Convivendo

Mulheres no cinema: a trajetória feminina no Oscar

Quando você pensa nas mulheres que fazem parte da história do cinema, é provável que se lembre de grandes atrizes que marcaram a sétima arte. Elas viveram mulheres apaixonadas, dedicadas, cruéis, submissas, rebeldes e que correspondiam a padrões de beleza, na maioria dos casos.

Mas será que você pensaria nas mulheres que fizeram o cinema acontecer por trás das câmeras? Nas roteiristas, nas diretoras, nas figurinistas, nas maquiadoras… Como o cinema ainda é dominado por homens, dificilmente enxergamos a presença feminina nos bastidores, embora ela seja fundamental.

Então, para ampliar os seus conhecimentos sobre a participação das mulheres na história da sétima arte, vamos te mostrar quão importantes elas são para o cinema, inclusive no que diz respeito ao Oscar. Informe-se sobre esse universo de resistência e de inspiração!

A história do cinema

Se você entende um pouco de cinema, deve ter ouvido falar que ele foi criado pelos irmãos Lumière, em 1895. Naquela época, eles desenvolveram um aparelho chamado cinematógrafo. Graças a esse equipamento, foi possível registrar imagens em movimento, indo além do que as fotografias eram capazes de fazer.

A princípio, o cinema era utilizado de forma documental, para registrar alguma cena que estava ocorrendo em determinado local, sem a intenção de contar uma história. Contudo a sétima arte começou a se formar quando uma mulher francesa, Alice Guy-Blaché, decidiu incorporar narrativas às imagens filmadas.

Até então, Alice era secretária em uma produtora de cinema, a Gaumont. Ela entrou em contato com o universo do cinema quando os irmãos Lumière foram fazer uma demonstração do equipamento que criaram. Imediatamente, Alice realizou testes com a ferramenta. O primeiro filme dela, “A Fada dos Repolhos”, é de 1896.

Além disso, a cineasta foi a primeira pessoa no cinema a utilizar cores e sons nos filmes que fazia, em uma produtora que ela mesma desenvolveu, nos Estados Unidos da América. Apesar de ter mais de mil obras no currículo, depois que se divorciou, em 1920, Alice retornou para a França e não conseguiu voltar a ser diretora.

Outra diretora importante para a história do cinema foi uma contemporânea de Alice, Lois Weber. Ela foi a primeira mulher a ter um estúdio de gravação, o Lois Weber Productions, e também foi uma das pioneiras na gravação de longas-metragens. O primeiro filme dela foi feito dessa maneira, em 1914, e se chama “O Mercador de Veneza”.

A roteirista Frances Marion.
LN94501, CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons / Canva

Frances Marion, uma roteirista estadunidense, também se destacou na história do cinema. Ela foi a primeira mulher a receber um Oscar de Melhor Roteiro, devido ao filme “O Presídio” (1930). Além dessa produção, Frances escreveu mais de 300 roteiros e se tornou a roteirista mais bem paga na década de 1920.

Ou seja, as mulheres foram essenciais no desenvolvimento do cinema, inclusive atrás das câmeras, desde o surgimento dessa forma de arte. Ainda assim, atualmente elas representam uma minoria na indústria cinematográfica americana.

O Centro de Estudos sobre Mulheres na Televisão e Filme de 2018 revelou que, para cada mulher trabalhando na produção de um filme ou série de TV, existem cinco homens. Portanto, dificilmente as obras às quais assistimos trazem a perspectiva feminina, o que pode resultar em uma série de dificuldades.

Desafios das mulheres no cinema

Mesmo que as mulheres sejam uma presença essencial na indústria cinematográfica, elas ainda precisam lidar com desafios para terem um espaço nesse universo, que ainda é muito masculino. Veja quais são as dificuldades que elas enfrentam nesse meio:

1) Padrões de beleza e racismo

Os padrões de beleza prejudicam as mulheres em qualquer âmbito das vidas delas. No cinema, porém, essa dificuldade se torna ainda mais evidente. É raro encontrar atrizes que não se submeteram a procedimentos estéticos para parecerem mais magras, mais jovens ou para ganharem feições mais europeias.

Quando as atrizes optam por envelhecer naturalmente, recebem menos oportunidades de trabalho. Como o cinema dirigido e roteirizado por homens atende aos desejos masculinos, é comum que as mulheres apresentadas na tela reproduzam um padrão de beleza jovial e sensual, como se as personagens femininas fossem resumidas às aparências delas.

Outro ponto importante é que, para o Oscar, parece que o trabalho de atuar não é tão relevante quanto a aparência da atriz. Essa questão se torna ainda mais evidente quando analisamos quantas mulheres brancas já foram premiadas no Oscar de Melhor Atriz e quantas mulheres de outras etnias já receberam o mesmo prêmio.

