Convivendo

Revisitando algumas paixões

Thiane Avila
Escrito por Thiane Avila

Do lado sombrio da minha existência, talvez permaneçam ócios incubados sobre expectativas desvencidas. Sobre invenções não levadas adiante. Sempre tive taras a neologismos, emblematizações categóricas com noções desprovidas de sentido num primeiro momento. Não há como ser de fácil compreensão o código que poucos conseguem decifrar. Não se trata de ser a soma de metamorfoses, mas o incremento de sensações. A descontinuidade de princípios que foram sequer premeditados. Um despropósito monumental de existir.

Nas capas robustecidas de glória sobre meu futuro planejado, inferi despromessas ao amar em plenitude o que eu estava disposta a não ser. Aos ideais negados e à presunção de mudança colocada em prioridade. Ser anarquista frente às próprias estagnações, amanhecendo com a imprevisibilidade de quem se permite nascer a cada dia de forma destoante a de outrora. Não ser, pois, tendência, para que o vanguardismo tome outra  significação. Para que seja pura miscelânea de roteiros inacabados, a somar-se rotineiramente por ocasiões unas e improváveis, repletas de loucura e embriaguez pelo novo.

Ao revisitar minhas antigas paixões, reconfiguro ordenamentos e perspectivas.
Inovo semblantes e reafirmo velhas concepções. Dentro de todas minhas mudanças, há resquícios imutáveis de amor ao vivido, de paixão pelos impulsos. Ao tudo que se abstém com as gírias tendenciosas, convenço-me sobre lápides precocemente concluídas. Frases antecipadamente constituídas sobre metamorfismos incongruentes. Sobre incertezas que, imaturas, assumem o lugar de certas. Não há como reviver sem problematizar. As inferências são o gás necessário às metas que se renovam toda vez que nos permitimos desabrochar.

Women.Na retenção dos traumas, ensurdeço minhas possibilidades de ir além. A referência é positiva apenas no contexto da causalidade apreciativa, ou mesmo da busca pelo que agrega. Meu acervo é revisitado à medida que procuro exemplos rechaçados. Que reestabeleço ordens de amor a serem seguidos àquilo que, em algum momento da vida, possa ter sido enterrado sem a real necessidade. Ser impulso não é agressividade, mas pressa em viver. Agonia por estar ciente de que há muito a ser feito e pouco tempo para que seja realizado. Nossos parâmetros jamais se adequarão ao tempo. Somos mutação em forma de permanência.

Todo o ato seletivo configura uma forma preestabelecida de convencimento. De alguma forma, temos sempre de dar preferência. Não há como reviver todas as experiências numa única história. A fragmentação da rotina é a forma didática de viver por acaso. Caso contrário, incorreríamos sobre o perigo do desgaste e da perda ainda maior de detalhes. Já perdemos tanto pelo caminho, seria uma pena termos de saborear tudo de uma só vez.

O passar dos dias é a conta ideal para a deslegitimação de palpites. Para o descarte dos registros maldosos que fazem de nós a todo o momento. Somos figura pormenorizada pelo externo na maior parte do tempo. Mesmo sendo concepção holística de um todo que só funciona graças à perspectiva relacional, constantemente somos diminuídos à escala de peças. Reviver paixões é convencer-se de que sentimentos não são possíveis em marionetes. E é dessa forma que vamos quebrando barreiras e criando espaços. Nosso tempo é o agora, que não é consequentemente uma continuidade do que veio antes.

Sobre o autor

Thiane Avila

Thiane Avila

Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

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Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.