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Envelheci, e agora?

Mulher de meia idade olhando para o seu reflexo no espelho enquanto toca seu rosto, com expressão séria.
123RF/belchonock
Juliana Meyer Luzio
Escrito por Juliana Meyer Luzio

Envelheci e agora? Ou então, Estou envelhecendo, olha só meus cabelos brancos! Você já viveu essas sensações? Já parou pra pensar e sentir o que é envelhecer?

Isso pode parecer assustador e às vezes de fato é, afinal nosso ritmo muda, nossa pele perde tônus, nosso corpo não responde com a mesma agilidade e disposição e o mercado de trabalho não valoriza nossa trajetória. Somente esses aspectos já tornam legítimo o medo de envelhecer e a busca incessante de rejuvenescimento. Porém, será que vale a pena lutar contra o tempo ao invés de olhar pra ele e caminhar de mãos dadas?

Escrevo este texto pra tentar plantar questionamentos sobre o tão temido envelhecimento e quem sabe despertar em você novas maneiras de senti-lo e experenciá-lo.

Homem e mulher idosos sentados em um banco, de frente para o mar.
Unsplash/James Hose Jr

As primeiras perguntas a serem feitas são: o que é envelhecer pra você? Como você entende o envelhecimento? Que memórias lhe vem sobre a velhice de pessoas importantes como avós, pais, tios, pais de amigos, enfim que visões traz na memória sobre ser velho?

Depois, que fantasias tem sobre o seu envelhecer? Se nunca pensou nisso, feche os olhos, respire um pouco e se imagine velha(o). Você trabalha? Tem filhos, netos, amigos?Viaja? Como é seu corpo, seu cabelo? Como é sua vida? Olhe pra essas imagens e se reconheça nelas sem criticas, sem juízo de valor, sem sofrimento, apenas acolha as sensações e imagens que vier. Com os olhos abertos, toda sinceridade que puder e gentileza que tiver, olhe pra essa vivência e com certeza ela dirá algo sobre suas crenças e medos de tornar-se velha(o).

Se buscarmos no dicionário os significados de envelhecer e/ou velho basicamente encontraremos palavras como: antigo, perda de viço/frescor, desusado, fora de moda ou sem emprego, que se deteriorou e que está próximo do fim, entre outras. Palavras nada animadoras para contar de uma etapa da vida, uma etapa que aliás está cada vez mais longa, visto que vivemos mais que nossos avós. No entanto, palavras que traduzem o que nossa sociedade divulga e acredita.

Por isso a importância de identificarmos nossos próprios significados para a velhice, significados que fomos construindo no decorrer de nossas observações do envelhecer do outro que nos cerca, provavelmente você identificará palavras similares, afinal falamos de uma cultura que invade e atravessa a história, mas quem sabe você também não encontre outras como transmissão de saber, perspicácia com o tempo, gentileza no olhar, abundancia de experiencias vividas, desperto nas relações com as pessoas.

Entre o que a cultura atual nos impõe, nossos significantes singulares e nossa maneira de viver a vida no dia-a-dia existem espaços, intervalos que permitem circulação de ar, movimentos sutis que possibilitam descolamentos, reposicionamentos e descobertas de novas formas de olhar e viver o mundo e portanto nossa história. O convite agora é, diante da vivencia e perguntas que propus acima, como você quer viver sua velhice?

Você pode escolher não envelhecer, optando por procedimentos cirúrgicos e/ou medicamentosos na busca de manter o viço, o tônus, o ritmo… A questão é até que ponto isso é ilusão ou realidade? Até que ponto ter um rosto cuja pele é lisa e sem rugas, mas também sem movimento e expressão é mais bonito que um envelhecido e marcado por cada lágrima e sorriso dado? Até que ponto uma barriga enxuta e um seio durinho e em pé valem mais que um corpo que conta sua história, suas experiências de maternidade, gozo, batalhas, derrotas e vitórias?

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Não quero dizer que é errado fazer uso desses procedimentos, pelo contrário, será ótimo quando usarmos a medicina a nosso favor e bem estar em vez de usá-la como máquina fazedora de juventude e beleza. O que questiono é justamente esse uso desenfreado, antecipado e como única fonte de beleza eterna. Tudo bem, fazer um procedimento ou outro a questão é mudar tudo em nome de uma demanda de corpo perfeito. É não saber viver sem eles, é olhar no espelho e só se reconhecer com botox, plásticas, maquiagens e mil cremes firmadores e rejuvenescedores.

Limpe seu rosto, fique nu(a) na frente do espelho e se conheça! Toque cada parte do seu corpo e se reconheça nele. Seu corpo é sua casa e guarda tudo que viveu, todas dores, amores, alegrias, conquistas e frustrações. Ele tem direito de envelhecer e você o dever de cuidar dele. Às vezes rola de um cano estourar, de uma rachadura aparecer e precisamos pensar gentilmente a melhor, mais segura e eficiente forma de repará-lo. O que não quer dizer querer e obriga-lo a ter aparência de 20 aos 50 anos.

