Há uma citação de um mestre que sempre me acompanha: “A felicidade é como a água em um recipiente: se a puxamos, ela escapa; mas se a empurramos, ela retorna com força.” Talvez seja essa a metáfora mais sincera sobre o que significa viver em comunidade, amar o outro e cultivar gestos que transformam não apenas a vida alheia, mas a nossa própria existência.
Costumamos acreditar que ser feliz é uma busca individual, quase uma corrida silenciosa em direção ao que desejamos alcançar. Só que, quando corremos sozinhos, a felicidade se comporta exatamente como a água que tentamos segurar com as mãos: escorre, evapora, foge pelos dedos.
Ela não se deixa capturar de forma egoísta. A felicidade não aceita gaiola.
Mas quando empurramos essa água — quando a movimentamos em direção ao outro, quando estendemos as mãos para amparar, quando acolhemos, quando damos o que temos de mais simples e verdadeiro — ela volta. E volta com força. Volta em forma de gratidão, de sorriso espontâneo, de abraço sincero, de uma paz que não se compra e que ninguém tira.
Felicidade é reflexo.
É retorno.
É consequência.
Vivemos tempos em que muitas pessoas se sentem sozinhas, oprimidas, sobrecarregadas pela rotina, pelos medos e pelas expectativas. Talvez seja exatamente por isso que precisamos resgatar essa ideia tão antiga e tão sábia: a felicidade não existe em isolamento. Ela nasce na relação, cresce no encontro, floresce quando olhamos para o lado e decidimos fazer da vida do outro um lugar um pouco mais leve.
Quando repartimos o que sabemos, aprendemos.
Quando oferecemos o que temos, recebemos.
Quando nos doamos, nos reencontramos.
A cultura popular — campo onde deposito meu coração e minha missão — é prova viva disso. Nenhuma dança acontece sozinha. Nenhuma tradição sobrevive sem partilha. A catira, por exemplo, só faz sentido quando os pés se encontram, quando as palmas se somam, quando os corpos dialogam para criar um ritmo coletivo. É uma dança que nos lembra, todos os dias, que só existe beleza quando existe troca.
E talvez a vida seja exatamente isso: uma grande coreografia, onde os passos só ganham força quando estão sincronizados com os passos de alguém.
Felicidade não é um destino para se chegar sozinho.
É um caminho feito de mãos dadas.
E, no fim de tudo, talvez sejamos lembrados não pelo que conquistamos para nós mesmos, mas pelo que ajudamos a construir no mundo.
Você também pode gostar
Pelo sorriso que provocamos.
Pelo colo que oferecemos.
Pela esperança que plantamos.
A água retorna.
Sempre retorna.
Basta empurrá-la na direção certa: para o outro.
Porque, para sermos felizes, precisamos — inevitavelmente — tornar felizes os outros.
