Espiritualidade

O Deus de Einstein e o livre-arbítrio

Mulher segurando xícara de chá ao lado de um livro aberto
Aga Putra/Unsplash
Renata Silveira
Escrito por Renata Silveira

Quando perguntaram a Albert Einstein se ele era ateu, o físico respondeu que o seu Deus era o Deus de Espinoza: “Acredito no Deus de Espinoza, que se revela num mundo regrado e harmonioso, não em um Deus que se preocupa com o destino e os afazeres da humanidade”. Mas afinal, quem é esse Deus? E se Ele não se preocupa com o destino da humanidade, como é que pode atuar em nós?

Baruch Espinoza era um filósofo que criticava a teologia por acreditar ser um movimento supersticioso que nos coloca à mercê de dogmas irreais. Naquela época, a teologia produzia uma versão de deus inspirada no próprio ser humano, ligado aos nossos próprios interesses. Um Divino que fica irado, interfere na natureza, e pode ter atitudes generosas ou vingativas. Espinoza, cuja vida se passou durante o século XVII, dizia o contrário, o racionalista acreditava que Deus é imanente, sendo a própria natureza, a substância única do mundo, e é expressa em tudo o que existe.

Pessoa com a mãos esticada em direção ao sol e ao mar
Marc Oliver/Unsplash

“A mente humana é parte do intelecto infinito de Deus.” Baruch Spinoza

Ao compreender que Deus é a matéria de todas as coisas, entende-se que há um Deus que vive em nós, nas árvores, no pôr do sol, nos montes, e em tudo o que há. Todos os elementos da natureza são fragmentos dessa divindade. E se há um Deus que vive dentro de nós, por que é tão difícil encontrá-Lo? A verdade é que o ego corrompeu a nossa ligação direta com o Divino e, equivocadamente, entregamos às figuras santas e aos templos sagrados o papel de intermediar essa conexão.

Temos o simples exemplo cristão do anjo Lúcifer, que não aceitou ser fragmento do todo e desejou ser o próprio Deus. Lúcifer foi tomado pela vaidade e pelo ego, e se tornou a “personificação” do mal no cristianismo. Assim como Lúcifer, o nosso ego pode corromper o maior bem que existe em nós, e é esse caminho que nos gera dor, angústia e sofrimento. Nós criamos o nosso destino a partir de nossas escolhas. Desastres naturais, doenças, a fome, tudo é o efeito do homem que nega o divino, mas tenta ser maior que Ele. Quanto mais nos vemos grandes, tomados pela cobiça, inveja, egocentrismo e arrogância, mais teremos e nunca seremos.

Mulher sentada na janela olhando para fora
Kinga Cichewicz/Unsplash

Envoltos neste nó, o que resta é manter a nossa dignidade e o nosso narciso, nem que isso gere ao outro o mesmo que sentimos: angústia. Esse ciclo é tão resistente que só pode ser quebrado com a volta do olhar para a nossa natureza plena, tornando-nos conscientes da nossa pequenez em matéria, mas convictos de nossa grandeza em espírito. Despir das máscaras do ego nos leva ao nosso verdadeiro eu, onde mora um verdadeiro Deus.

No livro “Desvende o poder da inteligência espiritual”, o autor Djalma Pinho afirma que “a inteligência espiritual consiste em olhar sob perspectiva espiritual, de modo que algumas características saltarão de dentro da pessoa que não usa o ego para tomar decisões, mas sim o espírito”.

Entrar em contato com o fragmento de Deus que reside em nós, nos traz uma sabedoria que só pode ser explorada quando estamos desprovidos de vaidade. Entenda, Espinoza disse que Deus não se preocupa com o destino da humanidade, pois nós mesmos tomamos a roda do leme, mas talvez Ele se preocupe com o seu destino como indivíduo. O decisor continua sendo o livre-arbítrio, mas a conexão com o Divino pode nos guiar pelo caminho.

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“No princípio quando era o verbo,
de tão pequeno me achava grande.

Uma enorme sombra diante de um sol pequeno.

Mas a grandeza das coisas pequenas,
que são as estrelas na órbita da lua,
ensina que a vida cabe somente
na sua via láctea.

Porém,
se no teu infinito
não cabe a escuridão alheia,
você brilha tão intenso
que o universo cabe todo
numa casca de noz.

E aí, de tão grande a simplicidade
nasce em teu coração
um planeta melhor:
eu, tu, eles, nós, voz.”

-Sergio Vaz

Sobre o autor

Renata Silveira

Renata Silveira

Jornalista, escritora e estudante de filosofia.

Aplico conceitos filosóficos em temas que têm ajudado a nossa geração a encontrar sabedoria e equilíbrio. Os textos são sobre autoconhecimento, desenvolvimento pessoal, espiritualidade e comportamento humano.

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