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Autorresponsabilidade: por que ela impacta a sua vida?

Mulher com expressão triste segurando placa com expressão feliz
123RF | Ion Chiosea
Andrea Fray
Escrito por Andrea Fray

Autorresponsabilidade e como ela impacta a sua vida.

O propósito deste texto é apresentar informações sobre autorresponsabilidade propondo reflexões sobre atitudes corriqueiras que reforçam a destituição do próprio poder pessoal e assim possibilitar um reajuste de autoconsciência para que você se livre de comportamentos nocivos e adentre o universo do seu melhor, onde o seu melhor é, neste caso, assumir-se a si próprio e, então, responder ao mundo a partir desta condição.

A consciência sobre autorresponsabilidade é fundamental no desenvolvimento de um indivíduo emocionalmente saudável e também na construção de relações mais harmônicas, sejam estas não só relações com o mundo externo – profissional, afetivo, familiar – como relações com o mundo interno – saúde, cuidados consigo, beleza, autoamor, autovalorização e a lida com fragilidades e potenciais natos.

Então, vamos lá!

Mulher apoiada em janela do carro
Anastasia Shuraeva / Pexels

Partiremos de teorias psicológicas conjugadas a exemplos da vida real para situar a informação, pois não há consciência possível deslocada da realidade passível. É preciso concretizar o que se entende!

Por que não somos autorresponsáveis?

Tendemos a trabalhar a autoconsciência a partir de um mecanismo que chamo de ‘corriqueiro’. Ou seja, o que se passa em nosso universo íntimo vai ao longo do tempo parecendo tão comum e corriqueiro… E é da natureza humana lidar com o corriqueiro de modo automático. Faz parte do funcionamento neural na ancoragem de aprendizados e também como modo de economia de energia… Desse modo, o que acontece na prática é o desligamento da atenção focada e a ‘assimilação’ de tal conteúdo como se já o dominássemos. Neste caso, o ‘TAL’ conteúdo seria o EU EM SI MESMO.

Sim!

Este EU MESMO, rico em potenciais natos e cheio de vontades, claro, também de disfuncionalidades e identificações com valores externos… Mas que passa a ser apercebido TAL qual UMA música de fundo num café.

E é!

Normalmente é assim a condução da vida pelos humanos, com o eu no automático, respondendo aos eventos de modo primário, instintivo até. Dessa forma, passando ou sobrevivendo à vida aprisionado, normalmente a loopings hipnóticos, ou seja, revivendo e alimentando traumas e para enfrentá-los, contando apenas com os recursos apreendidos na primeira infância e adolescência, com os valores morais e com as respostas emocionais antigas dadas aos traumas ou eventos quando em suas origens.

O que acontece é que as impressões traumáticas foram vivenciadas na primeira infância e quando o indivíduo realmente é um tanto limitado em referenciais para conduzir sua percepção de forma efetiva e também é limitado pela própria autoridade.

Quando revivemos os mesmos traumas e os alimentamos na vida adulta, normalmente também revivemos a resposta emocional dada a eles… Sem a clareza de que a criança cresceu e que agora se pode e precisa adquirir NOVOS RECURSOS para evoluir.

Avise sua criança que ela cresceu!

Homem sentado com expressão pensativa de perfil apoiado em pilastra

Mas, então, o que é autorresponsabilidade?

É mais que um conceito, autorresponsabilidade é um estilo de vida, onde você é responsável 100% por tudo que acontece com você.

Responsabilidade, segundo o dicionário da língua portuguesa, significa o dever de se responsabilizar pelo próprio comportamento ou pelas ações de alguém; obrigação. Comportamento da pessoa sensata; sensatez. Natureza ou condição de responsável, que assume suas obrigações.

DESTACA-SE nessa descrição os termos DEVER e OBRIGAÇÃO, duas palavras das quais normalmente a maioria das pessoas querem fugir – e você sabe por quê? Porque estão relacionadas à emoção de culpa e de punição associadas a memórias da primeira infância, onde o indivíduo está recebendo suas lições de adequação moral e social e também internalizando as relações afetivas envolvidas às ordens: incapacidade x capacidade, aprovação x desaprovação, desprezo x acolhimento.

