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Ao voltar, o que encontrou?

Casa vermelha em meio a floresta.
Sophie McAulay / 123RF
Ivete Costa
Escrito por Ivete Costa

Encontrou um campo abandonado. A cerca quebrada, as plantas pálidas, esquálidas, sedentas, ressequidas. As flores despetaladas, entristecidas. As ervas daninhas, dominaram o campo, robustas, comandando e devorando a beleza de outrora.

A maçaneta da porta de entrada, enferrujada, dependurada numa porta descuidada, desbotada pelo tempo, abandono e desamparo. Há quanto tempo não venho aqui? O que irão pensar de mim? Quantas vezes esse pensamento a paralisou: “Todos acham que eu sou um fracasso”. E, na maioria das vezes, não havia certificação desses pensamentos, mas, ainda assim, era suficiente para desmobilizar, enfraquecer, desmotivar, abandonar o caminho. Sacode a cabeça, avisando a esse pensamento que, ainda que esteja presente, não representa, nesse momento, motivo de desistência. Algum pesar, quando, rapidamente, memórias pululam trazendo memórias de desistências. Momento de batalha entre o que foi e o que decide vir a ser. Relembra dos motivos de estar aqui e agora, de toda a preparação para esse momento, da convicção e determinação que trouxe consigo. Olha para o Alto e sabe que não está só. Olha para dentro e reconhece a força interior que a trouxe e a torcida positiva, de pessoas queridas, que traz no coração. Respira fundo, ergue a cabeça e decide avançar.

Observando o jardim, surge lembranças da criança feliz. Que não rotulava com adjetivos negativos, nem a si, nem ao outro. Sabia valorizar os esforços, admirar as realizações positivas, suas ou alheias. E era suficiente o sol, ou a chuva, o vento, as estrelas, a lua, as flores, as formigas, os pássaros, a lama, tudo era motivo de brincadeira, deleite e curiosidade. O encantamento em aprender, os diversos saberes no decorrer do dia, compartilhar descobertas, imaginar, sonhar, inventar, interagir com tudo e todos a sua volta. Sentia-se integrada, inteira. Não havia medo do futuro, em previsões nefastas e sombrias. Olhava para o futuro como um campo de infinitas possibilidades. A vida pulsava intensa, vibrante. Eu vi a menina correndo, inventando brinquedos, brincadeiras, reciclando, reutilizando, reaproveitando, transformando o graveto em varinha de condão, e isso era felicidade, diversão e arte. Com a criatividade em movimento não havia espaço para a catastrofização. As quedas, acompanhadas de choro profundo, por vezes dramático, a contrariedade de ter que parar de brincar, de enfrentar o obstáculo, mas, logo estaria disposta para a próxima travessura, guloseimas e descobertas. O propósito era claro, explícito, vivenciado a cada respiração: crescer, avançar, fluir, desenvolver-se com alegria, convivendo, dando e recebendo, cooperando.

Menina branca de costas para a câmera em meio à plantas com um cachorro.
Leah Kelley / Pexels

A maçaneta enferrujada dificultou a abertura da porta. Há quanto tempo fechada, sem olhar o jardim, sem encantar-se, descobrir, brincar? Poderia ficar ali parada, congelada pelos filtros mentais negativos em que focava exclusivamente os aspectos negativos e raramente notava os positivos. Escolheu olhar diferente. Viu a maçaneta e percebeu a beleza além da ferrugem, o desenho, os detalhes, a força guardiã. A porta, alta, forte, também lhe chamou a atenção. Sentiu alegria em conseguir identificar os aspectos positivos. Olhou de relance o jardim e viu as árvores frutíferas, algumas com frutos prontos para serem degustados. Sorriu.

