Autoconhecimento

As duas naturezas humanas: baixa e elevada

Mulher nadando em um lago, com uma grande folha cobrindo metade de seu rosto
Fabio Formaggio / 123RF
Isa Gama
Escrito por Isa Gama

Nós seres humanos somos muito estranhos: somos múltiplos e nos contradizemos. Temos uma natureza mais elevada que nos aproxima do divino, mas temos também um lado mais baixo que nos leva para as trevas.
Muitas vezes frustramos uns aos outros, e isso gera conflitos, dos mais bobos até guerras mundiais.
Outras vezes somos capazes dos gestos mais sublimes capazes de criar pontes com a eternidade.
Por isso, neste artigo vamos explorar esses dois lados antagonistas: a nossa natureza mais baixa e animalesca e aquela mais elevada e humana (existe um teste bem legal para você saber “Qual é o seu grau de Conexão com a Natureza Interior e Exterior?”). Isso ajudará na tomada de consciência dessas características e no discernimento de quais delas queremos privilegiar na nossa jornada.

A Natureza mais Baixa

Mulher debruçada sobre uma mesa de madeira, de olhos fechados
Valeria Ushakova / Pexels

Robert Greene, em seu livro “As Leis da Natureza Humana”, explica os aspectos negativos da nossa natureza que, apesar de frequentemente negligenciados, quase sempre orientam a nossa tomada de decisão.

Greene levanta 18 leis da natureza humana que nos puxam para baixo, que exercem um magnetismo para o nosso pior lado, pois fazem parte da nossa natureza mais animal.

Segundo o autor, essas tendências são mais fortes do que a nossa mente racional imagina, porque estão presentes no nosso subconsciente que armazena toda a nossa história emotiva desde os primeiros anos de infância. Nosso modo de pensar e agir fica condicionado por esse conteúdo.

Pense nas vezes em que você falou ou ouviu alguém falar que “perdeu a cabeça” ou que “agiu sem pensar”. Nesses momentos, não estamos realmente conscientes e reagimos de acordo com o programa armazenado no subconsciente.

Então vamos ver algumas dessas características da nossa natureza que nos levam para baixo. São elas:

Somos mais irracionais do que pensamos
Somos governados pelas nossas emoções, pelo que desejamos e pelo que rejeitamos.

Somos narcisistas
Todos temos um lado narcisista, de nos acharmos superiores e melhores que os outros. Essa é a arrogância que muitas vezes nos impede de reconhecer e valorizar as belezas dos outros.

Usamos máscaras o tempo todo
Para poder agir de forma a não ferir as pessoas que encontramos, representamos papéis para sermos aceitos e ter uma vida social mais tranquila e agradável. Isso porém apaga a nossa autenticidade e originalidade.

Somos invejosos
A inveja, como diz Leandro Karnal, não é desejar o que o outro tem, mas é se sentir mal porque o outro tem o que você gostaria de ter. A nossa tendência a nos comparar com os outros é mais forte do que nós, e assim gera sentimentos de inferioridade ou superioridade, o que não são nada saudáveis.

Retrato de um homem de meia idade com expressão triste olhando para frente.
Aa Dil / Pexels

Temos visão de pequeno alcance
Queremos ganhar o máximo com o mínimo esforço. Isso limita o nosso olhar de longo alcance e nos faz tomar decisões de má qualidade.

Vemos quase tudo em negativo e nos auto-sabotamos
Temos medo do desconhecido, e isso nos faz ver as possibilidades que se abrem para nós com negatividade, pois temos medo que possam dar errado ou nos levar para uma cilada. É uma tendência da nossa mente réptil que quer sempre se defender de tudo, eliminar os riscos. Isso nos limita e nos faz não agir para progredir, preferimos nos manter em situações “piores”, mas conhecidas, do que arriscar o incerto.

Nos negamos a ver nosso lado sombra
Todos temos defeitos e tendências sombrias. E ninguém quer encarar isso. Mas olhar para esse lado nos revela nossa parte pior e isso nos faz ver como podemos melhorar. Nos faz ver nosso lado mais egoísta, que não queremos admitir ter.

Não cultivamos nossos propósitos
Somos levados por nossas emoções imediatas e pelas opiniões alheias, a maior parte delas ligadas ao plano do ter (ter um título, bens, coisas para mostrar). Seguimos adiante sem ter um grande propósito, sem uma meta maior no plano do ser. A tendência geral é manter as aparências e evitar grandes sonhos, objetivos, propósitos maiores. Isso nos deixa sem aquele senso de sentido, de contribuição.

Somos mais conformistas do que pensamos
Temos a tendência a seguir a maioria. Não é nada fácil ter idéias próprias, cultivar a originalidade, porque temos medo de não sermos reconhecidos, ou de sermos rejeitados. Então acabamos sendo aquilo que achamos que os outros querem que sejamos.

A natureza mais elevada

Mulher em um campo de flores, durante o dia, com as mãos para cima e os cabelos ao vento
Maksim Goncharenok / Pexels

Segundo Platão, temos em nós o nous que é a alma ou o espírito que nos dá a nossa vivacidade, o brilho nos olhos. Essa seria a nossa luz interior, a nossa parte imaterial e ligada à força vital da criação.

Segundo os antigos gregos, essa nossa parte, apesar de viver dentro de nossos corpos, só pode se acender e brilhar quando passa por um processo de disciplina e aprendizagem. Isso é o que os filósofos passaram a chamar de sabedoria, que é o objetivo da filosofia (que significa amor à sabedoria).