Faça exercícios, transforme sua alimentação em fonte natural de saúde e vá diariamente olhando cada ruga e atribuindo a ela momentos vividos, ressignifique diariamente essa colagem que fez entre ficar velho e adoecer, ficar velho e perder, ficar velho e ser feio.

Quatro idosos caminhando enfileirados, durante o dia.
Unsplash/Rolleiflexgraphy

Só o passar do tempo nos possibilita ver o tempo passar, então não perca essa chance de ver o quanto já caminhou, a sabedoria que conquistou e agradeça por estar vivo e velho(a). Só o passar do tempo nos ensina que não adianta lutar contra ele, então sinta-o e deixe que um novo ritmo te embale, sem altas exigências, sem metas mirabolantes, deixe que os jovens corram e lutem contra o tempo e fique ali olhando e curtindo o que já aprendeu – que o tempo é soberano e que contra o envelhecer existe apenas a morte prematura.

O natural é bonito, a maquiagem é mais bonita em momentos especiais, porque aí ela também se torna especial. No dia-a-dia ela pode ocupar um lugar de máscara escondendo o cansaço e o quanto exigimos e esperamos de nós mesmos incessante e insanamente. Olhe pro seu rosto e entenda o recado de que é tempo de reflexão, de nos amar e valorizar o percurso.

Envelhecer é se conhecer cada vez mais e saber o que evidencia suas singularidades e fazer uso disso, é trocar a moda pelo conforto e ficar a vontade com suas curvas sejam elas como forem. Envelhecer é dizer não quando se quer dizer não ao invés de dizer sim para festas e baladas que não fazem mais sentido, é encontrar novas formas de diversão.

Mulher idosa de vestido sorrindo com as mãos para o alto, em uma rua, ao entardecer.
Pexels/Italo Melo

É se relacionar conosco e com os outros de forma mais compreensiva e menos exigentes, porque quando envelhecemos inevitavelmente nos deparamos com nossos defeitos, limitações e se temos nossas sombras descobrimos que os outros também têm e que é preciso saber lidar com elas. Generosidade torna-se uma palavra pra lá de importante, uma atitude necessária conosco e consequentemente com quem nos cerca.

Se a doença chegar, cuide-se bem e com toda a amorosidade que cuidaria de uma pessoa querida (você deve ser essa pessoa) e não fique praguejando. A doença não é e nunca será só sua, TODOS adoecemos independente da idade. Sim, a velhice vem trazendo consigo limitações, mas na maioria dos casos, elas chegam aos poucos nos dando chances de repensar nosso estilo de vida e a possibilidade de readaptações.

Se a solidão chegar, aprenda a ser sua melhor companhia. Vá ao cinema, faça viagens, descubra como pode ser a pessoa mais chata e mais interessante ao mesmo tempo, ria de si mesma e se surpreenda atraindo olhares e novas companhias.

Homem idoso pintando um quadro em uma feira, com diversas exposições de desenhos e pinturas.
Unsplash/Immortal shots

Se a sensação de invalidez, falta de produtividade ou insignificância bater na sua porta, deixe-a entrar mas não sentar no sofá e se instalar. Olhe pra trás e reconheça seus feitos e se pergunte: e agora? Então faça uma lista das coisas que sempre quis aprender e/ou fazer, dos lugares que quis conhecer, dos livros que quis ler e nunca conseguiu. Reencontre paixões que ficaram perdidas na agenda cheia como dançar, desenhar, pintar, costurar, cozinhar, escrever, enfim o que você gostava de fazer e fazia bem, mas que deixou de lado porque deixou de ter tempo? ESSA É A SUA HORA faça apenas o quer e o que sempre quis e não fez.

Envelhecer é foda?! Sim, é foda! Mas pode ser mais ou menos difícil dependendo de como escolhe passar por essa etapa, porque se tudo der certo e não morrermos, seremos velhos por alguns anos, então que tomemos as rédeas de nossas vidas e sigamos responsáveis pelos nossos dias, sem vitimizações, sem artificialismos, sem sofrimentos desnecessários.

Vivenciar a velhice, tornar-se uma/um sábia(o) compartilhando o que aprendeu e reverenciando a vida ou se enterrar viva(o) num mar de reclamações e viver com a solidão é uma escolha sua. Então quando bater essa sensação de Envelheci e agora?! agradeça e siga em frente, pois afinal você está viva(o) e não há nada mais poderoso do que isso.

Portanto, envelheça!

Sobre o autor

Juliana Meyer Luzio

Juliana Meyer Luzio

Terapeuta que constrói sua clínica através de um espaço que integra fala, consciência corporal e quietude, tornando possível uma reconexão com o que há de belo, delicado e muito forte em nós - nossa saúde.

Formada em Psicologia, Psicanálise, Terapia de Integração Craniossacral, Transmutation Therapy, entre outros, está sempre em busca de conhecimentos que agreguem, em seu dia-a-dia maneiras, diferentes de olhar a vida.

Atualmente, além de sua clínica, lançou a Îandé, onde tem se dedicado à arte de criar e costurar produtos exclusivos e cheios de carinho.

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