Quando falamos em justiça social, é comum pensarmos em leis, políticas públicas e “nas pessoas que comandam”, como se “os outros” fossem seres impelidos de deveres e poderes que não nos cabem.
Porém, justiça social começa a se formar em nós, na consciência, nas relações cotidianas, de trabalho, de troca e de convivência.
A psicologia nos ajuda a entender que desigualdades não são apenas econômicas. Elas também são emocionais, simbólicas e relacionais. Estão presentes quando alguém não pode falar, quando o esforço não é reconhecido, quando o poder circula sempre nas mesmas mãos ou quando a colaboração vira discurso, mas não prática.
Modelos de economia colaborativa surgiram como resposta a essas distorções com a proposta de compartilhar recursos, saberes, oportunidades e responsabilidades. Mas, na prática, colaborar exige muito mais do que boa intenção. Exige ética relacional.
Existe uma fantasia perigosa de que comunidade é sinônimo de harmonia constante. Como se trabalhar junto, viver junto ou caminhar em grupo significasse pensar igual, sentir igual e querer as mesmas coisas. Essa ideia, além de irreal, é psicologicamente adoecedora.
A ética nas relações começa no reconhecimento do outro como sujeito, não como recurso. Começa na escuta real, na divisão justa de tarefas, na transparência dos acordos e na possibilidade de revisar estruturas que não funcionam mais.
Psicologicamente, justiça é aquilo que organiza, dá previsibilidade e reduz o medo.
A psicologia nos mostra que ambientes coletivos adoecem quando não há espaço para a fala legítima. Quando as pessoas sentem que precisam se adaptar o tempo todo, esconder conflitos ou engolir incômodos para continuar pertencendo… É aí que o corpo responde. Ansiedade, esgotamento e desmotivação não surgem do nada — são sinais de relações que perderam a escuta.
Na prática, fazer justiça social exige algo que raramente aprendemos: comunicação emocional. Saber nomear desconfortos, alinhar expectativas, revisar acordos e sustentar frustrações sem romper vínculos. Pois, quando isso não acontece, surgem ressentimentos silenciosos, competição velada e afastamentos que parecem “naturais”, mas são fruto de falhas de diálogo.
Pessoas têm talentos distintos, histórias sociais diferentes e pontos de partida desiguais. Ignorar isso não é neutralidade, é reforço de desigualdade. Talvez justiça social seja isso: construir relações mais honestas, estruturas mais horizontais e trocas mais cuidadosas. Não como ideal distante, mas como prática diária.
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Porque nenhuma transformação social se sustenta se as pessoas que a constroem estiverem adoecendo no processo.
Justiça social não é só sobre estrutura: é, além de tudo, sobre sua postura! É entender o próprio papel e agir com consciência, sabendo a hora de falar ou calar, de se redimir ou se responsabilizar, de escutar ou posicionar e até mesmo o momento de se retirar.
