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Criança não trabalha: infância é tempo de brincar

Silhueta de crianças pulando e brincando ao ar livre durante o pôr do sol.
Zurijeta / Canva

Quando foi que a infância deixou de ser sinônimo de brincadeira? Entre memórias, reflexões e verdades que ainda precisam ser ditas, este texto resgata o valor do brincar e da proteção infantil. Continue lendo e reflita sobre o futuro das crianças.

“Lápis, caderno, chiclete, pião
Sol, bicicleta, skate, calção
Esconderijo, avião, correria, tambor, gritaria, jardim, confusão

Bola, pelúcia, merenda, crayon
Banho de rio, banho de mar, pula-cela, bombom
Tanque de areia, gnomo, sereia, pirata, baleia, manteiga no pão

Giz, merthiolate, band-aid, sabão
Tênis, cadarço, almofada, colchão
Quebra-cabeça, boneca, peteca, botão, pega-pega, papel, papelão

Criança não trabalha, criança dá trabalho
Criança não trabalha

Lápis, caderno, chiclete, pião
Sol, bicicleta, skate, calção
Esconderijo, avião, correria, tambor, gritaria, jardim, confusão

Bola, pelúcia, merenda, crayon
Banho de rio, banho de mar, pula-cela, bombom
Tanque de areia, gnomo, sereia, pirata, baleia, manteiga no pão

Criança não trabalha, criança dá trabalho
Criança não trabalha”

(Palavra Cantada)

O mês de maio se inicia com uma data comemorativa muito importante: o Dia Mundial do Trabalho e a necessidade de valorização e respeito àqueles que dedicam seu tempo e qualidades para mover o planeta. “Toda ocupação útil é trabalho”, explica a professora e atriz Danielle Quintana. Essa definição consta em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, uma das obras básicas da Doutrina Espírita, onde também está explanado que trabalho é uma lei da natureza, uma necessidade. É inegável que ter um ofício e ser produtivo dignifica e enobrece a nós, adultos. Contudo, ao adentrarmos em junho, o mês seguinte, celebraremos o Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, comemorado no dia 12.

Crianças brincam ao ar livre correndo com pneus em uma área rural ensolarada.
InfonesiaNatureID / Pixabay / Canva

Como bem pontuou o grupo musical infantil Palavra Cantada, “criança dá trabalho”, em vez de ter que trabalhar. O “dar trabalho” significa que custa bastante ao adulto educar, alegrar, mediar conflitos, garantir a segurança emocional e a integridade física de nossos pequenos. Como guardiões das crianças, seja como responsáveis familiares ou educadores, temos que ter em mente que a infância é um território rico e passageiro, do qual somos os zeladores e onde o brincar se torna a maior obrigação.

Philippe Ariès, historiador francês, versa sobre o conceito de infância ser relativamente recente (a descoberta da infância se iniciou no século XVIII) em seu livro “História Social da Criança e da Família”, leitura obrigatória aos estudantes de Pedagogia, publicado originalmente em 1960. Antigamente, a criança “se misturava aos adultos”, ou seja, era tratada com dureza e sem a afetividade e cuidado dos dias de hoje, de modo que a preservação da vida da criança estava intimamente ligada à necessidade de força de trabalho e continuidade dos serviços diários – a ajuda mútua cotidiana que os membros prestavam nas relações familiares. A pesquisadora Lana Lage da Gama Lima, da Universidade Federal Fluminense, analisou a obra de Ariès e menciona que ele realizou uma contribuição essencial ao esmiuçar nuances dantes não estudadas sobre a infância, desde o aprofundamento quanto às crianças serem “adultos miniaturizados” na Idade Média até o estudo de que a sociedade evoluiu com a modernidade e as duas instituições, família e escola, passaram a dar à infância a importância e a dignidade que hoje preconizamos.

No Brasil, a Constituição Federal de 1988 garantiu a proibição do trabalho a menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz (a partir dos 14 anos). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por meio da Lei n.º 8.069/1990, reforça que o trabalho infantil é uma violação de direitos fundamentais e estabelece diretrizes rígidas para a profissionalização e proteção do adolescente. Ainda assim, continuamos a presenciar situações em que crianças estão trabalhando em vez de estudar ou brincar. Por mais escassos que sejam os recursos materiais que levem os cuidadores a solicitar auxílio de crianças da família no trabalho informal, precisamos ter em mente que fomentar esse costume, o de aprovar que crianças trabalhem, não é correto. A infância é praticamente a única etapa do nosso desenvolvimento em que é consentido (e incentivado!) o livre ou dirigido brincar. Quando adultos, embora seja possível e muito saudável, não nos permitimos mais dedicar tempo às brincadeiras e jogos que vivíamos quando crianças, pela obviedade dos compromissos e atribulações da vida adulta – brincar deixa de ser uma necessidade e passa a se tornar uma eventualidade. Já para as crianças, a brincadeira não é estritamente entretenimento, mas a forma mais efetiva de aprendizagem. Tudo na infância é lúdico: cada movimento que a criança realiza, o faz brincando (e aprendendo). Cantarolar, saltar, jogar, dançar, girar, escalar, coletar pedras e gravetos, desenhar, ler, utilizar a imaginação para criar jogos simbólicos, todas as práticas comuns às crianças são uma maneira de estar brincando e se desenvolvendo. E quanto tempo estamos dedicando a brincar com nossos filhos? Estas memórias, a dos pais que brincaram com eles, as crianças levarão para a vida adulta, certamente.

Assim, neste 12 de junho, lembraremos de dizer não ao trabalho infantil e reforçaremos o nosso compromisso com a máxima “o ofício da criança é brincar”. Vamos garantir às crianças quintais, praças, árvores, bolas, mãos sujas de tinta e roupas sujas de terra e areia. Porque é brincando que a criança aprende, imagina, cria vínculos, descobre o mundo e constrói as memórias que permanecerão consigo pela vida inteira.

Por Caroline Gonçalves Chaves, escritora e professora da Educação Infantil da rede municipal de Porto Alegre – RS.

Sobre o autor

Caroline Gonçalves Chaves

Caroline G. Chaves é licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e possui especialização em Psicopedagogia e Tecnologias da Informação e Comunicação - TICs (UFRGS) e em Educação Infantil: Perspectivas Contemporâneas (Unioeste-PR). Ademais, é graduanda em Licenciatura em Letras-Língua Inglesa (UFRGS) e professora municipal da Educação Infantil de Porto Alegre-RS.
Caroline também é escritora de livros infantis e infantojuvenis, tendo lançado "Dorminhoca" (2019) e "Inverno, Verão e Livros - A História de Martina e Miguel" (2023).

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