Convivendo

O que é empatia?

Mãos unidas em sinal de apoio.
bacho12345 / 123RF
Escrito por Vanessa Delfino

Já começo fazendo essa pergunta porque essa é uma palavra tão usada ultimamente, principalmente nestes tempos de pandemia em que estamos vivendo.

Outro dia tive uma discussão com uma amiga porque eu estou saindo para frequentar uma igreja e ela não. Somos da mesma fé, mas ela frequenta uma igreja de outra denominação e que está fechada, mesmo o governador de São Paulo (moramos em São Paulo, capital) tendo decretado as igrejas como serviço essencial. De acordo com ela, mesmo se a igreja dela estivesse aberta ela não iria porque ela pensa que agora não é momento de ficar em aglomeração nenhuma. Eu digo que vou porque sei da minha necessidade espiritual e da de outros também. Sim, eu posso assistir às ministrações online e orar em casa, mas não é a mesma coisa. Existe uma presença que se manifesta em ambiente religioso com uma força e um poder que não acontece na mesma intensidade quando estamos sozinhos em nossa casa. A renovação é clara e a purificação também: purificação da mente e das emoções. Quantas vezes não senti como se toda a negatividade simplesmente fosse arrancada de mim ao não só ouvir, mas sentir a vibração da música tocando na igreja?

Mas a questão aqui não é defender se devemos frequentar celebrações religiosas – seja de qual fé for – ou não, a questão aqui é o que é, de fato, empatia. Para a minha amiga, respeitar o distanciamento e o isolamento social, evitando ao máximo sair de casa, bem como utilizar máscaras e passar álcool em gel é uma atitude empática, pois assim evitamos nos contaminar e, consequentemente, contaminar o outro. Eu concordo até certo ponto, porque há um detalhe muito importante em como toda essa pandemia está se desenrolando aqui no Brasil: não é da nossa personalidade enquanto povo nem da nossa cultura nos mantermos presos e respeitar regras, ainda que lógicas. A gente é um povo de festa, de sair e de ficar na rua até tarde, de conversar e de muito, mas muito afeto. É menos difícil para o europeu ou para o asiático respeitar o isolamento porque a cultura deles é uma cultura mais distante, mais regrada, mais fria, tanto que a Austrália e a China, por exemplo, já praticamente erradicaram o vírus depois de colocarem a população inteira em lockdown total. Só que aqui…

Há quem diga que se o Bolsonaro não tivesse dito pro povo ir pra rua, que a quarentena teria funcionado ainda ano passado e agora não estaríamos regredindo, mas o discurso de Bolsonaro só tem eficácia porque ressoa com boa parte da população, ou seja: as pessoas só queriam uma desculpa para “meter o loko”, bastava alguém acender a fogueira; se não fosse o Bolsonaro, seria outro, e a situação estaria do jeito que está da mesma forma porque, como disse, a questão é cultural. A gente não fica preso, a gente não respeita regras. Maior prova disso é Manaus: a cidade foi arrasada pelo vírus duas vezes e está caminhando para um terceira onda porque a população não respeita nem isolamento nem distanciamento.

“Ah, vai ter que ter gente caindo morta na rua para o povo entender que precisa ficar em casa”. Eu digo que nem assim. Cresci na periferia de São Paulo, em um bairro superviolento, onde pessoas eram mortas e cadáveres eram jogados pela polícia em terrenos baldios e ficavam dias lá, até apodrecerem. Era tão comum os corpos jogados pelas calçadas (para que pelo menos na rua os carros pudessem andar), que as pessoas simplesmente saltavam os corpos e seguiam a vida. Afinal, como dizer para o patrão que você não foi trabalhar ou que chegou atrasado porque alguém morreu? Patrão não quer saber e você não pode perder o emprego porque tem família para sustentar. Eu, na escola particular em que estudava, graças aos esforços dos meus pais, tentava explicar para os meus colegas a situação em que eu vivia e eles não entendiam, simplesmente não entendiam. Para eles era como se eu estivesse falando de um mundo totalmente paralelo, tão irreal que parecia coisa de filme. Mas não era filme, era a realidade. E não era só a minha, era e ainda é a realidade de boa parte da população que vive em regiões extremamente violentas deste país. Para quem vive assim, infelizmente, corpos caídos no chão não chocam e o vírus é só mais um problema para quem já está acostumado, até demais, com a morte. O maior problema desse país é a desigualdade, que está aumentando ainda mais com a pandemia. É um abismo enorme que existe entre as diferentes camadas da população e não dá pra discutir empatia sem levar esse ponto em consideração.

Mulher coloca máscara sobre o rosto
Anna Shvets / Pexels

Milhões perderam seus empregos, outros tantos estão sem estudar. Recentemente fui viajar para o interior de Minas e descobri que em algumas cidades do Triângulo Mineiro os alunos da rede pública estão sem aula desde o início da pandemia porque as escolas não possuem recursos para aulas online e muitos moradores nem celular têm, que dirá um computador. E o ano de 2021 é mais um ano perdido para muitos deles. Dois anos sem estudar. Possivelmente mais, porque muitos já desanimaram e não vão querer saber de procurar mais a escola. Pessoas que estão nessa situação vão querer fazer o que para aguentar tudo isso? Uma das coisas é festa, porque é uma válvula de escape.

Quero deixar claro que não estou aqui incitando ninguém a desrespeitar as recomendações das autoridades da saúde, mas também vejo que, por vários motivos, não está dando desde o começo disso tudo. Querer aplicar no Brasil as mesmas regras de países de fora não está funcionando. Um ano depois e a gente está pior do que quando começou, com esse abre e fecha. Gostaria muito de ter uma solução, de verdade, uma solução adequada à realidade em que vivemos aqui, mas não tenho, infelizmente. Por hora, meu desejo é poder conhecer mais a fundo as diversas realidades do povo brasileiro, que é o meu povo, e compreender como cada camada realmente pensa e sente. Não quero determinar o que é certo nem julgar ninguém, só quero compreender, pois acredito que ser empático é compreender o outro e para isso preciso verdadeiramente escutar as pessoas. Também não acho que o povo seja ignorante, como muitos falam, porque a gente só pensa assim por nos compararmos demais com os países de fora, principalmente Estados Unidos e países europeus. Que cessem as comparações. Nós somos o que somos e pronto, não somos melhores nem piores do que ninguém e agora não é hora de fazermos críticas a nós mesmos. Não vai adiantar. A gente precisa é de compreensão, de uma empatia verdadeira.

Da minha parte tenho realmente buscado conversar mais com diferentes pessoas para entender os diferentes pontos de vista e também tenho procurado por formas de ajudar a quem precisa, seja doando dinheiro, seja oferecendo alimentos e produtos de higiene. Pode não ser muito, mas é melhor do que ficar apenas discutindo. E o meu chamado aqui é: o que você pode fazer ao seu redor para exercer a empatia e ajudar o próximo neste momento?

Sobre o autor

Vanessa Delfino

Aprendiz da vida, acho que esse é o termo que melhor me define, além de louca, é claro.

Tenho um amor profundo pela arte e me mantenho aberta a todas as experiências que a vida tiver para me ensinar. Através do teatro, da dança, da música e da escrita eu me descubro, encontro habilidades infinitas e encaro melhor a vida. Cada experiência é uma descoberta e uma aventura que quero compartilhar com o maior número possível de pessoas.

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