Autoconhecimento Psicologia

Tão imprevisível quanto o cabelo que cai

Biancha Carvalho
Escrito por Biancha Carvalho
Dedico esse texto a todos que, assim como eu, lidam com a dor e o sofrimento em alguma área da vida. Que a aceitação também possa ser uma maneira de lidar com o que experienciamos.

Acordei “murchinha”. Por que estou assim? Já sei: é dia de lavar os cabelos! Respiro fundo sempre que lembro desse compromisso. É um misto de ansiedade, medo, esperança e angústia. “Como será que vou reagir? Será que vai cair mais ou menos que na última lavagem?”, me pergunto. Tento não pensar nisso à medida que vou vivenciando cada pequeno compromisso do meu dia até chegar o grande momento.

“Chegou a hora” e os minutos vão se arrastando, respiro fundo, fecho os olhos e ligo o chuveiro. Sinto o coração acelerar, tento me acalmar… “Sei que não estou só!” O nó na garganta se desfaz lentamente e meu coração volta ao seu ritmo normal. Xampu … Cabelo… Condicionador… Cabelo… Pente… Cabelo. Perdas, perdas, perdas! O que está escorregando pelo ralo? O que estou tentando segurar? Frustração, dor, lágrimas… Calmaria e, mais uma vez, esperança. Sofrimento? Não mais como antes! “Na próxima lavagem, será melhor.” Se realmente será, não sei. Mas há a possibilidade e assim sigo: uns dias cai mais, outros dias cai menos; cabelo nasce, cabelo cai e assim é a vida.

O modo como me relaciono com meu cabelo me mostra, além de tudo, quão imprevisível é a nossa existência. E isso me faz pensar: que garantia eu tenho de que, ao lavar os cabelos, eles não vão cair? Ok, pelo olhar da ciência há sempre uma explicação para quando cai e quando não cai. Aliás, se tem uma coisa que a ciência tem é uma explicação para tudo. Eu diria mais e me inspiro em Heidegger para dizer isso: a ciência tenta dar contorno a tudo e até que consegue. Só não contorna a existência porque esta é incontornável.

Apesar de saber todos os “porquês” científicos da minha queda (alopecia androgenética e queda por estresse) as respostas que a ciência me dá não são suficientes pra cessar o incômodo diante do imprevisível — “E se hoje cair mais?” — e, consequentemente, a dor da perda — “Como lidar com isso?”

Que a vida é imprevisível todos nós sabemos, mas parece difícil entender que querer não é poder.

Mesmo fazendo tratamento do jeitinho que a dermatologista mandou e seguindo as dicas da nutricionista, os cabelos me escapam. Dor, sofrimento! E, em um dado momento da minha vida, assim como vem, a queda vai embora e depois volta. Então, fico intrigada: “Desisto de tentar entender. Onde estou errando e acertando?”. Culpa, e mais uma vez, sofrimento! De repente, me dou conta de que eu até posso tentar controlar esse “jogo”, mas nunca terei o domínio dele. Nem mesmo a medicina com seus truques infalíveis consegue. E, tal como esse jogo, assim também é a vida: é mistério, pergunta sem resposta, surpresa, imprevisibilidade a cada instante.

Que a vida é imprevisível todos nós sabemos, mas parece difícil entender que querer não é poder. E olha que cresci ouvindo essa frase de minha mãe! E assim seguimos fazendo planos e tentando, a qualquer custo, transformar o querer no poder mesmo quando não nos é uma possibilidade. Então, sofremos por não ter o que queremos, por achar que merecer é suficiente para se ter.

O filósofo dinamarquês Kierkegaard nos convida a pensar na dor e no sofrimento não como sinônimos, mas dor enquanto tristeza, pesar, pena. E sofrimento, ou “dor da dor” — como diz Fogel, meu professor e filósofo —, emergindo desse descompasso entre o que se quer e o que realmente se pode ter. Para ilustrar melhor, Feijoo, outra professora e psicóloga, diz que dor “é aquela pela qual a criança é tomada quando algo a atinge, e a tristeza é infinitamente profunda”. O sofrimento seria quando “o adulto sofre não apenas com a dor, mas com o fato de que vive a dor”. Em outras palavras: a dor é o espinho na carne, e o sofrimento é a dor porque se tem o espinho.

