Autoconhecimento

Resiliência: a capacidade de se renovar

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Resiliência é um termo que vem sendo muito usado em psicologia. Ganhou popularidade nos anos 80. Porém, o nome é emprestado da física. Resiliência é quando um corpo recupera suas propriedades iniciais, após ação de um agente externo. O eletromagnetismo oferece um bom exemplo. Uma mola estica ou encolhe ao sofrer os efeitos de um elemento externo, mas, volta ao seu estado normal sem nenhum dano. A palavra vem do latim resiliens, particípio passado de resilire e significava “ricochetear, pular de volta”. O prefixo re quer dizer “para trás” e o sufixo salire “pular”.

Na psicologia, é a capacidade do ser humano em superar as dificuldades sem entrar em conflitos. O assunto começou a ser pesquisado em 1955 pelas psicólogas americanas Emmy Werner e Ruth Smith. Elas estudaram crianças nascidas nesse ano na ilha de Kauai, a mais velha e quarta maior ilha do Havaí. As psicólogas viram que parte dessas crianças vivia em condições adversas: estresse perinatal (período iniciado na metade do 5º mês de gestação e termina no 7º dia de vida do bebê), pobreza crônica, pais que não concluíram os estudos, alcoolismo e doença mental. Algumas crianças apresentaram problemas aos dez anos. Entretanto, um terço delas não teve sequelas psicológicas. Emmy e Ruth classificaram as crianças como “vulneráveis, mas invencíveis”. Essas crianças foram estudas até os 40 anos. Fato curioso é algumas que tiveram problemas por viver em circunstâncias desfavoráveis conseguiram reverter a situação.

Outro estudo foi realizado na década de 70. Dessa vez, o alvo da pesquisa foram filhos de mães esquizofrênicas. Mesmo convivendo em meio a um transtorno mental, eles conseguiram desenvolver elementos para superar essa adversidade. Mas, como explicar essa vitória nos dois casos? Como explicar que pessoas que tinham tudo para encararem a derrota como algo normal conseguiram virar o jogo? O que elas têm de tão especial? Será que elas receberam algum treinamento para manterem-se fortes diante de situações estressantes? Você verá qual o segredo dessas pessoas.

Resiliência não é mágica

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A mola estica ou encolhe devido agentes externos, porém, retorna as suas características iniciais. Será que podemos ser como uma mola? Sim, isso é possível. Ser resiliente não é uma mágica, ninguém “vira resiliente” da noite para o dia. Tal habilidade exige treino que começa ainda na infância. Os pais exercem papel importantíssimo. Atitude que dificulta muito esse aprendizado é a mania que certos pais têm de “proteger” os filhos. Por exemplo, se a situação econômica da família vai mal, em vez de falar a verdade e explicar que será necessário alguns cortes, esses pais dizem que está tudo bem. Dessa forma, quando for adulto, aquela criança não saberá lidar com o problema, pois, no passado não foi apresentada a situação. Quem não treina a resiliência desde a infância ou dão ao problema uma proporção muito maior que a realidade, ou então adotam postura de vítimas.

O treinamento para a resiliência: parte 1

Os bebês se expressam pelo choro. Eles abrem o berreiro por fome, frio, sono e dor. Quando demoram a ser atendidos, choram mais alto. Entre o quarto e quinto mês, o bebê entende que nem sempre pode ter tudo imediatamente. Segundo o neuropediatra Saul Cypel, consultor do Programa de Desenvolvimento Infantil da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal é neste momento que a resiliência surge.

Família saudável ensina a obedecer regras, encarar as dificuldades e respeita os filhos. Pais resilientes não menosprezam quando a criança fala que tem medo do bicho papão. Eles explicam que isso não existe, confessam que possuem alguns medos e reforçam que sempre estarão por perto. Assim, a criança aprende a lidar com suas emoções e a lidar com seus medos.

Pais e mães conscientes não fazem todas as vontades dos filhos. Sabem explicar a necessidade de fazer escolhas, e que estas levam em conta a situação financeira. Famílias saudáveis com o hábito de jogar nunca deixam a criança ganhar sempre. Pessoas resilientes sabem que as frustrações fazem parte da vida.

