar o neto de um compositor famoso e autor de obras musicais e literárias bem conceituadas, como Chico Buarque, em situação desconfortável, porque ele é filho do Carlinhos Brown?

E ainda, diversos motoristas de aplicativos se recusarem a levar algum passageiro porque ele “tem uma aparência suspeita”, como o Baco Exu do Blues, cantor brasileiro, negro…

Você também pode gostar

E tantos outros casos que acontecem por aqui…

A religião de origem africana, que exalta os poderes da natureza, é frequente alvo de ataques de outras religiões intolerantes e radicais, que querem pregar uma única verdade, mesmo que se diga que o importante é o amor ao próximo.

Ei, povo preconceituoso, o rock tem origem nas plantações norte-americanas … o samba nas senzalas… o funk nas favelas … sempre lugares considerados periféricos, refúgio do povo negro que cansou de sofrer, de apanhar, de ver seus cônjuges, filhos, irmãos, pais e mães, parentes, amigos, serem arrancados do lugar em que viviam em família, para serem vendidos, e irem apanhar, e até mesmo morrerem em outros lugares distantes, solitários, estuprados pelos seus senhores, feridos por suas senhoras enciumadas e mal amadas. Mortos pelo tráfico, pelo confronto, pelo isolamento, pela falta de oportunidade, pela fraca educação básica, pelo descaso, pela desnutrição, pelas doenças facilmente tratáveis se houvesse maior cuidado do poder público e da sociedade em geral também.

Frequentamos escolas ruins, enfrentamos pessoas bem preparadas, conquistamos as cotas, lotamos as universidades federais, ainda temos que disputar vagas com pessoas que se autodeclaram negros, porque não enxergam o absurdo que estão cometendo, e acham que têm o mesmo direito acima de negros, indígenas e estudantes que receberam a parca formação das atuais escolas fundamentais públicas, das quais os professores, quando estão exercendo seus cargos, se desdobram para passar o conteúdo educacional ainda que os computadores não funcionem bem, equipamentos audiovisuais estejam precários e não existam livros suficientes para lecionar com qualidade.

E mesmo assim, são poucos os que ocupam cargos gerenciais, de diretoria ou de presidências em grandes instituições, porque somos julgados incompetentes, mesmo que nossos currículos estejam bem recheados.

A culpa de tudo isso não é só das autoridades, é também do cidadão comum, que se julga superior, pelo fator cor de pele, de origem ou de linhagem.

O povo brasileiro quer se iludir achando que tem sangue puro … esquece-se que desde que o mundo é mundo há mistura entre os povos, basta se aprofundar um pouco mais na história dos povos mundiais.

Uma nação só se engrandece quando se conhece profundamente, aceita as chamadas diferenças, enaltece as virtudes de cada povo que a formou, e trabalha pelo coletivo e coletivamente para evoluir a cada dia mais.

Ei, pessoas não negras, vocês têm muito que aprender conosco, a nossa persistência, resiliência, vontade de vencer, e principalmente, alegria de viver.

Sobre o autor

Márcia Leite

Márcia Leite

Graduada em Farmácia e atualmente estudante da área de Humanas, mostro interesse em diversos temas. Incomodada com questões sociais e que mexem com a convivência e a saúde das pessoas.