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Matiz: roupas para bebês sem definição de gênero

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

A sociedade já está acostumada a dar roupas rosas para meninas e roupas azuis para meninos. É algo tão automático que sequer fazemos uma reflexão sobre essa cultura de gênero. Por isso, projetos e trabalhos que permitem reflexões e discussões costumam ser aceitos pela sociedade, ainda mais em momentos de mudança.  É o que podemos falar da Matiz, que fabrica roupas para  bebês sem definição de gênero. E mais, a produção é justa e sustentável. Conversamos com a Lívia, uma das sócias, que nos contou um pouco sobre esse empreendimento. Confira a entrevista:

Eu sem Fronteiras: Me conte um pouco sobre vocês, onde moram, o que faziam, como se conheceram:

Matiz: Nós dois (Pedro Benites e Lívia Dall’Agnol) somos nascidos e criados em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Nos conhecemos em 2007, durante a faculdade de Design. Cursamos quase dois semestres juntos, como colegas, e depois nos separamos ao trocarmos de faculdade. Eu fui fazer design de moda, e o Pedro design gráfico. Trilhamos caminhos paralelos até nos encontrarmos novamente no mestrado em design que cursamos juntos em 2013, nessa época, já havíamos casado e estávamos morando juntos.

Na sequência, em 2014, eu fui contratada pelo mesmo escritório de design no qual o Pedro trabalhava. Lá trabalhamos juntos por quase 2 anos e nos demitimos juntos, no final de 2015, para tocarmos a Matiz em tempo integral. Quase nove meses depois, aqui estamos, entusiasmados e gratos por tudo o que já aconteceu até então e, ao mesmo tempo, cheios de esperanças para realizarmos novos sonhos no seguir da caminhada.

Eu sem Fronteiras: Como e quando surgiu a vontade de lançar a Matiz?

Matiz: O desejo de empreender veio desde 2007, lá começamos a afinar nossos interesses nessa ideia e a preocupação com o design orientado para a sustentabilidade. Passamos por algumas empresas como funcionários e ingressamos juntos no mestrado em Design, em 2013. A Matiz nasceu enquanto cursavamos o mestrado. Planejamos, pesquisamos, e depois inauguramos a loja online.

Foram dois anos de planejamento até sua implementação. Foi um período longo de “gestação”, como gostamos de fazer analogia, e esse tempo foi essencial para conseguirmos orquestrar toda cadeia de produção justa, que favorecesse o consumo ético. O que nos motivou logo de início, também, foi a possibilidade de intervir em um período tão especial e decisivo no ser humano: sua infância. Trabalhar o gênero neutro e discutir os valores que consideramos importantes através das estampas nos inspirou muito.

Eu sem Fronteiras: Vocês chegaram a se inspirar em outro trabalho semelhante?

Matiz: Nos inspiramos muito no trabalho de empresas de outros mercados, que prezam pelo design sustentável e defendem o consumo ético e consciente. Ao mesmo tempo, buscamos referências de organizações e instituições que pesquisam, geram conteúdo e trazem à tona o debate sobre a equidade de gênero.

Eu sem Fronteiras: Produzir roupas infantis sem definição de gênero é também um desafio, não é mesmo?

Matiz: Enxergamos o mercado infantil atual cromaticamente dividido entre meninos e meninas, e com representação estereotipada dos papéis de gênero. Essa realidade é baseada em modelos socialmente pré-concebidos e perpetuados através de comportamentos automáticos e passivos. Muitos dos conceitos que serviram de base para a concepção destes modelos já estão defasados e, portanto, necessitam ser reavaliados urgentemente.

Além disso, há uma tendência de mercado que aposta em crianças como miniaturização de adultos, ou seja, grande parte dos aspectos lúdicos do universo infantil ficam em segundo plano nesta representação caricata de infância. Ao mesmo tempo, observamos um movimento crescente de resgate da infância como momento de liberdade e ficamos felizes em fazer parte desse novo momento.

Eu sem Fronteiras: É muito comum ver nas lojas o rosa e o azul. Mas ao mesmo tempo, há muitas pessoas (eu inclusive) que procuram por roupas sem definição de gênero. Vocês se surpreenderam com o mercado e a procura?

Matiz: Por abordar um assunto delicado como a equidade de gênero ainda na infância, tínhamos um receio em relação à aceitação da Matiz por parte dos consumidores. Viemos de uma região marcada pelo conservadorismo e no mercado infantil as coisas não são diferentes. Havia um receio de que a nossa mensagem não fosse absorvida pelo grande público.