O treinamento para a resiliência: parte 2

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O pediatra americano Kenneth Ginsburg junto com a Academia Americana de Pediatria publicou em 2011 o livro “A Parent’s Guide to Building Resilience in Children and Teens: Giving Your Child Roots and Wings” (Um guia para os pais construírem resiliência em crianças e adolescentes: dando a seu filho raízes e asas”, em tradução livre). A obra aborda os sete “C’s”, uma técnica para os pais iniciarem o processo de resiliência infantil, formando indivíduos mais fortes. Veja quais são os sete “C’s”:

-Confiança

Fale para seu filho sobre as qualidades dele e que sente orgulho. Pais que elogiam os filhos fazem um bem enorme. Crianças com autoestima são mais felizes. Elas entram na fase adulta bem resolvidos emocionalmente e fazem escolhas saudáveis.

Conexão

Mostre a criança como é importante o convívio familiar. Jogar conversa fora, falar de coisas sérias… Quando o filho sente que a família é unida, ele sabe que não está sozinho e tem a quem pedir ajuda. Se a casa ou apartamento for grande, reserve um espaço para a família se reunir.

Caráter

Explique que vivemos em sociedade e que existem regras. Fale que nossas atitudes afetam os outros. Você pode falar que declarações racistas constrangem e humilham quem ouve, além de gerar responsabilidades criminais.

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-Contribuição

Fale que nem sempre temos tudo que precisamos. Explique a criança que as coisas não caem do céu. Mostre a ela que precisamos contribuir para a realização dos nossos sonhos. Use um exemplo pessoal para ilustrar isso. Diga que para comprar a casa foi preciso trabalhar muito, abrir mão de algumas coisas para juntar dinheiro. Agindo assim você cria um indivíduo financeiramente consciente.

-Competição positiva

Mostre que a competição é necessária pode ser positiva. Fale que competição estimula a criatividade, consequentemente aumenta a produtividade. Deixe claro que a competição é positiva quando é alicerçada no trabalho honesto e no caráter.  

-Controle

A criança precisa entender que a vida é feita de escolhas e ações. Explique a ela que tudo tem sua consequência. Diga que beber antes de dirigir pode causar um grave acidente. Mostre que devemos pensar muito antes de tomar qualquer atitude, porque podemos impactar a nossa vida e a dos outros para sempre.

Embora precise ser estimulada ainda na infância, nunca é tarde para conquistar essa habilidade. É possível construí-la na fase adulta. Claro que é mais difícil, pois, a pessoa terá que se livrar de pensamentos e comportamentos destrutivos. Quer adotar uma postura em relação à vida? Confira os dez passos:

Construir resiliência na fase adulta

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1. Autoconfiança

Confie em suas qualidades. Liste os elogios que mais ouviu na vida. Quem falou essas coisas para você? Puxe na memória as vezes que aplicou com sucesso as habilidades atribuídas a você. O primeiro passo para qualquer mudança perceber-se como alguém especial. Se você não se enxergar assim, ninguém conseguirá.

2. Cuide-se

Cuide do seu corpo e mente. Durma bem para ter disposição e conseguir se concentrar. Tenha uma boa alimentação e beba água para seu corpo funcionar melhor. Pratique esportes para manter o peso correto e aliviar as tensões. Gostar da imagem refletida no espelho nos deixa bem mais seguros. Tenha momentos relaxantes. Leia, escute música, assista filmes e saia para dançar. Invista em algum hobby. De um mero lazer pode surgir uma nova profissão.

3. Não espere pelos outros

Muitas vezes colocamos a culpa dos nossos problemas nos outros. Daí surge a acomodação e o sentimento que eles devem reparar seus erros. Porém, raramente a responsabilidade está nas mãos de terceiros. Os outros nos fazem mal, contudo, cabe a nós erguer a cabeça e resolver o que está errado. O ditado “não importa o que fizeram conosco, mas sim o que fazemos com aquilo que fizeram de nós” sintetiza essa lição. Assuma as rédeas da sua vida.

4. Não se isole

Ficar sozinho faz mal a mente e ao corpo. Problemas de memória, pressão alta e obesidade estão associados a solidão. Devemos sim, reservar alguns momentos a sós, para colocar as ideias em ordem e nos reaproximarmos com nossa essência. Entretanto, não deixe de cultivar o relacionamento com familiares e amigos. Saia para almoçar, jantar e conversar com pessoas queridas. Faz bem saber que temos pessoas especiais ao nosso redor.