Todos temos a capacidade de atingir a sabedoria, entenda-se a experimentação da verdade última sobre os segredos da vida, que despertam o nous em nós.

Esse é o nosso lado mais nobre que nos torna capazes de criar a nossa realidade e pontes com a eternidade.

O cultivo desta natureza vai amenizar ou até mesmo eliminar os efeitos destrutivos da nossa natureza inferior.

Eis os traços dessa nossa natureza mais elevada:

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Auto-observação
Temos a capacidade ativar nosso observador interno. Aquele que consegue ter um olhar “de fora” das nossas emoções, pensamentos, diálogo interior, e ações. É capaz de analisar e refletir sobre o que fazemos, sem dar um julgamento sobre ele. Ou seja, não é o nosso crítico interior que vê tudo negativo: esse faz parte da nossa natureza inferior. O que nos chama para natureza elevada é a nossa consciência: um observador interno que não julga, não critica, tem compaixão por nós, tem confiança em nós, acredita que somos únicos e insubstituíveis.

Presença
Ao estar com a consciência no presente, e não nos pensamentos de passado ou futuro, vivemos de verdade as situações vividas. Desenvolvemos a capacidade de notar como estamos nos sentindo e pensando, de perceber que coisas realmente importam, e isso nos faz tomar decisões mais sábias e menos precipitadas. É importante cultivar essa capacidade — através de práticas de mindfulness, meditação, por exemplo — porque a nossa natureza mais baixa que nos leva para as preocupações e dramatização está a todo o tempo agindo sobre nós e nos levando para baixo. Trazer a consciência para o momento presente é trazer equilíbrio mental, capacidade de recuperar a paz interior, a autenticidade, e se focalizar em objetivos relevantes, e aspirações mais elevadas.

Gratidão
A gratidão também é um dom a ser cultivado. Se nos deixamos levar pela nossa natureza inferior, rapidamente nos sentimos vítima de tudo e de todos. Valorizar, agradecer pelo que se tem, pelo que se é, e que pelo que as circunstâncias nos dão, mesmo as mais difíceis, é desenvolver a capacidade colocar a atenção no que vai bem, ao invés do que não vai bem. Com esse enfoque, vai ficando cada vez mais fácil vencer as forças tentadoras da mentalidade de vítima da nossa natureza mais baixa, e passamos a aprender e até mesmo a ver motivos para agradecer em dores e feridas passadas.

Mulher vista de perfil, na praia, sorrindo com seus cabelos cacheados ao vento
nappy / Pexels

Coragem de encarar medos e defeitos
Essa aptidão a ser lapidada é maravilhosa pois nos faz ficar cada vez mais imunes às adversidades da vida. Nos faz entender nossos limites e ter mais humildade. Saber em quais pontos podemos melhorar. Nos faz nos abrir mais ao diálogo sem medo de receber críticas. Nos faz saber discernir críticas boas daquelas que não devem ser tomadas em consideração, pois vem da natureza inferior de quem as proferiu. Nos faz ter a coragem de sermos vulneráveis e de ser quem somos. Nos faz agir para os mais elevados valores humanos, e não aceitar menos do que isso.

Ter propósito e ir atrás deles
A vontade é um fator que nos eleva. Ao ter entusiasmo em fazer algo, você vai entender o seu propósito e vai querer ir na direção dele. Para isso é preciso que você esteja alinhado à sua natureza mais elevada, ou seja, esteja desperto para a sua consciência, e que já esteja num caminho de autodescoberta. Isso vai fazer esse propósito do que fazer da vida ficar claro como uma nascente cristalina.

Se reconectar com a natureza
Começar um percurso de evolução interior é um processo que naturalmente vai desencadear uma reconexão com a natureza porque você vai começar a desconstruir seu ego que costumava vê-la como algo separado, objetivo e utilitário. Quando seu ego (ou a sua natureza mais baixa) passa a ter menos espaço na sua vida, você passa a notar o quanto a natureza é sábia, e ela se revela para você uma aliada neste processo de caminhada em direção à sua natureza mais elevada. Por isso, ao sentir que você está sendo puxado para baixo pelas artimanhas da natureza mais baixa, vá fazer uma caminhada na natureza. Ela reforçará a sua natureza mais elevada.

Conclusão

Mulher com as mãos para cima, sorrindo, em um campo de girassóis
Andrea Piacquadio / Pexels

Trazer à consciência para nossa vida é despertar para a nossa natureza mais elevada.

Essa é a faculdade que nos faz melhorar, crescer, abrir a mente para novos pontos de vista, entender quais conceitos mais se enquadram aos nossos valores. Nos faz ganhar a capacidade de discernimento, e de evoluir como ser humano e enobrece o nosso espírito.

E aí? Você se sente conectado à sua natureza mais elevada, ou ainda se deixa levar pela sua natureza mais baixa? Conte-nos nos comentários, e aproveite para fazer este teste gratuito que é um ótimo indicador do seu grau de conexão à natureza de dentro e de fora.

Muito obrigada!
Isa Gama.

Sobre o autor

Isa Gama

Isa Gama

Isa tem um Ph.D. em sociologia e especialização em ecopsicologia.

Atua há mais de cinco anos como uma ecotuner: uma nova profissão que conduz as pessoas a viverem com maior bem-estar por meio da reconexão com a natureza.

Incentivando o autoconhecimento aliado à natureza, Isa facilita a criação de relações mais ecológicas consigo mesmo, com os outros e com o mundo.

Criou um teste que revela o grau de conexão com a natureza interior e exterior: https://isagama.net/quiz

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