Autoconhecimento Comportamento

Por que escrevo o que escrevo?

mão escrevendo no caderno com bolas de papel e caneta
Luis Lemos
Escrito por Luis Lemos
Este artigo é, antes de qualquer coisa, uma parte da minha história de vida. Com o passar dos anos, tive o privilégio de conhecer muitas pessoas, principalmente padres, freiras e professores, que me incentivaram no poder transformador do estudo, da leitura, da escrita, da filosofia e dos livros. Minha gratidão é enorme por ter tido essas oportunidades. Eu sempre acreditei no poder imaginativo-criativo do ser humano. Quanto ao trabalho de escritor, que sonho um dia poder realizar, gosto muito da obra de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”.

Caneta escrevendo

1. A criança, a família e a escola

Eu venho de uma família muito humilde, pobre mesmo! Sou o sexto de uma família de dez irmãos. Meus pais se chamavam João de Oliveira da Silva e Raimunda Matias de Lemos, conhecidos como Tito e Didi, ambos falecidos. Meus pais eram analfabetos, não sabiam ler nem escrever. No entanto sempre incentivaram seus filhos a estudar. Um dia, lembro-me como se fosse hoje, eu ainda era criança, papai me chamou num canto e disse-me: “Meu filho, estude para não acabar como eu. O filho do pobre só é alguma coisa quando estuda”.

Depois de algum tempo, estas palavras ecoaram bem no fundo do meu coração, então eu comecei a gostar de estudar. A escola ficava a dez quilômetros de casa. Eu fazia esse percurso a pé todos os dias, juntamente com meus outros irmãos. Apesar das dificuldades, da longa distância e dos perigos pelo caminho, aquele tempo teve fundamental importância para a formação do homem que sou hoje. Devo dizer que naquele tempo ia para escola não porque tinha um sonho, mas porque tinha fome. Era na escola que eu fazia a melhor refeição do dia.

Talvez pela merenda escolar ou por outro motivo qualquer que no momento não me vem à memória, fui gostando de estar na escola. Aos poucos já não queira mais trabalhar com meus pais na roça. O meu pai não se opunha, apenas advertia: “Se é para estudar, pode ir, não tem problema. Agora, se você estiver me enganando, você vai ver”. Esse “você vai ver” significava, quase sempre, peia! Muita peia! O meu pai tinha um jeito todo especial de descobrir quando um filho estava mentindo. “Leia isso aqui pra mim!”, ordenava ele, geralmente mostrando a Bíblia. “Se gaguejar é porque você está mentindo”. Quase sempre a peia era certa.

Mão de criança escrevendo

Eu estudava no período da manhã. Sempre que podia, ficava na parte da tarde na escola. Lembro-me de que chegou um tempo em que eu procurava qualquer motivo para ficar na escola. Naquele tempo, ninguém falava de escola em tempo integral. Sim, era isso o que eu queria: ficar na escola e eventualmente estudar. Eu queria ficar na escola o tempo todo, tudo para não ir para a roça com os meus pais durante a tarde. Os piores dias da semana eram aqueles em que não tinha aula, principalmente os sábados e os domingos.

2. Política, vocação, trabalho e mistérios insolúveis

Paradoxalmente, meu pai sempre sonhou em ser político. Ele falava com muito orgulho do Presidente Getúlio Vargas. Destacava as obras e a construção de Brasília, idealizada por Juscelino Kubitschek. Ele falava destes dois políticos como heróis. Para ele, o político tem o poder de transformar o mundo das pessoas, de realizar sonhos e de atrair pessoas. Pois bem, o meu pai nunca foi político, no entanto sempre atraiu as pessoas. Ele era um sujeito gregário. Ele sempre conversava com todo mundo, sempre pronto a ajudar o próximo. Dono de voz ativa, nunca se calava diante das injustiças.

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Num tempo em que as relações eram mais simples e os contatos eram mais próximos, face a face, meu pai ficou sabendo, por meio de um radinho de pilha, que o governador do Estado iria visitar a cidade onde morávamos. No dia marcado, ele acordou bem cedo, de madrugada mesmo, vestiu a calça mais nova que tinha, calçou o único sapato social preto que tinha, colocou a camisa social branca sobre os ombros e foi ao encontro do governador, sem antes, é claro, me puxar pela mão.

Quando lá chegamos, depois de muitos discursos, quase todos em causa própria, ele pediu a palavra e começou dizendo: “Quem sabe cantar que cante. Quem sabe rezar que reze. Quem sabe escrever que escreva. Eu tenho boca. Eu sei falar. Eu vou falar”. Papai falou por mais de trinta minutos sobre os muitos problemas que afligiam os agricultores da região. Quando terminou de falar, foi aplaudido de pé por todas as pessoas que ali estavam. O governador, descumprindo a ordem de sua assessoria, foi encontrar-se pessoalmente com o meu pai.

