Convivendo

Esta vida de bordo há de matar-me

Desperate woman with head in hands she is having an headache depression and sadness concept
Escrito por Thiane Avila

A alusão aos pretextos de alcance funciona como um gás tóxico ao maquinário do corpo. As dissoluções tendem a invalidar o ócio, a resiliência, o sossego e a clivagem entre ser e ter. Todas as metáforas contemporâneas giram em torno de uma metamorfose direcionada à ânsia, ao despertencimento para querer ter o que a si pertença. Essa vida que se ajusta no desencaixe enlouquece. Não há aceitação.

Adotamos, via de regra, a ilusão homeopática de uma identidade que, na verdade, é fluída. Torço, é verdade, para a liberdade em massa, regozijada pelo benefício mútuo e pela troca sincera de tudo o que possa somar. A vida, no entanto, me parece sanguinária à medida que depreende uma antropofagia às avessas. Objetificada.

Perdemos a herança tupi para nos associarmos às posturas parasitas de quem não sabe pensar sem ter por prospecção primeira as próprias vicissitudes. Um amor de si que se tornou amor-próprio e que desintegrou alguns sentidos de ser. À Rousseau, qualquer medição é lente externa. Qualquer equívoco é amparado pela soberania de ter o que se parece para, depois, e apenas talvez, ser esse algo parecido.

Todas as dores convalescem uma existência jurada de morte. A vida resplandece em dor à medida que se faz tato, arrepio. As sensações reverberadas pela efervescência de uma ansiedade afirmada pela pressa são provas de que algo não está bem. Combatendo o sistema sem o cuidado de não reproduzi-lo no combate. Levantando, pois, as bandeiras erradas pelas causas certas. Apontando, assim, a arrogância do juízo de valor sobre as certezas. O que é errado, afinal?

Silhouette of two women on a bench by the sea

“Torço, é verdade, para a liberdade em massa, regozijada pelo benefício mútuo e pela troca sincera de tudo o que possa somar.”

Nessas ancoragens pretensiosas de finalidades duvidosas, perdemos o limite do presente para a projeção necessariamente sem fim de um destino que não se conhece, mas que virou a religião primeira dos negócios.

Vivo, como todos, a bordo de uma viagem vital cujo desfecho em mar parece análogo à atitude estúpida de matar a sede com água salgada. Buscamos a infinitude como fuga do fim preciso de que a vida se forma a cada novo nascimento. Temos prazo, mas isso ninguém entende.

As brechas elucidadas pela falta de resposta emanam a sabedoria universal, aquela mesma cristalizada pelo dilúvio da espera. Hoje não há espera. Hoje há objeto de busca, preferencialmente parcelada pelas novas metas adicionadas.

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A existência transformou-se numa conjunção perdida de verdades incompreendidas. A teorização avessa dos princípios tende a ser a mentira engessada de um convencimento que se engole pela indigestão do resto.

Somos excelentes teóricos de uma metástase sem sentido. Não se percebe, afinal, que navegar nesse barco é ilusão de chegada. O mar nos tem, não o contrário.

  • Thiane Avila

    Thiane Avila

    Contos
    [email protected]jundiaionline.com.br/colunistas/colunistas.asp?c=54profile.phpSkype: thianeavila

    Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

    A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

    Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.