Como já dizia Nietzsche: “Seja quem você nasceu para ser”.
Hoje estou analisando com a alma essa frase. O que eu nasci para ser? Quais sementes já vieram implantadas na minha alma e que, por descuido ou medo, deixei se perderem? Quais delas eu cultivei e, assim, consegui me aproximar, por intermédio delas, de minha melhor versão?
Falta pouco para que eu complete seis décadas. Ufa! Quanta história há neste livro pessoal, escrito a sentimentos tantos, no meio de sensações indescritíveis. Quantos passos deram estes meus pés que por tantas vezes humilhei por não terem a aparência que, em uma análise, deveriam ser o modelo de pés humanos…

Sim, desde pequena passei por situações desafiadoras por causa do formato dos meus pés. Pode rir. É verdade. Eu amava escondê-los em sapatos fechados e apertados, pois assim evitaria os olhares furtivos de quem tinha pés lindos e ficavam analisando a feiura dos meus… Uma tia, quando eu tinha uns 5 anos, me disse: “Se cortasse um dedo, talvez melhorasse…” Um coleguinha por quem eu me apaixonei na infância disse: “Nossa! Adorei seu vestido, mas seus pés são muito feios.” Já adulta, um namorado comparou meus pés aos de um macaco. Mas o que isso tem a ver com Nietzsche?
Então… O problema é que, hoje em dia, eu ando de sandálias e, se preciso for, descalça. Meus pés não ficaram bonitos com o tempo; na verdade, pioraram… Hoje tenho joanetes… Mas como eu posso ser quem eu nasci para ser se sequer aceito esse pedaço de mim que me carregou por 60 anos? Ainda odeio o formato deles. Ainda não gosto quando “botam reparo”… Mas já compreendi que não adianta esconder o que se é. Esse pé não sou eu. Mas faz parte de quem sou nesta vida.
Mas, deixando esse pensamento de pés e sapatos de lado, como seria bom saber com certeza se o que vim para ser está sendo… ou pelo menos se aproximando. Seria demasiado frustrante perceber que o que sou é apenas a construção do medo de desagradar, o receio de não ser aceita, a percepção da dor corroendo os pedaços de mim e fragmentando-me ainda mais…
Você também pode gostar
Seja quem você nasceu para ser… Mas sem mapa, sem rota, sem pistas. Apenas seja.
Oxalá a essência de mim saiba intuir e peregrinar em si mesma e, dessa forma, acertar o caminho de volta, o caminho de casa, o aconchego de se reconhecer em si, apenas sendo.