Tenho um exemplo de um caso, muito simples, que exemplifica exatamente:

Uma mãe com seu filho em sessão. O filho, de 7 anos, disse que sentia muito mal de não arrumar a cama dele direito. E a mãe comentou que parte da educação que ela propõe inclui iniciativa e participação nas tarefas da casa. Arrumar o quarto pela manhã é uma delas. Ela disse que começou o ensinando, depois ajudando, depois, deixando com que ele arrumasse do jeito que desse, e aí começaram os ‘desleixos’, segundo ela, e o filho dizia ‘Estou fazendo o meu melhor’… Claro, disse a mãe, “Ás vezes, ele tem um tem comportamento de preguiça e depois de muitas vezes explicar e ajudá-lo no processo, ele ainda parecia demonstrar pouco interesse e eu espero que ele faça como eu disse que tinha de fazer.

Como disse, é um exemplo simples, mas que expõe um mecanismo que poderia reforçar a incapacidade e frustração quanto ao si mesmo, caso a mãe não tivesse se atentado a tal sentimento da criança e a estimulasse a fazer o melhor, sem julgá-la, tachá-la.

Ambos conseguiram resolver esta dinâmica retroalimentativa de frustração, pois a mãe também passou isto na infância, mas de modos mais humilhantes. O resultado foi ótimo! O filho passou a arrumar a cama muito melhor do que se esperava, e a obrigação passou a ser gostosa, ou seja, agora, um reforço da capacidade, um momento prazeroso de conquista do melhor.

Tudo o que o filho queria era a aprovação da mãe e a obrigação o levava a sentimentos ruins, porém ele teria de se guiar pelo referencial da mãe para conseguir aprovação e afetividade e desproveria-se do próprio referencial… assim, obrigação, incapacidade e frustração estariam sempre juntos – seria impossível resolver.

Mãe com filho nos braços com mar ao fundo
Xavier Mouton Photographie / Unsplash

Notamos nesta historinha simples e cotidiana nas famílias uma situação relacionada a dever/obrigação geradoras de sensação de incapacidade e de culpa. Isto tudo tem a ver com autorresponsabilidade.

Voltando ao significado…

Etimologicamente, a palavra responsabilidade vem da palavra RESPONSUS, do particípio do passado de RESPONDERE, ou seja “responder, prometer em troca’’, RE – de volta, para trás, mais SPONDERE ‘’garantir, prometer’’.

Aí fica mais evidente o que coloquei acima, onde a resposta a um evento é uma promessa que garante algo, logo, se você cresce com um senso prejudicado e desviado de resposta, sempre garantirá um sentimento x ao evento que a exige.

Atualmente a responsabilidade é significada por muitos terapeutas como a habilidade em dar respostas a si mesmo. É muito provável que para compensar o senso de obrigação e punição advindos do uso sacrificado culturalmente do conceito, onde responsabilidade está associada a dever e obrigação e punição.

Mas, então, o que é uma habilidade? É uma característica ou particularidade daquele que é hábil; que possui capacidade, destreza, agilidade, vem do latim, habilitatis. Habilitação para…

E por quê?

Vamos lembrar do que cada um de nós advém de uma trajetória específica de assimilações da realidade e então codifica o eu e a sua própria capacidade a partir da educação, da interação com o meio e das respostas que dá a partir desta leitura.

Uma pessoa pode ter ouvido dos pais que perdia tudo…

A outra que era muito ordeira…

A outra, as duas informações, e a partir delas foi criando aspectos de identificação…

Sabe aquele tal ‘’EU SOU ASSIM’?

Ele diz respeito à identidade ou ao ego criado por conta da identificação com uma informação recebida de alguém(ns) do entorno relacional e também fortalecido pelo modo próprio de se sentir o dado/característica diante do evento e diante da afetividade e aprovação X desaprovação com os pais/cuidadores. Assim, é gerada uma resposta, um comportamento, ou seja, uma habilitação para modelar a sua RESPOSTA EMOCIONAL ADAPTATIVA.

