“Após haver arrasado com o meu palácio, não me venha construir uma choupana pensando estar sendo caridosa.” Esses dizeres foram colocados na boca do personagem Heathcliff por Emily Brontë (1818–1848) em “O Morro dos Ventos Uivantes” (Wuthering Heights), de 1847, que recebe uma nova adaptação cinematográfica com estreia prevista para 12 de fevereiro.
Fora do seu contexto original, esses dizeres podem ser acrescentados a uma série de situações, o que não torna surpreendente que vez ou outra eles surjam nas redes sociais como mais uma frase de efeito. E é nesse sentido que, enquanto eu considerava redigir este texto, decidi-me por pensar as palavras do controverso Heathcliff em dois contextos distintos.
Em um contexto macro, “vale” lembrar as palavras ditas pelo Pe. Fábio de Melo em 2020, quando da divulgação de que uma grande empresa de mineração indenizaria em R$ 100 mil as famílias dos cidadãos mortos em tragédia ambiental na cidade de Brumadinho (MG), em janeiro de 2019.
“Um bandido entra na sua casa, rouba tudo o que você tem, mata pessoas da sua família, destrói o seu espaço emocional, memórias, depois ele volta e diz que vai deixar um dinheirinho para você recomeçar a vida. Que bandido caridoso!”
Os dizeres daquele personagem, bem como a bem-vinda ironia do famoso sacerdote diante de uma tragédia que, lamentavelmente, passa ao largo da ficção, podem ser ainda aplicados a um contexto micro. Tragédias menores, mas nem por isso menos destruidoras. Tragédias essas que, matando-nos em doses homeopáticas, se fazem presentes em nosso cotidiano, mesmo que de forma despercebida.
É aquele pai que enche o filho de presentes diante da impossibilidade (ou falta de interesse) de lhe oferecer a atenção necessária à sua formação como ser humano. É aquele chefe desonesto que passa a lhe tratar com voz mansa e a lhe oferecer regalias diante da possibilidade de sofrer um processo por assédio moral. É aquele conhecido que – após ofendê-lo, diminuí-lo e menosprezar as suas questões, reduzindo-o a bem menos que um ser humano – lhe envia mensagens “bonitinhas” pensando estar, dessa forma, reparando todo o mal que lhe foi causado.
É triste, eu sei, mas é fato que as pessoas podem ser assim às vezes. Incapazes de assumir a responsabilidade sobre o que nos fazem. Cruéis ao ponto de se fazerem porta-vozes de filosofias cujos preceitos se recusam veementemente a aplicar quando mais precisamos. Totalmente dispostas a dedicar o seu tempo a nos rebaixar, mas ocupadas demais para fazer qualquer coisa em prol do reestabelecimento de nossa saúde emocional. Incapazes até mesmo de apresentar um mero pedido de desculpas, o que, embora não resolva absolutamente nada, quando muito oferece à pessoa machucada o conforto de saber que o seu algoz ao menos reconhece o mal por ele causado.
As pessoas podem ser assim às vezes… E o que fazer a respeito? Certamente não é se chafurdar na mágoa e tampouco ficar à eterna espera de uma retratação que vá resolver o problema. Em lugar disso, eu prescreveria autorresponsabilizar, que, mais do que uma ação, é uma postura, uma maneira de se colocar diante da vida.
É fato que a autorresponsabilidade não impedirá que lhe lancem pedras e tampouco as desviará de você quando lançadas. Tal postura, porém, tornará menor o seu impacto, pois, antes de ser sugado pelas consequências das ações alheias, você fará dessa pedra parte da matéria-prima necessária à reconstrução do seu palácio. E aqui parece-me válido evocar a sabedoria de Sartre (1905–1980) com uma famigerada frase que, embora não seja de fato de autoria dele, condensa muito bem o pensamento existencialista do filósofo: “Não somos aquilo que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós”.
Ademais, o conceito de autorresponsabilidade passa ainda pela nossa disposição em identificarmos de que forma nos fizemos vulneráveis, dando ao outro a permissão de nos ferir. Só assim, dedicando-nos a tal investigação, é que podemos escolher não mais nos colocarmos nesse lugar. E não se trata de culparmos a nós mesmos, mas, pelo contrário, de assumirmos o protagonismo de nossas vidas, recusando-nos, veementemente, a nos colocarmos nas mãos de quem quer que seja.
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Veja Heathcliff, personagem que abriu esta reflexão. Tomado pela mágoa, ele se afasta fisicamente por três anos, mas jamais abandona emocionalmente o lugar do ferido. Ao retornar, já não busca reconstruir o palácio que lhe foi destruído; dedica-se, antes, a devastar os palácios alheios. Incapaz de elaborar a própria dor, Heathcliff transforma sofrimento em vingança, fazendo de sua história um exemplo trágico do que acontece quando nos recusamos a assumir responsabilidade pelo que fazem conosco. Sua ruína não nasce apenas do que lhe foi tirado, mas do que ele escolhe fazer ou não fazer com essa perda.
Ao contrário de Heathcliff, porém, podemos escolher não perpetuar a ruína. Podemos, mesmo feridos, interromper o ciclo e reconstruir. E isso é autorresponsabilidade: a consciência de que, se porventura depredarem o nosso palácio, caberá a nós reerguê-lo… sozinhos.