Trazendo para a minha experiência: a dor é a queda de cabelo, o espinho na carne. O sofrimento é viver a dor da queda a cada lavagem, pois não tenho o que tanto quero: o fim da perda dos fios. Somos tomados pelo sofrimento quando não conseguimos aceitar que as coisas se dão do modo como se dão, por acreditarmos que deveria ser diferente pelo simples fato de não merecermos.

É importante destacar que aceitação não é o mesmo que acomodação — sigo cuidando dos meus cachinhos. Contudo, é bem verdade que, em tempos de “Yes, we can!”, acreditamos que podemos (e até devemos) tudo, basta nos esforçarmos para isso. Será mesmo? Há anos, me esforço pra ter um cabelo lindo e…

CALMA! Esse texto não é pra te desanimar, mas também não é um manual que dita “os 5 passos para deixar de sofrer”. Aliás, se alguém souber desse manual, por favor me avise! Sei que ele não existe, pois cada existente é único.

O que posso dizer sobre dor e sofrimento no contexto da queda de cabelo é que houve uma “virada de chave” e a tão recorrente pergunta “por que comigo?” passou a ser “por que não comigo?”. Afinal, se tenho cabelo, sempre haverá a possibilidade de não o ter. Por sinal, esta é uma possibilidade para todos, não é mesmo? Logo, a dor do cabelo que cai é inevitável, mas o sofrimento que se configura na luta desesperadora tentando escapar dessa dor, já não existe, ao menos não com tanta força.

Depois de muito sofrimento, algo se deu — não sei exatamente o quê. Aprendi a conviver com o que não posso mudar e, para a minha surpresa, isso não tem sido um peso. Comecei a compreender a vulnerabilidade de minha existência e seu caráter finito e incontornável — como enfatiza Heidegger. Exatamente! Não sou de ferro e não posso tudo que quero. Isso é frustrante e igualmente libertador. Parei de lutar contra o que não posso controlar e aceitei que, se vida e dor são inseparáveis, não seria diferente nesse contexto.

Carlos Drummond de Andrade diz que: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”.

Comecei a compreender a vulnerabilidade de minha existência e seu caráter finito e incontornável.

Concordo que a dor é inevitável. Kierkegaard vai além e afirma que ela é da ordem da vida. Já a dor da dor (o sofrimento), para o filósofo, seria a revolta contra a dor que o homem originariamente é. Drummond destaca o sofrimento como sendo opcional e me questiono: “Se eu opto por sofrer ou não sofrer, então querer é poder”. Mas, como foi dito acima, acreditamos que vontade e possibilidade nem sempre andam de mãos dadas. Teria Drummond se equivocado? Não! Penso que ele menciona o “opcional” como um sofrimento que pode ser vivenciado de outra maneira que não apenas no modo da lamentação. Sofrimento que é passível de cuidado, ampliando-se assim outras possibilidades de lidar com a dor da dor.

Aceitar a dor e visualizar outros modos de vivenciar o sofrimento não são uma obrigação. Penso que sejam apenas um outro modo de lidar com algo que não podemos mudar, pois como destaca Heidegger: o que nos faz viver também nos faz doer. E vida é isto: é imprevisibilidade, finitude, sopro, possibilidade, mistério, pergunta sem resposta.

E você, o que está escorrendo pelo ralo da vida? O que tem tentado segurar? Lembre-se: a dor do que escorre é inevitável. Quanto ao sofrimento daquilo que tentamos segurar a qualquer custo, para este, é possível existirem outros modos de vivenciar a situação.

Sobre o autor

Biancha Carvalho

Biancha Carvalho

Psicóloga com especialização em psicologia clínica na perspectiva fenomenológico-existencial pelo instituto de Psicologia fenomenológico-existencial do Rio de Janeiro – IFEN. Experiência como psicóloga social em atendimento a crianças, adolescentes em situação de acolhimento institucional (abrigo). Atua na área clínica, em consultório particular, atendimento domiciliar a idosos e como voluntária no Projeto Social Pro-criança cardíaco/RJ.

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