Convivendo Saúde Mental

Quando o racismo velado afeta a saúde mental

Um homem negro isolado apresentando um semblante de tristeza. Ao fundo, um grupo de pessoas sentados à mesa, conversando e sorrindo.
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Diariamente vemos casos de racismo diante de nossos olhos. São ações sem nenhuma pretensão de serem escondidas. É o racismo estrutural nos mostrando a cada dia o quanto precisamos ser fortes para seguir adiante e denunciar, mas e quando notar que o racismo velado está presente?

Como identificar que há racismo velado e como expor isso? Muitas vezes, o racismo velado chega em tom de assuntos sucintos, de ações imperceptíveis e de palavras ambíguas e que muitas vezes geram dúvidas. Será que foi racismo mesmo? E quem está do lado de fora da situação, acaba apontando diversas sugestões de que não é racismo, tornando esta a última opção, quando na verdade deveria ser a primeira.

Muitas vezes é difícil reconhecer ou acreditar que tenha passado pelo racismo velado, pois, como o nome propriamente diz, ele não é explícito. Para o paciente que carrega isso, reconhecer e trazer isso em sessão é um processo bem delicado. Assim como outras questões que levam alguém a buscar terapia, muitas vezes o racismo velado chega em forma de conteúdo latente, aquele que não é explícito.

No entanto esses mesmos fatores tornam o percurso cheio de obstáculos para chegar até a terapia, pois nem todos os profissionais de saúde compreendem esses aspectos, e isso dificulta o processo terapêutico.

À esquerda, uma mulher negra erguendo sua mão direita e, ao mesmo tempo, mostrando sua palma à câmera. À direita, um homem negro realizando a mesma postura. Este gesto é conhecido, popularmente, como "pare".
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Não é só essa forma de racismo, mas em todas as outras: é preciso entender quão grave isso pode se tornar se não tratado, podendo acarretar transtornos como depressão, crises de pânico, ansiedade, entre outros sofrimentos psíquicos, mas é importante salientar que, além de cuidar da saúde mental, é preciso agir e enxergar qual é a melhor forma de lidar com essa situação, inclusive legalmente.

Quando, em umas das vezes eu passei por racismo velado, não entendia o porquê daquela pessoa me tratar “diferente das outras”, eu era subordinada dela e para o todo o time ela respondia as mensagens e as minhas, não; agia como se eu não me esforçasse tanto quanto as outras pessoas. Em umas das frases, ela disse: “Mostra força de vontade, hein?”. Ela, uma mulher branca, vinda de família privilegiada. Eu, mulher preta, vinda da periferia, sem pretensão alguma de querer ser mais do que ela, até mesmo porque ela tinha o cargo maior do que o meu, então entendo que eu deveria respeitar a hierarquia, mas muitas coisas eu sabia mais do que ela, e isso a incomodava. Uma escravidão moderna, eu diria. Ou seja, além de eu trabalhar tanto quanto as outras pessoas, eu que tinha que mostrar mais, porque a minha cor a impedia de ver meu trabalho.

Durante o processo terapêutico, aquilo me consumiu tanto que a minha analista apontou: “É tão difícil para você passar por isso que não conseguiu dizer o nome do que está acontecendo com você”. Foi então que me dei conta de que era o racismo velado. Eu contava a pessoas próximas a mim, mas que eram brancas e não enxergavam dessa forma, e achavam que ela apenas não gostava de mim. Já para as pessoas negras, todas diziam que sim, era racismo velado.

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Portanto, do ponto de vista do analista, é de suma importância que as questões étnico-raciais sejam bem observadas. É preciso ter um olhar interseccional na análise, para que o paciente seja acolhido corretamente e suas questões sejam trabalhadas de forma eficaz.

Sobre o autor

Beatriz de Andrade Silva

Psicóloga clínica, orientada pela psicanálise freudiana, especialista em diversidade nas organizações (PUC-SP), pós-graduanda em direitos humanos, responsabilidade social e cidadania global (PUC-RS) e pesquisadora das relações étnico-raciais. Atuou por oito anos no mercado financeiro, na área de recursos humanos em atração, seleção, treinamento e desenvolvimento. Na área social, é voluntária em um coletivo que busca colocar a diversidade e a inclusão em pauta e ação e, por fim, é mentora voluntária de jovens de 16 a 23 anos, auxiliando no propósito de carreira.

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