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Um novo ensaio sobre a cegueira

Paulo Tavarez
Escrito por Paulo Tavarez

O Evangelho de Marcos relata a história de um cego que vivia em um vilarejo em Betsaida e que foi curado por Jesus. Até aí, tudo bem, mais um milagre, vida que segue, todas as religiões comentarão esse fato, exaltarão do poder maravilhoso do filho de Deus e assim por diante.

Entretanto, existe algo de curioso nesta passagem, pois Jesus, para curá-lo, exigiu que ele saísse do vilarejo e depois de efetuar a cura, recomendou que não voltasse mais àquele local. Ora, Jesus estaria culpando o meio em que o cego vivia, o vilarejo, por sua deficiência? Não é lógico.

Será que alguma religião se debruçou no sentido oculto e iniciático desta passagem? O que seria esse vilarejo nessa pequena passagem do Evangelho de Marcos?

Um olhar investigativo sobre esses eventos, introduzindo elementos da psicologia moderna, poderia abrir novos horizontes interpretativos. Para a Psicologia, as passagens bíblicas, os mitos, as personagens religiosas e muitos deuses e semideuses dos mais variados panteões, são representações do homem e dos inúmeros componentes que fazem parte da dinâmica que envolve a condição humana.

Jesus, dentro dessa narrativa, poderia ser a representação do Self, o homem cego, a representação do ego e o vilarejo o mundo. A cegueira só poderia ser curada quando o interessado pela luz (ego) saísse do vilarejo (mundo) e se conscientizasse que não deveria voltar. Perceba que a imagem do cego, representando aquele que desconhece a luz, é perfeita e, da mesma forma, a imagem de Jesus representando a força que nos conduz constantemente em direção à iluminação e nos convocando a renunciarmos a influência do meio, surge nesse contexto como uma clara representação do Cristo Pessoal que existe em cada um de nós, uma instância também conhecida como Self, Eu Superior, Essência Divina, etc. O vilarejo, por sua vez, simboliza o mundo, mas o mundo de ilusões que foi muito bem representado pela Matrix em um filme hollywoodiano.

Sad Lonely Woman Walking Alone into the Woods

Sair do vilarejo é simplesmente sair do mundo. Ora, como sair do mundo? Teríamos que tirar a própria vida? De jeito nenhum, isso apenas traria muito mais sofrimento. Para sair do mundo será necessário enfrentá-lo, pois, como nos ensina Fernando Pessoa, através de um de seus mais belos poemas, temos que atravessar o Bojador para ir além da dor. 

Precisamos viver no mundo sem sofrermos tanto a sua influência. Ramakrishna ensina que o barco pode estar na água, mas a água não pode estar no barco.

Podemos, portanto, viver no mundo, mas o mundo não deve viver dentro da gente. Sair do mundo, portanto, é simplesmente viver nele sem permitir que ele viva dentro da gente. O grande problema é que imantamos de importância e significado todas as ocorrências externas, todos os eventos da existência, todos os fenômenos captados pelos sentidos e isso tem sido a razão da nossa cegueira, pois tudo aquilo que a gente dá importância permanece vivo dentro da gente, produzindo a cegueira que nos envolve.

O nosso Self – representação do grande Mestre que existe no interior de cada ser – trabalha incessantemente pelo desenvolvimento da nossa noção de realidade e a ele deverão ser creditadas todas as dificuldades e obstáculos que surgem como provas em nossas vidas, para o nosso desenvolvimento. Ele quer que enfrentemos a própria sombra, iluminando-a, pois não há outra forma de tornar-se um ser iluminado que não seja iluminando a própria sombra. A sombra é um arquétipo que representa a nossa ignorância e podemos atribuir a ela a fonte de todas as nossas mazelas. A ignorância cria crenças e condicionamentos, apenas poderemos nos libertar dessa condição escrava através do conhecimento.

O nosso ego, cego de Betsaida, terá mesmo que abandonar as trevas impostas pela ignorância, sair de uma vida encaixada nas engrenagens de um mundo de ilusões e buscar o silêncio e a solidão de um ambiente fora do vilarejo.

Um mundo verdadeiro nos aguarda, além da metrópole ilusória que nos aprisiona.

Presos dentro de uma plataforma industrial, acorrentados por uma cultura monetarista, jamais entenderemos o real significado da verdadeira visão da realidade. No entanto, o grande consolo, é sabermos que o Nazareno trabalha, incessantemente, pelo nosso resgate.

Sobre o autor

Paulo Tavarez

Paulo Tavarez

Pedagogo, escritor, instrutor de Yoga e criador de uma terapêutica chamada Psicapometria. Tenho artigos publicados em vários sites voltados para o desenvolvimento da Consciência.

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