Como nenhuma das promessas que aquele governador fez à cidade e ao meu pai foram cumpridas, ele passou a ser ridicularizado pelos vizinhos. Meu pai, não aguentando a pressão, vendeu suas terras e foi morar em outra cidade. Nesta época, eu cursava a 4ª série do ensino fundamental. Fiquei fora da escola durante cinco longos anos. Quando voltei a estudar, já não era mais nenhuma criança.

Nesta época, eu trabalhava durante o dia num comércio da família e, à noite, ia para a escola. Aos poucos foi voltando aquele gosto pelos estudos. Talvez por ter vivido de perto as artimanhas da política, decidi focar somente nos estudos. Naquela nova escola havia um professor que incentivava muito o protagonismo estudantil. Aos poucos desenvolvi um gosto todo especial pela leitura, especialmente por biografias. Lia sem parar noite e dia, dia e noite: romances, poesias, contos…

Quando chegava o final do ano letivo e eu passava de série, ouvia aquele conselho do meu pai: “Meu filho, estude para não acabar assim como eu. O filho do pobre só é alguma coisa quando estuda”. Aquelas palavras afloravam cada vez mais e mais em mim. E foi pensando desta maneira que iniciei o ensino médio no seminário salesiano. Lá, estudando para ser padre, aprofundei cada vez mais o meu gosto pela leitura. Das leituras obrigatórias que era obrigado a fazer no seminário, as biografias dos santos eram as que mais me atraíam.

Mãos de homem escrevendo

Quando fui para a faculdade de filosofia, a leitura dos clássicos era uma atividade obrigatória. No seminário, uma vez por semana, havia um momento de socialização de ideias chamado de Arena, quando tínhamos que expor as nossas ideias sobre as leituras da semana – um livro, um artigo, um autor, uma biografia, um santo etc. Durante este período, eu tive a oportunidade de ler muitos livros, inclusive tive a oportunidade de conhecer vários dos autores dos livros que lia. Enfim, foi lendo que surgiu a vontade de ser escritor.

Quando larguei a vida religiosa e fui trabalhar como professor de filosofia numa escola pública da periferia da cidade de Manaus, entendi perfeitamente o que o meu pai quis dizer com aquela frase: “O filho do pobre só é alguma coisa quando estuda”. Sim, estudando eu me tornei professor. Por causa da realidade da escola, recuperei o gosto pela escola que eu tinha quando ainda era uma criança.

Surgiu, então, a ideia de trabalhar com meus alunos a importância da escola em suas vidas. Elaborei projetos. Trabalhei com teatro. Dinâmicas de grupo. Metodologias interativas. Muitos dos meus alunos tornaram-se criaturas vivas, recuperaram o gosto pela vida. Muitos deles começaram a refletir sobre suas próprias existências e mudaram de vida. Assim, tinha razão o filósofo grego Heráclito: “Um homem só se aproxima do seu eu verdadeiro quando atinge a seriedade duma criança que brinca”.

Humildemente, ler é fácil, difícil é escrever. Ler não requer técnica, escrever, sim. Paradoxalmente, escrever não é mecânico, é espontâneo. Atualmente penso que escrever é uma atividade para poucos, apenas para os escolhidos. É uma forma de aproximação entre o mundo humano e o mundo divino (ou diabólico). Penso que escrever é o trabalho espiritual do ser humano que tem uma relação consigo mesmo, com os outros homens e com o mundo e que sente o desejo de testemunhar esta relação por meio da palavra.

Já se passaram quarenta e oito anos, mas eu continuo sonhando em ser escritor. Para isso, leio todos os dias. Aquele gosto despertado pela leitura quando ainda era menino, que foi se intensificado no seminário e que encontrou muitas dificuldades depois que larguei a vida religiosa, ainda não morreu em mim. Ele continua vivo e mais intenso do que nunca! Leio todos os dias. Acredito que é lendo, e lendo muito, que “ser escritor” se realizará em mim. Neste “exercício espiritual”, tomei como máxima a seguinte frase: “Nenhum dia sem escrever uma página”. Enfim, que o dom da escrita venha me visitar um dia!


 

Sobre o autor

Luis Lemos

Luis Lemos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA); Graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB); Bacharelado em Filosofia pelo Centro do Comportamento Humano (CENESCH).

Professor de Ciências Naturais na Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED/AM). Professor de Filosofia da Educação, Ética e Filosofia Jurídica na Faculdade Martha Falcão/Devry Brasil.

Tem experiência na área de Filosofia da Ciência, com ênfase em História da Filosofia, atuando principalmente com os temas: Educação, Ensino de Ciências, Epistemologia, Ética e Ética Profissional.

Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2010); O segundo olhar – A filosofia em temas amazônicos (2012); O terceiro olhar – A filosofia em lendas amazônicas (2014); O homem religioso - A jornada do ser humano em busca de Deus (2016).