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A época do trigo

Mãos enfarinhadas segurando e sovando uma massa sobre uma superfície de madeira polvilhada com farinha.
Alle12 / Getty Images Signature / Canva
Escrito por Nina Veiga

Existe um tempo do ano em que o alimento ganha outro significado… E se cozinhar fosse mais do que nutrir o corpo? O que se perde quando deixamos de plantar, amassar e partilhar o pão? Há algo profundo nesse gesto simples. Quer descobrir? Continue a leitura.

Durante uma determinada época do ano, em muitas tradições e religiões, é tempo de purificação, é o que acontece na Quaresma, Ramadã, Lórògun e Yom Kippur. Quando olhados sem preconceitos e com interesse genuíno, crenças populares e dogmas religiosos quase sempre nos mostram uma sabedoria atávica que podemos observar e aproveitar para nos fortalecer. Assim, durante esses períodos, podemos aproveitar para refletir sobre a alimentação. Podemos aproveitar o ensejo para avaliar nossa relação com esta atividade vital para o ser humano, que a cada dia mais se torna desprovida de integridade e afetividade.

Afinal, plantar o trigo, debulhar o grão e amassar o pão não são apenas letras de música. São gestos arquetípicos, que nos ajudam a manter viva a nossa condição humana, unindo-nos à memória coletiva e fortificando nossa vida moral. São gestos que também alimentam a alma. E o mais importante: ao prepararmos o alimento ou cuidarmos de uma pequena horta, estamos permitindo que nossas crianças vivenciem ações permeadas de significado. Mesmo as mais pequeninas conseguem abarcar o conteúdo ético implícito no cozinhar.

Um garoto pequeno caminha em uma plantação de trigo. Ele olha para baixo e levanta os braços.
Jessica Ticozzelli / Pexels / Canva

Muitas famílias, na correria do dia a dia, estão deixando de cozinhar em casa. Fazer pão, então, só muito raramente. É uma pena, pois o principal alimento do ser humano não vem do teor calórico ou proteico de uma refeição, mas da vibração afetiva que a família atribui ao preparo do alimento. Ao presenciar alguém de sua família fazendo a comida, com interesse, cuidando amorosamente de cada detalhe, a criança pode vislumbrar o verdadeiro significado da ação humana na Terra.

Num período como este, que nas escolas Waldorf chamamos de “Época do trigo”, podemos fazer renascer em nós um sentimento divino em relação à alimentação. Sentimento muitas vezes exemplificado nas tradições religiosas, quando se parte o pão para oferecê-lo como alimento não só para o corpo, mas para o espírito.

Sobre o autor

Nina Veiga

A artemanualista e ativista delicada Nina Veiga é doutora em educação, escritora, conferencista. Sua pesquisa habita o território da casa e suas artes, na perspectiva da antroposofia da imanência. É idealizadora e coordenadora do coletivo Ativismo Delicado e das pós-graduações: Artes-Manuais para Educação, Artes-Manuais para Terapias e Artes-Manuais para o Brincar. Desenvolve trabalhos de formação de artífices e escritores. Suas oficinas associam o saber teórico-conceitual às artes-manuais como modo de existir e à escrita como produção de si e do mundo.

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