A categoria de Melhor Atriz no Oscar surgiu em 1929, junto com a criação da premiação. No entanto, a primeira mulher negra só foi premiada em 2002, quando Halle Berry levou a estatueta. Até 2022, nenhuma outra mulher negra recebeu o mesmo prêmio.

Por outro lado, Harriet McDaniel recebeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante em 1940, ainda que tivesse retratado o estereótipo de uma mulher negra que trabalha como empregada doméstica, em “E O Vento Levou”. Até 2022, sete outras mulheres negras foram premiadas na categoria.

Será que as mulheres pretas, amarelas e latinas continuariam sendo ignoradas no Oscar se elas tivessem uma aparência diferente?

2) Casos de assédio

Além da pressão estética sobre as mulheres na indústria cinematográfica, outro obstáculo para o sucesso na profissão é o assédio sexual. Uma pesquisa com 800 mulheres estadunidenses desse universo, realizada pelo USA Today, em 2018, revelou que 94% delas já sofreram abuso sexual.

Uma mulher tirando uma mão masculina apoiada sobre o seu ombro.
AndreyPopov de Getty Images / Canva

O levantamento também mostrou que 87% dessas mulheres receberam comentários ofensivos e sexuais por parte dos colegas de profissão ou dos chefes, enquanto 75% já viram outras colegas serem vítimas dessa forma de violência. Entretanto nem 25% das vítimas denunciaram os assediadores.

A relação de poder que existe por trás das câmeras muitas vezes é refletida nos filmes, que apresentam personagens femininas que vivem em função dos personagens masculinos, atendendo às vontades deles sem questionar, sem terem histórias próprias. É difícil encontrar filmes produzidos por homens que trazem personagens femininas profundas e donas de si.

3) Desvalorização do trabalho técnico

Muitas pessoas imaginam que as mulheres do cinema só aparecem na frente das câmeras, como atrizes. Contudo elas também se fazem presentes nos aspectos técnicos da produção de um filme, como na direção, no roteiro, no figurino e na maquiagem. Apesar disso, são raras as vezes em que as mulheres são premiadas pelo trabalho técnico.

Na categoria de Melhor Direção, somente sete mulheres foram indicadas em 93 anos de premiação, sendo que três delas venceram: Kathryn Bigelow, em 2010, Chloé Zhao, em 2020, e Jane Campion, em 2022. Isso não significa que mulheres não dirigem filmes, mas mostra que elas normalmente não são valorizadas pela Academia quando o fazem.

Também é alarmante a quantidade de mulheres negras premiadas em categorias técnicas no Oscar. Em toda a história da premiação, somente quatro receberam os prêmios de: Melhor Figurino (em 2019, Ruth E. Carter), Produção de Arte (em 2019, Hannah Beachler) e Maquiagem e Cabelo (em 2021, Mia Neal e Jamika Wilson).

Por que os homens continuam sendo massivamente premiados pelo trabalho técnico que desenvolvem, e as mulheres continuam sendo menosprezadas, mesmo sendo importantíssimas para a história do cinema?

O futuro das mulheres no cinema

Ainda que o passado e o presente não sejam tão animadores para as mulheres no cinema, no que diz respeito ao reconhecimento pelo trabalho delas, o futuro é promissor. Com as movimentações populares exigindo mais diversidade e novas perspectivas sobre o mundo, é provável que a indústria cinematográfica e as premiações passem a ter cada vez mais espaço para as mulheres.

A diretora e produtora francesa Agnès Varda. Dirigiu filmes como Les Créatures e o célebre Cléo de 5 à 7.
Reprodução / Revista Caliban

Entretanto continua sendo fundamental criar um ambiente acolhedor para atrizes e cineastas, que devem ter o direito de trabalhar sem serem assediadas ou diminuídas. Nesse sentido, entender a trajetória feminina no cinema é, também, entender que existem desafios a serem superados.

Você também pode gostar

Tendo acesso a todas estas informações sobre as mulheres na indústria cinematográfica, é fundamental que você faça uma boa análise do conteúdo que está consumindo. Quantas mulheres estão envolvidas na produção dos seus filmes preferidos?

Sobre o autor

Eu Sem Fronteiras

O Eu Sem Fronteiras conta com uma equipe de jornalistas e profissionais de comunicação empenhados em trazer sempre informações atualizadas. Aqui você não encontrará textos copiados de outros sites. Nossa proposta é a de propagar o bem sempre, respeitando os direitos alheios.

"O que a gente não quer para nós, não desejamos aos outros"

Sejam Bem-vindos!

Torne-se também um colunista. Envie um e-mail para colunistas@eusemfronteiras.com.br