5. Expresse suas emoções

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Problemas sempre trazem um turbilhão de sentimentos. Precisamos identificar e colocar para fora. Converse com familiares e amigos. Quando não quiser falar, escreva sobre seus sentimentos em um diário, faça poesias, pinte, desenhe. Não deixe que suas emoções sufoquem. Ao desabafar, você vai se sentir bem mais leve e forte para seguir em frente.

6. Escute o que os outros tem a dizer

Quando desabafar, escute atenciosamente o que disserem. É bom entrar em contato com opiniões diferentes. Cada um irá oferecer uma perspectiva diferente para o mesmo assunto. Após ouvir o que familiares e amigos disseram, imagine como cada um deles reagiria ao seu problema. Você poderá ter insights surpreendentes e ficar com aquele ar de “como eu nunca pensei nisso antes?”.

7. Ajudar os outros ajuda a gente

Ajudar é uma maneira de superar as adversidades. Muitas pessoas fundaram ONGs após momentos difíceis. Você pode ajudar um colega de trabalho com dificuldades em uma tarefa. Escutar um amigo triste após o término de uma relação amorosa. Atuar como voluntário em creches, orfanatos e hospitais. Opções é que não faltam para ajudar quem precisa.

8. Elabore planos de ação

Mas seja realista. Liste todos seus problemas. Coloque no papel quando e como tiveram início. Trace estratégias para solucioná-los. Quer ser promovida no trabalho ou ter outro emprego? Faça cursos e converse com quem trabalhe na área que você deseja. Está desempregado? Procure cursos gratuitos e converse com familiares e amigos. Quer emagrecer? Corte comidas gordurosas, doces e faça exercícios. Não tem dinheiro? Ande pelas ruas do bairro. Está com dívidas? Elimine gastos supérfluos.

9. Agradeça

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Por mais que as coisas estejam não tão boas, você tem motivos para agradecer. Seja grato pela sua saúde, pela casa onde mora, pelo seu alimento, pela sua família e amigos. Seja grato por tudo que já conquistou. Ao agradecer, percebemos que em nossa vida existem muitas pessoas e coisas boas. Pensamentos positivos deixam o clima mais leve. Eles nos ajudam a levantar a cabeça e seguir em frente. Comece e termine o dia agradecendo.

Todo mundo tem problemas. Todo mundo mesmo. O seu amigo que vive sorrindo. Sua vizinha que vive bem arrumada e curtindo a vida. Até a pessoa mais rica do mundo tem problemas. Duas coisas diferenciam as pessoas resilientes das demais. As primeiras enfrentam suas dificuldades de frente. Elas encaram as adversidades como oportunidades para melhorar. Sim, elas têm suas fraquezas, choram e querem colo. Porém, logo partem para a ação. As não resilientes assumem posição de vítima das circunstâncias. Estas acreditam que o mundo não deu o que elas merecem. Sentam e esperam que a vida repare seus erros.

A resiliência pode ser aplicada em todas as esferas da vida. Cada um deles tem suas cotas de dificuldades. No trabalho, por exemplo, não devemos ficar tristes porque não fomos promovidos. É preciso avaliar sinceramente nosso desempenho, identificar erros, corrigi-los e partir para a ação. Também não podemos deixar a peteca cair ao não ser aprovado em um processo seletivo. Tome as mesmas atitudes do cenário anterior. Mostre ao mundo porque você merece destaque onde trabalha, ou porque merece ser contratado.

Não perca tempo se lamentando. A vida é curta demais para remoer erros e problemas do passado. Conserte o que for possível consertar. O que não for deverá ficar como lição para não repetir. Não fique apenas no desejo de mudar. Comece as mudanças em sua mente e em seu coração. Abra as janelas e deixe o sol entrar. Abra sua mente e deixe novos pensamentos entrarem. Abra seu coração e deixe novos sentimentos aflorarem. Resgate antigos sonhos e trace novas estratégias para realizá-los.

Ser resiliente é uma necessidade. Precisamos ter a mesma habilidade da mola que volta ao seu estado inicial, após sofrer ações de agentes externos. Ser resiliente é uma necessidade, porque todos nós enfrentamos dificuldades. Entretanto, não há dificuldade maior em ser refém do próprio medo e ver sua vida escapando.


Texto escrito por Sumaia Santana da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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