Convivendo

Gentileza gera mais que gentileza

Zil Camargo
Escrito por Zil Camargo
Nunca fui dessas pessoas de muito papo com estranhos. Na verdade, desde a adolescência, só consigo me comunicar com quem puxa papo comigo, porque, do contrário, não rola…

E isso é interessante na minha personalidade, porque, no trabalho, por exemplo, sempre fui do tipo que se envolvia em todos os departamentos e conhecia todo mundo. Talvez por me sentir mais à vontade nesse ambiente, essa mudança de interação fica mais fácil.

Trata-se de uma situação isolada, já que ninguém nunca dirá que me viu de conversa na sala de espera do consultório ou durante o corte de cabelo.

Sou do tipo que fala menos e escuta mais.

Um dia desses estava pensando que, durante muito tempo da minha vida, poupei muita gente da minha natureza desprovida de gentileza.

Eu me lembrei de que, nas raras vezes em que me aventurei para mudar esse padrão, em tentativas de ser engraçada ou original e por absoluta falta de carisma ou talento, fui rude, indelicada ou grosseira.

Não havia maldade nenhuma na minha intenção nem prazer em oferecer uma resposta torta, como deve ter parecido para tantos, apenas falta de habilidade social mesmo.

Lembro que certa vez, no primeiro ano da faculdade, um professor passou pela fileira em que eu sentava e me falou: “Que bonito seu batom”. E eu respondi: “Se quiser, te empresto”.

Achei que era uma resposta engraçadinha, até certo ponto, mas não tinha a menor noção que respondi a uma gentileza com uma indelicadeza.

E esse é só um dos exemplos de tantos que eu poderia citar.

Pois é, simpatia não era meu forte.

E eu custei muito a perceber que agia mal por agir assim.

Fazia parte daquele grupo de pessoas que afirma “sou assim, não vou mudar”. Dizer que não vamos mudar, além de demonstrar uma indisposição imensa para a evolução pessoal, é também sinal de ignorância, no sentido de falta de conhecimento mesmo.

Mudamos todos os dias e, a todo momento, estamos em constante transformação. Se não fosse assim, nossa passagem pela Terra não faria o menor sentido.

Estamos constantemente aprendendo ou pelo menos recebendo ensinamentos que nos fazem mudar.

Mudar um olhar, uma conduta, uma reação, uma direção.

A mudança faz parte de nosso processo de transformação e é inevitável. A direção que damos a ela é uma escolha importante e determinante para a construção de nosso ser, de acordo com nossos propósitos e necessidades.

Gentileza gera mais do que gentileza, gera transformação pessoal.

E ainda bem que é assim o é.

O próprio processo de sociabilização nos dá ferramentas de amadurecimento que podemos aproveitar para lapidar nossas melhores qualidades e praticá-las.

E, a partir daí, aquele jargão conhecido de que “gentileza gera gentileza” vai ganhar novo significado e revelar que gentileza gera mais do que gentileza. Gera transformação pessoal.

Hoje, quando alguém diz que meu batom é bonito, consigo sorrir e dizer obrigada.

E nem sou capaz de enumerar o quanto minha vida mudou.

Sobre o autor

Zil Camargo

Zil Camargo

Na diversidade de cada ser, é injusto com a vida, neste mar de experiência que ela concede, tentar nos definir assim, com meras palavras.

Mas dentro de mim mora alguém inspirada, sensível, às vezes curta ou grossa, ora dramática, ora objetiva.

Mãe, artesã, escritora amadora; consultora para ganhar a vida e interessada no comportamento humano.

Estudiosa de assuntos relacionados à psicanálise, filosofia e espiritualidade; uma aprendiz procurando desenvolver oportunidades em busca do bem viver.

Contato: [email protected]