Tem muita gente por aí que acha que empatia significa carregar os problemas dos outros nas costas. Que ser boa pessoa é sinônimo de estar disponível para todo mundo, a qualquer hora, de qualquer jeito. Atender ligações no meio da madrugada, cancelar compromissos, adiar necessidades próprias. Sempre ali, pronta para estender a mão.
O problema é que, com o tempo, algumas dessas pessoas percebem que nem todo mundo quer aquela mão para levantar. Alguns querem a mão apenas para se segurar enquanto continuam sentados no mesmo lugar.
Tem diferença entre ajudar alguém que está passando por um momento difícil e se tornar parte do sistema que mantém essa pessoa exatamente onde ela está. No começo, ninguém vê isso. A gente vê alguém sofrendo e quer aliviar aquela dor. É instintivo, é humano. Mas, após meses, às vezes anos, quem ajuda olha em volta e percebe que a vida daquela pessoa não mudou nada. E a dela, sim. Para piorar.
Porque enquanto alguém está ocupado resolvendo os problemas de outro, os próprios problemas vão se acumulando. Aquele projeto fica para depois. O curso também. As conversas necessárias, os limites que deveriam ter sido colocados, tudo vai ficando de lado. A pessoa vira especialista na vida do outro e esquece de cuidar da própria.
E aí vem a parte mais delicada: entender por que aquela pessoa estava na situação em que estava. Não se trata de julgar, de achar que as pessoas merecem seus problemas ou que dificuldades são sempre fruto de escolhas ruins. Nada disso. Mas existe uma diferença entre atravessar uma crise e viver permanentemente em modo crise.
Tem gente que aprendeu a habitar o caos. Que construiu sua identidade em torno do sofrimento, da falta, da sensação constante de estar sempre à beira do abismo. E quando aparece alguém com boa vontade, ombro amigo e disposição de ajudar, essa pessoa se torna parte do cenário. Mais um personagem no mesmo drama que se repete sem fim.
O que muita gente leva anos para entender é que ajudar de verdade às vezes significa não ajudar do jeito que a outra pessoa pede. Significa perceber quando aquela presença está facilitando que alguém continue fugindo das próprias responsabilidades. Significa olhar para aquela situação e se perguntar: estou contribuindo para que essa pessoa saia daqui ou estou sendo o colchão que amortece as quedas e torna suportável ficar caindo?
Não é fácil fazer esse tipo de pergunta. Mexe com a autoimagem, com a necessidade de ser querido, de ser visto como boa pessoa. Mas é necessário. Porque, se a pergunta não for feita, a pessoa acorda um dia e percebe que está tão atolada quanto quem tentou salvar. Que suas energias acabaram. Que sua paciência virou ressentimento. Que perdeu pedaços importantes de si mesma no processo.
Dá para desejar o bem de alguém sem se colocar como ponte humana para que essa pessoa atravesse suas próprias dificuldades. Existe amor em dizer “não posso fazer isso por você”, “preciso cuidar de mim agora”, “torço por você, mas não da forma que está pedindo”.
É dolorido. Principalmente quando a pessoa do outro lado acusa de egoísmo, de falta de coração, de abandono. Mas aí vem a lembrança: ajuda que destrói quem ajuda não é ajuda. É sacrifício sem propósito. É trocar um naufrágio individual por um naufrágio coletivo.
Quem aprende isso descobre que pode estender a mão sem precisar pular no buraco junto. Que pode sentir compaixão sem se anular. Que pode torcer pelo crescimento de alguém sem precisar fazer o trabalho que só essa pessoa pode fazer por si mesma.
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E sabe o que muda quando esse aprendizado acontece? As ajudas ficam mais efetivas. Porque quando você não está afundando junto, consegue ver o quadro todo com mais clareza. Consegue oferecer o que a pessoa precisa, não apenas o que ela quer naquele momento de desespero.
Salvar a si mesmo é sobrevivência. É sabedoria. É entender que ninguém pode dar o que não tem.