Então quando se diz eu sou assim, não quer dizer que a pessoa seja assim, mas que ela está identificada com tal característica, normalmente permitida, habilitada pelo referencial externo ‘VOCÊ É ASSIM’.

O REFERENCIAL EXTERNO É muito IMPORTANTE, É ATÉ O QUE cito como A DIALÉTICA DO SER, PORÉM, NADA SE COMPARA À HABILITAÇÃO DO EU PARA CONSIGO mesmo, LIBERTA DA HABILITAÇÃO EXTERNA, muitas vezes, ignorante e até manipulatória.

Quantos casos de pessoas atendi que vinham trabalhar seus estigmas.

– Sempre me disseram que sou muito egoísta, a pessoa dizia.

Resultado:

Esta pessoa, para provar o contrário, na tentativa de habilitar o não egoísmo, fazia tudo pelos outros, em sacrifício e o pior, nunca era reconhecida por seus feitos… Claro!

Neste caso, a pessoa está refém do referencial externo, buscando no outro sua alforria.

Outro exemplo:

– Eu faço tudo para todo mundo e olha o que acontece…

Já ouviram isto?

É importante, tal qual no exemplo do garoto arrumando sua cama, mergulhar na própria história para reconectar-se à origem do evento, ao momento em que você, sem saber, permitiu dar ao outro o poder sobre você para, então, retomá-lo.

Homem apoiado em janela com luz refletindo pela persiana
Ethan Sykes / Unsplash

Enquanto crianças, eram os cuidadores os donos do cedro, mas na fase adulta é preciso buscar pelo próprio! Por isto, em processos terapêuticos é preciso revisitar a infância e reordenar o processo, reprogramando neuralmente a psique.

Por isto, é tão importante desestigmatizar o EU SOU ASSIM. E se conforta, é comprovada pela neurociência a habilidade de refazimento da eletroquímica sináptica, ou seja, quanto mais se treina, maior é a capacidade de cognição, portanto, maior será a neuroplasticidade. O que venho dizer é: a capacidade é modelada, passível de reprogramar-se. Não existe o:

Eu sou assim e pronto, não vou mudar!

A capacidade tem relação com aprendizagem e, neste caso, estamos falando do sistema funcional cerebral de aprendizagem, mas aqui focado no aprender sobre si mesmo. Esse si mesmo é resultante do funcionamento de seu sistema orgânico, de seu histórico social e cultural, das interações e relações, das oportunidades, do temperamento e da alma/espírito/natureza única.

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Para que você seja mais habilidoso em dar respostas, ou seja, ser autorresponsável, é preciso conhecer e revisitar a sua história, compreender alguns pontos cruciais que motivam determinadas respostas, muitas vezes disfuncionais, mas que existem para defender a própria integridade. É preciso conhecer sua epigenética, a sua biologia, é preciso conhecer a sua essência…

Temos ainda uma educação emocional falha. Hoje temos muito acesso a informações de autoconhecimento, mas o trabalho real, profundo, ainda é mínimo. Muitos dos conteúdos de autoconhecimento que se ‘vendem’ podem iludir a mente no trabalho do autoprocesso e as aplicações destes conteúdos não estarem afim com a natureza do indivíduo, por isto terapia é tão importante, pois considera você, nas suas assimilações, na sua unicidade.

Sobre o autor

Andrea Fray

Andrea Fray

Terapeuta integrativa sistêmica, pós-graduada em psicologia cognitiva e comportamental com ênfase em terapia familiar e de casal, master em hipnose conversacional (Change Work) e coach - life, leader, professional (turn point).

Possui também especialização em meditações ativas, gestão de pessoas e formação em processos gerenciais.

Idealizadora do método CCD (Current Context Diagnosis) de terapia breve.

Pesquisadora, escreveu artigo científico, abordando a autenticidade como método na clínica psicológica.

Atua desde 2005 realizando atendimentos individuais e para grupos com crianças, adolescentes e adultos em espaços terapêuticos, escolas, CAPSIS, promovendo projetos próprios na área de desenvolvimento humano, atendendo demandas de forma exclusiva, criando propostas e processos totalmente particulares.

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