A porta abriu e revelou um cenário bonito, com os raios de sol atravessando a poeira das janelas. Espaço amplo, possível. Nesse momento, percebeu o quão tem sido injusta consigo mesmo, atribuindo fracasso em tudo o que faz, supergeneralizando, desqualificando as vitórias e conquistas. Apesar da poeira, a tinta das paredes desgastada, o teto revelava pedacinhos do céu. Apesar do lixo e entulho espalhados pelos cômodos, ainda assim, via-se um espaço bonito, convidativo. “Não foi tudo uma perda de tempo, estou aqui e posso cuidar de você. Eu quero cuidar de você.” Os “deverias” e “tem que”, decidiu deixar de lado, não dar ouvidos, não alimentar. “Importante é agora. Estou aqui.”

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Estar presente, com foco e determinação, decidida a não se perder em culpas, atribuídas a si ou outrem, remorsos, medos e afins, foi o suficiente para despertar a vontade de organizar, reformar, cuidar, reconciliar, assumir. Mãos a obra, sem comparações. Descobriu quanto tempo, recursos e energia perdeu, comparando-se aos demais, com foco na grama do vizinho, menosprezando a sua. E antes que o “e, se…?” inundasse seus pensamentos e desmobilizasse a decisão, respirou fundo, olhando para o Alto, conectando-se, fechou os olhos por uns instantes, em prece fortalecedora. Abriu as janelas, as portas emperradas e, sem pressa, sentiu o ar refrescar, arejando cada cantinho, sentiu a casa respirar, banhando-se de sol e ar renovado. Reconheceu a casa, a casa a viu. Reconciliação. Que alívio não julgar, criticar, acusar, condenar. Que alívio apenas aceitar a realidade, descansar na verdade. Sossegar a fúria da rejeição, do autoabandono e autossabotagem. Um tempo para saborear esse patamar. Um autoabraço para comemorar.

Mulher branca loira meio ao campo com seu rosto coberto pela luz do sol
Life Of Pix / Pexels

Recolheu o lixo, destinou o entulho. E, aos poucos, com determinação e persistência, foi surgindo uma nova casa, mais saudável e bonita. Escolheu novas cores, pintou as portas e janelas, trocou a fechadura, convidou a criança para “fazer arte”, colorir as paredes, preencher cada canto da casa com a risada mais gostosa da criança que voltou a criar, imaginar, expandir, sorrir. A casa, rosa com bolinhas lilases — por que não?! — estava viva novamente.

O jardim. Folhas, cascas de árvores, ervas daninhas. Algumas delas, difíceis de arrancar. Olhando para a casa, agora reformada, do seu jeito, sentiu ainda mais motivação e disposição para seguir em frente. Aos poucos, o jardim foi ressurgindo. A terra ganhou adubo, rastelo e água fresca. Cada planta foi delicadamente podada e novas sementes ocuparam o espaço vazio deixado pelas ervas daninhas. A beleza do jardim foi ressurgindo.

A cerca, reformada, ganhou cor. Um balanço na árvore para lembrar que brincar é bom, e um banco colorido “ao pé” da árvore para saborear os frutos suculentos ora cultivados, fez recordar o merecimento e a autovalorização. Recolheu algumas frutas, enfeitou uma cesta com frutas e flores, para repartir e compartilhar, num gesto de gentileza e gratidão. Muitos contribuíram para que esse momento fosse possível.

A casa está pronta para um novo ciclo e pode receber decoração, objetos, sons, sabores, aromas. Escolher cada detalhe do templo interno. Incluir mentalidade e atitudes renovadas para um tempo novo.

Está de volta ao seu aconchego, seu Lugar Sagrado, sua casa interna. Assumindo a responsabilidade e a alegria de manter esse lugar saudável, cuidado, em crescimento, em paz.

Está presente. É protagonista.

Sobre o autor

Ivete Costa

Ivete Costa

Atuando na área terapêutica há mais de 20 anos em atendimentos individuais, grupos e consultoria, utilizando as técnicas de Psicossíntese, Cognitivo-Comportamental, Constelação Sistêmica, Coaching Integrado, dentre outras. Coautora dos livros: ‘Quais de Mim Você Procura’, ‘Mães Empreendedoras’ e ‘FETRANSPAR - 25 anos’.

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