Autoconhecimento Comportamento

Quando a vida é um diário de bordo

Painel com imagens feitas pelo autor do artigo durante trabalhos realizados por diversos países e diferentes estados do país.
Luiz Roberto Bodstein / Canva

A vida do consultor é marcada pela ausência de rotina, pela adaptação constante e pela entrega incondicional. Entre improvisos e deslocamentos, aprende-se que o verdadeiro profissional não escolhe o cenário, mas honra o compromisso, transformando limites em soluções e desafios em crescimento.

Se você é daqueles que gosta de passar a semana atrás de uma mesa de escritório e o final de semana vestindo pijamas, então escolha ser qualquer outra coisa que não consultor de empresas, pois seus clientes estarão espalhados pelo mundo e você terá que estar exatamente onde ele está, e não necessariamente no lugar que você escolheria estar.

Exatamente isso: daqui a pouco, em 2027, estarei completando quatro décadas de quando pisei nessa estrada, onde cada semana me trazia o “frisson” de não saber onde estaria na próxima, e isso, querendo ou não, nos vicia o corpo e o espírito! Ah, se vicia! A gente aprende a ser inquieto, a não passar duas semanas no mesmo lugar, a não fazer as mesmas coisas todos os dias, a viver de desafios, a descobrir coisas novas a cada momento, a aprender a contar apenas consigo mesmo para o que der e vier, já que estará bem longe do seu mundo conhecido.

Ser consultor não é ter desafios, mas viver um desafio que nunca termina, é se acostumar com o inusitado, é tirar soluções num estalar de dedos quando os recursos não estão à mão. Não foram poucas as situações em que precisei dividir as poucas horas da noite entre o sono e o trabalho que teria de “tirar da cartola” para aplicar de manhã, simplesmente porque todo o material de um longo treinamento, despachado do Rio, nunca chegou ao destino. Mas 30 gerentes que estariam esperando por mim de manhã não tinham nada com isso, e teriam que receber o produto pelo qual pagaram. Ele precisaria então sair do zero e estar pronto para ser aplicado às 8 da manhã, com o conteúdo escrito literalmente “nas coxas”, mas onde o sentido figurado de algo feito “de qualquer jeito” não era uma opção.

Como se diz na arte, “the show must go on”: meus alunos tinham pago para ter o resultado esperado, e eles o teriam com material ou não, pudesse eu dormir ou não. E acreditem: de manhã, o treinamento estava todo rascunhado nas folhas de um caderno e na minha cabeça, e o resultado, nesse caso específico, foi tão surpreendente que aquele conteúdo, nascido de improviso, acabou entrando para a grade regular da empresa como um dos mais procurados pelos nossos clientes.

Resumo da ópera: quando você se predispõe a ser consultor, não espere que alguém vá lhe perguntar se você aguenta passar noites em claro e sair cedo para a sala de aula ou para uma reunião com a direção, se você vai ficar preso na Transamazônica com uma boiada rodeando seu carro; se precisará dar aula sentado num tronco após seu local de treinamento, no meio do nada, ter sido invadido pela água da tempestade noturna; se o banheiro de sua pousada é frequentado por pererecas e lagartixas para fugir das tórridas noites da caatinga em que seus alunos o aguardavam; ou se você fica desconfortável em passar quase 20 horas num voo com várias escalas.

Sim. É verdade que a empresa que eu representava era “top” de linha e, se houvesse, me colocava em hotéis cinco estrelas nos destinos, motorista esperando para me levar para todo lado, e tudo o mais que o mais exigente dos profissionais poderia esperar em termos de respaldo institucional e conforto. Só que essa realidade não se estende a todos os lugares onde eu chegava, o que significa que, em algumas cidades no meio da Amazônia, o melhor hotel da cidade tinha colchões em que eu podia sentir o estrado da cama me machucando, ou acordava no meio da noite com a perna sendo literalmente sugada por percevejos.

Imagem externa e da piscina de um hotel de luxo, simbolizando o Holiday Inn, no centro da Times Square.
Lingbeek / Getty Images Signature / Canva

Que não se esperasse, então, por todo esse “mundão de meu deus”, encontrar hotéis do mesmo padrão do Holiday Inn, no centro da Times Square, ou do Tangará no coração da capital paulista. O cotidiano do meu trabalho não inclui o luxo de escolher entre a realidade desejada e a possível, ao me deslocar para o local onde o trabalho será executado. Ou se aceita o que existe lá, ou não se aceita o trabalho. A regra que prevalece, portanto, é a do velho axioma do “não tem tu, vai tu mesmo!”.

Assim, após não saber sequer onde eu estaria na semana seguinte por mais de três décadas, seria impensável desejar que o travesseiro do hotel local fosse tão confortável quanto o que eu tinha em casa. Diante de minha realidade de profissional nômade acostumado aos destinos mais improváveis, se tem uma palavrinha que nunca encontraria no meu dicionário, nos mais de 30 anos de carreira, é “rotina”. Customização só se aplicava ao que era entregue ao cliente, não ao consultor, que precisaria se contentar com o possível para a realidade local, sem deixar que isso interferisse na qualidade do trabalho.

Ao fim de tudo, ser consultor é tornar-se PhD no diferente: acordar todos os dias em um lugar diferente, entregar um trabalho diferente para cada cliente, conhecer pessoas diferentes em cada novo projeto, e encontrar realidades totalmente diferentes das já conhecidas para aprender tudo o que consiga com essa aquarela de cores indescritíveis que a profissão nos revela a cada dia.

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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