Autoconhecimento Psicanálise

Criança dá trabalho? A retirada da fralda e o começo da birra

Vamos continuar nossa reflexão sobre a criança até 3 anos. Por volta dos 2 anos, há outro ponto importante que merece nossa atenção: o período da retirada das fraldas, que ocorre quando a criança começa a ter o controle orgânico da vontade de urinar e evacuar.

Segundo Freud, neste período ocorre a segunda fase da evolução da libido, chamada de fase anal (2-4 anos). Nesta fase a criança passa a centralizar sua atenção para a região anal, e vive prazerosamente o processo de eliminação e retenção das fezes. Ela percebe-se separada da mãe (lembram-se do que falamos sobre a fusão da mãe e da criança? Veja o artigo “Crianças que dormem com os pais: a quentinha e perigosa cama da mamãe”). A vivência de prazer muda de foco: da boca passa para a região anal.

Agora a criança passa a ter mais contato com as fezes. Ela é solicitada a perceber a hora que lhe dá vontade de evacuar, às vezes a segurar um pouco. A criança, que antes não visualizava o cocô, agora o vê, entende as fezes como um pedaço dela que se separa, algo que ela fez, e vê seu produto ir embora.

Caso neste processo a criança sinta-se estimulada de forma carinhosa a que faça o cocô em um lugar diferente, e quando acontece isso a mãe se felicita, ela entende que seu produto (sua obra), quando depositado no local certo, é um presente para a mamãe! Mas caso se sinta ameaçada ela pode negar dar este presente para a mamãe, pois pode entender esta separação como perda: perdeu um objeto que veio dela, assim como está “perdendo” a mãe.

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A criança que vive a angústia em ver o cocô ir embora pode não estar vivendo bem a separação dela com a mãe.

Há ainda algumas crianças que resolvem brincar com sua obra, ou seja, manipulam as fezes. Como fazer em um caso destes, onde a atitude de repugnância dos pais surge quase espontaneamente?

A criança viu seus pais manipularem seu cocô o tempo todo, e muitas vezes este momento foi muito agradável. A atitude de repugnância dos pais diante da criança que manipula as próprias fezes pode atormentar a criança. Ela não entende porque seus pais ora valorizam sua produção e ora fazem cara de nojo!

Então, como os pais podem ajudar a criança a viver tranquilamente o processo da retirada das fraldas?

Vou direto para o caminho do meio: é importante contribuir para que a criança viva este processo sem medo, sem ameaças e sem gritos.

Cada criança tem o seu tempo de aprender a controlar a vontade. E que ela possa limpar-se sozinha o mais cedo possível, que ela possa viver este processo com prazer (está valendo o famoso “tchau para o cocô”). Ajudá-la a compreender que há, sim, um local mais adequado para defecarmos; mas se “escapar”, e acontecer no meio da sala, que ela saiba que ninguém vai rir, nem achar uma gracinha, nem agredi-la, e nem achar nojento o que ela fez. A criança tem inúmeras fantasias a respeito desta mágica de controle, entre o poder reter e expelir, e muitas reações exageradas dos adultos podem confirmar estas fantasias. Atitudes mais ponderadas permitem que a criança confronte a realidade e a fantasia. A retirada das fraldas não é um processo difícil; nós é que o tornamos assim.

Finalizando, interessante apresentar que Freud relaciona esta fase à formação da ordem, parcimônia e teimosia. A criança passa a viver a experiência da destruição (eliminação das fezes) e do controle possessivo (retenção das fezes). E é justamente neste período que podemos ver o surgimento de grandes momentos de teimosias – as birras. Geralmente, quanto mais severa for a atitude dos pais na retirada das fraldas, mais teimosa esta criança poderá se tornar, pois ela precisa provar seu poder de dar e retirar.

Neste período, a criança apresenta uma força incrível para que suas vontades sejam satisfeitas. Ela procura largar a mão ao atravessar a rua, ou se joga no chão quando não tem o que deseja. O que fazer?
Além do diálogo, a criança precisa ser contida e vivenciar que não pode ter tudo o que quer. Vejo muitos pais com medo de “traumatizar” os filhos com esta atitude, mas conter, segurar, não precisa ser feito com raiva ou violência; basta limitar os movimentos para que ela não se machuque e pare de se contorcer. Dependendo do local vale também não dar valor ao fato (ou seja, ignorar), pois o que ela quer é justamente chamar atenção. E observe: quanto menos ela viveu o limite (dado de maneira amorosa), maior vai ser a birra. Mas também vale salientar que crianças boazinhas demais, que nunca fizeram birra, podem estar reprimidas por excesso de limites.

O essencial é não ter medo de dar limites nem afeto, e manter-se no caminho do meio, o caminho da sabedoria. Paz e bem.

Sobre o autor

Tânia Regina Baptista

Tânia Regina Baptista

Psicanalista, é graduada em Fonoaudiologia clínica há 24 anos, e Mestre em Educação - Distúrbios da Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi docente no curso de graduação em Pedagogia e no pós graduação em Psicopedagogia de 2007 a 2013, lecionando nas áreas de Educação e Saúde, Educação Inclusiva e Desenvolvimento Infantil.

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