Convivendo

Relacionar-se

Juliana Meyer Luzio
Escrito por Juliana Meyer Luzio
Se você medisse agora sua vontade de se relacionar com outras pessoas, de 0 a 10 qual seria o tamanho dessa vontade?

Entendendo que relacionar-se de modo geral e simples é ter amigos, paqueras, amores e família. É querer estar e conviver com eles, querer encontrá-los e passar um tempo juntos conversando, contando de si e sabendo do outro. É investir tempo na construção de laços e afetos!

Tendo essa definição bem simplória sobre relacionar-se, em qual grau você se encontra?

Tomando um Brunch com meu marido num domingo de manhã, ouvimos o seguinte diálogo na mesa ao lado, entre uma garotinha de uns 7 anos aproximadamente e sua mãe: “filha você gostou do celular novo que seu pai te deu?”, “eu gostei mãe, mas quero mesmo é um cachorro”, “cachorro não dá filha, o celular é melhor.”

Como temos três cachorros foi impossível não falarmos entre nós sobre o que acabávamos de ouvir, mas o que nos afetou nessa cena e que gerou esse texto, foi o pedido de uma criança por um presente mais genuíno do que um celular. Foi o pedido por uma possibilidade de relacionar-se mais, de brincar de forma humana e com algo que interagisse afetuosamente com ela. E não apenas, um novo celular que lhe fosse proporcionar mais do mesmo – conversar virtuais, jogos e solidão.

É incrível como diante de tanta globalização, de tanto acesso ao que está distante nos tornamos imensamente solitários. É curioso que diante da possibilidade de vermos e falarmos com amigos do outro extremo do Planeta não conhecemos nossos vizinhos de porta, não almoçamos com amigos queridos e mal falamos com filhos(as) e companheiros(as).

Ao mesmo tempo que vibrei com o pedido dessa garotinha por um cachorro, me senti triste por perceber o quão empobrecida está nossas relações e o que estamos transmitindo sobre viver com o outro – é melhor e mais fácil nos relacionarmos pelo celular, afinal dá menos trabalho, ocupa menos o nosso tempo, não requer traslados, não nos convoca a dar e receber afeto e a qualquer momento podemos simplesmente ativar o modo avião e não saber, nem falar com ninguém.

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Enquanto que ao estar física e emocionalmente próximos de outras pessoas, nos afeta demasiadamente. Porque elas nos provocam com suas ações e falas, nos questionam sobre nossas escolhas, nos irritam, nos cansam e tantas outras coisas, porque relacionar-se não é mesmo fácil, mas é humano e somos de carne e osso, não somos virtuais!

Quando fugimos de algo que nos é tão essencial enquanto humanos, como nos relacionarmos uns com os outros, estagnamos numa ilusão de sermos auto-suficientes, de que não importa a vida alheia para o meu bem viver, para o meu sucesso e a minha paz. Caímos então, em um dos maiores enganos possíveis que é NÃO nos sentirmos pertencentes ao TODO. Que é de acreditarmos que nossa vida, nosso mundo, nossas ações, não afetam nada e nem ninguém e vice-versa.

Passamos a viver no mundo, mas deixamos de ser o mundo.

Quando uma criança nos diz preferir companhia, porque no fundo um cachorro é isso – brincadeira, amor incondicional, alegria na chegada, olhar triste na saída, lambidas, comunicação não verbal aflorada e portanto, um tremendo exercício de percepção do outro. É caminhar na rua, encontrar com outros cachorros pelo caminho e socializar, é ter responsabilidades com esse outro dando comida, água, mantendo o ambiente limpo, enfim ter um cachorro é uma experiência riquíssima no aprendizado do relacionar-se. É aprender a lidar com a velhice, com as doenças e morte de um companheiro, ter um cachorro nos convoca diariamente a disponibilizarmos tempo para alguém além de nós, a olharmos ao redor e cuidarmos do ambiente.

Então quando uma criança nos diz preferir companhia a um celular isso me deixe esperançosa, porque evidencia que mesmo diante da miséria de bons afetos que vivemos, algo genuíno permanece em nós – nossa natureza de ser e estar com o outro.

Agora, não escrevi esse texto pra fazer uma apologia aos cachorros, nem pra dizer que todas as crianças e pessoas devam tê-los, na realidade acho super legítimo uma mãe/pai dizer não a um cachorro, porque existem rotinas que de fato não cabem um animal de estimação e muito melhor será encarar isso do que ter um cachorro e ele se tornar um membro solitário a mais nessa família.

O que importa aqui, pelo menos pra mim, e ficarei imensamente feliz se você compartilhar o que importa pra você, é a resposta curta, definitiva e sem diálogo ou possibilidade de argumentação de que “cachorro não dá filha, o celular é melhor.”

Definitivamente para uma criança, brincar com outra pessoa ou animal é melhor do que um celular, não temos o direito de privá-los do que nos é essencial e fundador como o relacionar-se com outras pessoas. Não pode o cachorro, tudo bem, isso também definitivamente não é um problema. Mas existem várias opções de brinquedos e jogos que oferecem o que essa garotinha pediu – companhia!

Fico de dedos cruzados para que sua vontade de viver a vida acompanhada esteja na casa dos 8, 9 ou 10 porque isso indicará que você já sabe que estar com outro não é fácil, mas viver sozinha é mais difícil ainda, simplesmente porque somos parte do Todo.

Sobre o autor

Juliana Meyer Luzio

Juliana Meyer Luzio

Terapeuta que constrói sua clínica através de um espaço que integra fala, consciência corporal e quietude, tornando possível uma reconexão com o que há de belo, delicado e muito forte em nós - nossa saúde.

Formada em Psicologia, Psicanálise, Terapia de Integração Craniossacral, Transmutation Therapy, entre outros, está sempre em busca de conhecimentos que agreguem, em seu dia-a-dia maneiras, diferentes de olhar a vida.

Atualmente, além de sua clínica, lançou a Îandé, onde tem se dedicado à arte de criar e costurar produtos exclusivos e cheios de carinho.

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