Doutrina Espírita Energia em Equilíbrio Espiritualidade

Mudança interior

Antônio Navarro
Escrito por Antônio Navarro
O notável educador francês Hippolyte L. D. Rivail, utilizando-se do pseudônimo Allan Kardec em O Livro dos Espíritos, referindo-se à formação do caráter humano, diz que “educação é o conjunto dos hábitos adquiridos”. (1)

A Educação é, portanto, o mecanismo que possibilita a obtenção de novos hábitos e por isso é a base do desenvolvimento humano. Ao se observar a história, percebe-se facilmente que os valores morais se modificam de acordo com a época e, pelos valores atuais, as modificações ainda são necessárias e por isso solicitadas direta e indiretamente, individual e coletivamente.

A Educação é, portanto, o mecanismo que possibilita a obtenção de novos hábitos e por isso é a base do desenvolvimento humano.

Sob esse aspecto, vivemos em um processo chamado de Devir, “um conceito filosófico que significa as mudanças pelas quais passam as coisas. O conceito de ‘se tornar’ nasceu no leste da Grécia antiga pelo filósofo Heráclito de Éfeso que, no século VI a.C., disse que nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação”. (2)

No entanto, ainda nos deparamos com indivíduos, quando não nós mesmos, indiferentes a essa necessidade básica, a de se modificar para melhor, permanecendo estacionados em relação ao processo de desenvolvimento individual e social, o que evidencia que a consciência humana apresenta níveis de entendimento diversos ao número de seres humanos viventes no Planeta.

Por cobrança ou imposição, externa ou interna, a mudança comportamental sempre precisará ser implantada, para que se mantenha em consonância com seu tempo, evitando-se contrariedades e sofrimento, para si e para outrem, como também predispondo o homem para novos desafios e conquistas.

Mas, assim como temos em nossa natureza a facilidade de julgar o comportamento alheio e a de solicitar mudanças comportamentais dos outros, não enxergamos ou não aceitamos a necessidade de mudarmos os nossos pontos de vista e hábitos.

Mas por onde começa a mudança?

Apelando uma vez mais à filosofia grega, encontraremos uma orientação imprescindível para se iniciar o processo de mudança:

“Conhece a ti mesmo”

Esse aforismo é atribuído a Tales de Mileto, o primeiro filósofo ocidental, e estava inscrito no portal do Templo de Delfos, tendo sido utilizado por Sócrates em sua prática filosófica, que influenciou todo o pensamento ocidental.

Conta-se que o Oráculo de Delfos foi consultado a respeito de quem seria o maior sábio de então, ao que o Oráculo respondeu que era Sócrates e este, ao saber da resposta, disse: “Só sei que nada sei”. Sócrates tinha plena consciência do quanto ainda não sabia, a despeito de toda a sua sabedoria, ou seja, ele se conhecia.

Voltando ao educador Allan Kardec, ainda em O Livro dos Espíritos, encontramos uma coincidência à filosofia grega em seu questionamento aos Benfeitores Espirituais encarregados de nos esclarecer espiritualmente:

Qual o meio prático mais eficaz para se melhorar nesta vida e resistir aos arrastamentos do mal?

– Um sábio da Antiguidade vos disse: “Conhece-te a ti mesmo”.

Desejando maiores esclarecimentos, Allan Kardec insiste no assunto com o Espírito Santo Agostinho:

“Concebemos toda sabedoria desse ensinamento, mas a dificuldade está precisamente em conhecer-se a si mesmo; qual é o meio de conseguir isso?

– Fazei o que eu fazia quando estava na Terra: no fim do dia, interrogava minha consciência, passava em revista o que havia feito e me perguntava se não havia faltado com o dever, se ninguém tinha do que se queixar de mim. Foi assim que consegui me conhecer e ver o que havia de ser reformado em mim. Aquele que, a cada noite, se lembrasse de todas as suas ações do dia e se perguntasse o que fez de bom ou de mau, orando a Deus e ao seu anjo de guarda para esclarecê-lo, adquiriria uma grande força para se aperfeiçoar porque, acreditai em mim, Deus o assistiria. Interrogai-vos sobre essas questões e perguntai o que fizestes e com que objetivo agistes em determinada circunstância, se fizestes qualquer coisa que censuraríeis em outras pessoas, se fizestes uma ação que não ousaríeis confessar. Perguntai-vos ainda isso: se agradasse a Deus me chamar nesse momento, teria eu, ao entrar no mundo dos Espíritos, onde nada é oculto, o que temer diante de alguém? Examinai o que podeis ter feito contra Deus, depois contra vosso próximo e, por fim, contra vós mesmos. As respostas serão um repouso para vossa consciência ou a indicação de um mal que é preciso curar. O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do melhoramento individual. Mas, direis, como proceder a esse julgamento? Não se tem a ilusão do amor-próprio que ameniza as faltas e as desculpa? … Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, perguntai-vos como a qualificaríeis se fosse feita por outra pessoa; se a censurais nos outros, não poderá ser mais legítima em vós, porque Deus não tem duas medidas para a justiça. Que aquele que tem a vontade séria de se melhorar sonde sua consciência, a fim de arrancar de si as más tendências, como arranca as más ervas de seu jardim. Que faça o balanço de sua jornada moral, como o mercador faz a de suas perdas e lucros, e eu vos asseguro que isso resultará em seu benefício. Se puder dizer a si mesmo que seu dia foi bom, pode dormir em paz e esperar sem temor o despertar na outra vida”.

A resposta do Benfeitor se estende um pouco mais, ao que sugerimos ao caro leitor buscá-la para maiores reflexões, no entanto, o acima transcrito é suficiente para nos posicionarmos diante das necessárias mudanças comportamentais que se espera de nós.

O que o Benfeitor está a orientar é que identifiquemos nossos valores e tendências comportamentais a partir do resultado de nossas ações nos muitos deslizes que ainda cometemos, e para isso é preciso coragem e determinação, para então implantarmos, refletidos e repetidos sistematicamente, novos hábitos que resultarão em patamares mais altos de ética e moral.

Pensemos nisso.


Referências:

➀ O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, Questão 685 a – comentários;
➁ https://pt.wikipedia.org/wiki/Devir;
➂ O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, Questão 919;
➃ O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, Questão 919 a;

Sobre o autor

Antônio Navarro

Antônio Navarro

Orador espírita e Membro da Diretoria do Centro Espírita Francisco Cândido Xavier em São José do Rio Preto - SP.

Articulista espírita dos seguintes meios de comunicação:

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