Muito além de um grande hit que estourou nas paradas de sucesso na voz de Taylor Swift na canção “The Fate of Ophelia”, a “Sina de Ophélia” faz parte dos clássicos do escritor William Shakespeare, que, para quem não sabe, foi um dos gigantes numa época em que quem escrevia tinha grande valor, sendo o mesmo considerado o MAIOR dramaturgo da história da Inglaterra, e acredito que seus escritos fazem jus até hoje à fama, pois quem os lê se encanta com um mundo todo repleto de peculiaridades.
A música em si conta um pouco da história, assim, o contexto de uma narrativa vivida é estabelecido por cima, mas que acabou lacrando nas paradas de sucesso, contudo, a maioria das pessoas não sabe nem do que se trata, tanto que tem versões mais profanas para não usar outra palavra. Pois bem, William Shakespeare tinha um fascínio e modo único de escrever, criticando a sociedade e seus dogmas de forma que os membros que compunham a corte o achassem brilhante, tanto que era aplaudido, como também o seguiam.
Quando escreveu Hamlet, Shakespeare estava envolto num misto de sentimentos de indignação, raiva e frustração. Hamlet é uma das peças, talvez a mais difícil de compreender, por ser multifacetada, ou seja, continha características vastas e bem peculiares da sociedade na época. Assim como nos tempos atuais, nós temos os burburinhos e bafafás dos políticos. Naquela época já existia tal situação, porém, era camuflada em peças teatrais, tão bem escritas que ofendiam sem que ninguém percebesse, além de falar a verdade fazendo os Ignóbeis da corte aplaudirem sua própria ignorância.
Ao narrar um mundo marcado pelas aparências, cria-se hoje a crença na existência de pessoas e famílias perfeitas. Contudo, em épocas passadas, a vida era ainda mais rígida e artificial: um verdadeiro teatro social, regido por normas de comportamento, casamentos arranjados e disputas constantes por poder. Diante desse cenário, frequentemente se questionava se viver sob tal ilusão era, de fato, melhor ou desejável.
Ophélia era filha de Polônio, este, por sua vez, era conselheiro pessoal do Rei, ou seja, era ele quem “induzia por vezes ou quem sabe sempre o que o monarca deveria fazer”. Ophélia tinha um irmão, Laertes. O príncipe Hamlet, por interesse é claro, lança seus encantos à jovem donzela, que fica presa em uma trama, numa cama de gato, a qual por fim, veio a enlouquecê-la, o que culminou em sua morte por afogamento.
Na trama louca dessa magnífica história, o pai de Ophélia é morto pelo próprio Hamlet. Visto que interesses políticos, familiares e sociais eram prioridade na época e acredito que até hoje é assim.
Mas a sina de Ophélia vai além, pois a mulher não tinha voz, ela não tinha escolha, a não ser obedecer ao pai ou ao seu tutor, ou ao próprio marido. Não era permitido à mulher escolher com quem casar, quem amar, se pronunciar, discordar então… nem se fala, a mulher era apenas um objeto de barganha e procriação.
Foram feitas tantas traduções e versões da música, que tem uma melodia muito atraente que prende a atenção, mas não fica na mente das pessoas a mensagem implícita. A voz da mulher, que ainda nos tempos modernos é questionada, muitas vezes, tentada a ser de alguma forma anulada ou silenciada diante de uma sociedade machista. E só para terminar, ainda havia rumores de que Hamlet queria, na verdade, o irmão e não a Ophélia. Imagina na época um escândalo desses na corte?
Mas para quem está curioso sobre a morte de Ophélia, foi algo realmente interessante. Antes de se jogar em um lago (riacho), ela, “louca” como a chamavam, quem sabe tenha encontrado sua lucidez na verdade, seu verdadeiro eu. A jovem distribuía flores aos aldeões, cantarolando canções que aparentemente não tinham sentido nenhum para as pessoas, somente para ela mesma, claro. Mas o fato é justamente este, na trama toda o sentido de tudo deveria ser da Ophélia, que então se mata, dando fim ao sofrimento do amor dela, amar seu irmão e matar seu pai.
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Então saibam, Ophélia não foi qualquer uma não, ela foi mais forte do que qualquer um de nós se vivêssemos naquela época, que era um ninho de víboras venenosas, como a sociedade sempre foi, e talvez ainda seja, claro que aparenta ser de forma mais moderada hoje em dia. Mas quantas mulheres são espancadas, mortas e silenciadas? Só para ter uma noção, no ano de 2024 foram 1.464 registros de feminicídio, isso sem contar as mulheres transexuais que também devem entrar nessa contagem, pois foram mais de 122 mortes.
Ophélia é um grito silencioso de liberdade para a mulher, uma forma da história dizer e questionar quem tem direito de julgar ou dizer qual é o papel de cada indivíduo em sua própria vida, em sua própria história, senão ele mesmo?!