No entanto, nos surpreendemos positivamente com a receptividade das pessoas. Tanto lojistas quanto consumidores finais têm recebido muito bem a nossa proposta e acreditamos que isto está muito relacionado a uma mudança que está em andamento na sociedade.

Percebemos um aumento da conscientização dessa nova geração de pais, que se preocupam cada vez mais com a maneira como estão consumindo, desde a origem dos produtos até a mensagem que eles propagam.

Nesse cenário, apresentamos produtos carregados de valor e que contam histórias genuínas, e isto tem sido fundamental para atrairmos a atenção das pessoas e abrirmos um canal para as reflexões mais profundas que a marca pretende provocar em relação à representação dos papéis de gênero.

Eu sem Fronteiras: A Matiz também produz as roupas respeitando todo um ciclo. As peças são de algodão orgânico que respeita uma cadeia de produção. Como foi pensar em toda essa logística?

Matiz: Desenvolvemos todas as nossas peças desde a modelagem, design de superfície, até a pilotagem em nosso ateliê. Após a aprovação do produto final produzimos a peça em escala junto a cooperativas de costureiras. As cooperativas são organizações horizontais que utilizam-se da cooperação e do aprendizado mútuo como forma de evolução organizacional.

Elas permitem que profissionais de uma mesma área se organizem para, juntos, ganharem força e manterem suas atividades frente à forte concorrência do mercado atual, inundado por produtos importados de procedência questionável. Estas organizações são administradas democraticamente pelas próprias pessoas que atuam na produção de sua atividade de renda.

Nós optamos por trabalhar com cooperativas de costureiras de Porto Alegre e região metropolitana, pois sabemos que a renda desta atividade será totalmente revertida para as mulheres que lá trabalham. Para nós, este é um ponto fundamental da produção justa. A maioria das mulheres que trabalham nestas cooperativas mora em áreas economicamente desfavorecidas e, consequentemente, mais violentas.

Muitas dessas mulheres são responsáveis por cuidar de famílias em situação de vulnerabilidade social, portanto, a geração de renda e o estímulo para a educação cooperativa são fundamentais para a mudança dessa realidade. O emponderamento feminino está diretamente ligado à valorização profissional, capacitação intelectual e inserção social.

Eu sem Fronteiras: As roupas são comercializadas somente via e-commerce? 

Matiz: A Matiz vende online em seu e-commerce próprio e também em uma loja virtual com uma curadoria linda chamada ‘Mais Alma’. Também estamos presentes em lojas físicas em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. Em Porto Alegre, estamos nas lojas Quitanda e Pra Presente, no Rio de Janeiro, na loja Mutações e em São Paulo, na loja Toca Tatu Mix.

Eu sem Fronteiras: Qual foi o maior desafio até aqui?

Matiz: Tivemos vários desafios para superar entre o planejamento da marca e o lançamento do projeto. Alguns deles já estavam previstos e muitos outros surgiram no meio do caminho. Mas, apesar de todas essas situações que envolviam desde a produção das peças até a comunicação da marca, o maior desafio até então ainda foi tomar a decisão oficial de acreditarmos nesse projeto e nos dedicarmos exclusivamente a ele.

Essa decisão implicaria em deixar para trás o dia a dia relativamente seguro dentro de um escritório e mergulhar de vez na oportunidade de termos o nosso próprio negócio. Até então, esse era um sonho só nosso, que havia sido dividido com poucas pessoas próximas e que ainda nos trazia muitas dúvidas.

A partir do momento em que decidimos viver esse sonho, nos demos conta do quão real ele era e de quantas pessoas compartilhavam dele – sem ao menos saber que ele já existia. Materializar algo tão pessoal e ser reconhecido por valores que trazemos conosco ao longo dessa caminhada é uma sensação indescritível e faz tudo valer a pena. Acreditamos cada vez mais nesse sonho já transformado em realidade que é a Matiz.

Eu sem Fronteiras: Quantas pessoas estão envolvidas na Matiz?

Matiz: Diretamente somos apenas nós dois. Nos dividimos entre as atividades administrativas no dia a dia e contamos com apoio de atores externos para produção das roupas, desde a preparação da matéria prima até o fechamento das peças. Ao todo, essa rede produtiva conta com algo em torno de 20 pessoas.

Eu sem Fronteiras: Deixe uma mensagem

Matiz: Prepare-se bem e leve o tempo que for necessário. Acredite no que você está fazendo, trabalhe duro e faça as coisas com amor! Só ele constrói histórias genuínas. Sempre há tempo para sermos quem gostaríamos de ser. 


  • Entrevista realizada por Angelica Weise da Equipe Eu Sem Fronteiras.

Imagens: Divulgação

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