Convivendo

A observação do mundo através de olhos e ouvidos mais atentos

Um dia desses, revi uma entrevista da Dr.ª Conceição Evaristo, e me tocou muito a afirmação de necessidade de escutar, de observar, de compreender o mundo, as pessoas, o que está ao redor.

Estando já no segundo cinquentenário da vida, busquei novas maneiras de praticar o que ela apontou.

Às vezes, eu me vejo tão ensimesmada…

As coisas passam… às vezes, perdi-as… às vezes, olhava, mas não as via…

São sons que ouvia, mas não escutava…

Palavras que digitava, mas não as escrevia…

A decisão de prestar mais atenção às coisas que me cercam foi desencadeada pela fala da ilustre acadêmica, que aprendeu escutando a sua mãe, o ambiente onde estava inserida, os alunos, os amigos, palavras e expressões orais e corporais – sim, corporais que são escutáveis – e que foram traduzidas em letras e escritos.

Quando ela colocou em seu poema “Vozes-mulheres”, a possibilidade de escutar vozes interrompidas pelo domínio e pelo sofrimento:

A voz de minha filha
recolhe todas nossas as vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

(Evaristo, 2017)

Então decidi escutar o som do mar, cada vez que suas espumas se formam ao tocar a areia. Atentei-me às vozes humanas, quando conversam alegremente em uma esquina, ao telefone, em uma festa… Percebi a energia emanada pelas crianças correndo, brincando, rindo, gritando, em uma euforia que vai diminuindo e se envergonhando à medida que os anos se somam…

Mulher na beira do mar durante pôr do sol.
Julia Volk / Pexels

Escutei também o silêncio da noite, que, em uma região metropolitana, não traz a possibilidade de ser classificada como silenciosa… Os carros e motos emitem os sons de seus motores; as pessoas elevam os tons de suas vozes para que se permitam escutar… O guarda noturno aciona a sua sirene, para avisar que está atento… Gatos no cio, cães latem. Portões rangem ao serem abertos ou fechados. Os passos da chegada nas escadas e corredores. As folhas e galhos das árvores agitados pelo vento mais fresco da madrugada. Alguém que ronca fortemente, adormecido após o cansaço de um dia de trabalho. O falatório e as gargalhadas dos amigos que retornam de uma festa. Ciclistas que se reúnem para aproveitar que há menos movimento nas ruas e pedalar em grupo; o som das pedaladas e das trocas de marchas de suas magrelas de alumínio.

E cedo, no início do dia, mal o Sol começa a espalhar toda a sua luminosidade, são os pássaros que anunciam uma nova jornada. O transporte coletivo já está pronto para cumprir a sua missão, espalhando a fumaça, a cada vez menos poluente (espero eu). A conversa dos passageiros no ponto, enquanto aguardam o demorado ônibus, que nunca chega.

As xícaras, talheres e panelas que servem o café da manhã, que, nos tempos atuais, têm se tornado raros, ou ralos, ou fracos na mesa de muitos, que sofrem com as crises, que estão castigando a humanidade. O cheiro do pão quentinho saído do forno elétrico. Acho que não existem mais fornos à lenha na metrópole. Tudo é elétrico: o forno, o carro, o telefone, até a bomba d’água da companhia de saneamento. Ah! O pão quentinho… aquele que antes era de trigo ou de fécula, agora traz outras versões: de tapioca, de fermentação natural, sem glúten, multigrãos, coloridos, veganos, e outros que a imaginação humana for capaz de desenvolver. O café com leite também mudou, conservando o seu cheiro atraente. O leite, antes de vaca ou cabra, ganhou versões de plantas, sementes ou frutas secas, sendo extraído de arroz, aveia, amêndoas, coco (ops! Este não é novidade) etc. O café é comum, expresso, descafeinado, aromatizado… O preço acompanha a variedade; os bolsos, não!

Bem nos faz, também, escutar a voz gestual. Uma boa recepção em qualquer lugar, aonde se chega, traz um conforto, uma sensação de acolhimento. O sorriso de boas-vindas produz alívio e felicidade, o afeto espontâneo que traz bem-estar. O serviço bem executado. O olhar de cumplicidade. Um convite para se sentar à mesa. Uma xícara de chá ou uma taça de vinho. Perceber que o outro recepciona despretensiosa e prazerosamente. Faz até o impossível para que o outro se sinta aconchegado. Gestos que ainda encontramos em muitos cantos deste planeta.

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Há tempos, os vizinhos já não se reúnem como antigamente, na porta de casa com suas cadeiras, mas sempre dá para bater papo por cima do muro, pelas sacadas ou em suas janelas. A escuta mais praticada do século XXI se dá pelo mundo virtual. As trocas de mensagens pelos grupos via internet parecem ser menos invasivas, porque as pessoas leem e respondem quando querem, ou se quiserem, no horário que julgarem mais adequado para a vida atribulada e surda que levam. Muitas vezes, a escuta é surda, quando todos falam e ninguém presta atenção, pois só querem desabafar, falar de seus problemas, sem respostas solucionadoras por diversas vezes. A vida virtual vivida no celular. Vida de ninguém, vida de alguém, vida coletiva, vida publicada, vida compartilhada, vida invadida.

Tem outra escuta que quero sublinhar importância: a do próprio corpo. Aquela que o ser humano ora deixa sair, ora faz sufocar. A voz do contentamento com sucessos diários. A voz da dor física, do martírio mental, do tormento psicológico.

Do sucesso com a forma física, dos índices laboratoriais, da reconstrução dental, do novo penteado. A voz da alegria com as conquistas profissionais e intelectuais, as mais singelas possíveis. Da casa limpa e arrumada. Da roupa cheirosa. Do alimento bem preparado. Do passeio em família. Da natureza exuberante. Do esporte revigorante. Da comemoração. Do autocuidado. Do pertencimento e da memória coletiva. Do colo de mãe.

Mulher negra balançando os cabelos em bosque.
Gantas Vaičiulėnas / Pexels

Da dor da perda. Da enfermidade. Do medo de sair à noite. Do reconhecimento facial e da falsa condenação. Da autossabotagem. Da queda em vícios. Da insanidade. Do culto à estética deturpada e deformada. Do hacker e da LGPD*. Da falta de qualidade adequada de vida. Do envelhecimento solitário e desassistido. Dos maus-tratos cotidianos. Da falta de autoidentificação. Do abandono e esquecimento. Da invisibilização.

A escuta é privilégio que se aprende. Sempre há tempo de ressignificar o olhar atento.

Parar, abrir-se para o mundo, sentir-se pertencente ao planeta, misturar-se a tudo e a todos. Ato que vale a pena tentar e praticar.

Sobre o autor

Márcia Leite

Graduada em Farmácia e atualmente estudante da área de Humanas, mostro interesse em diversos temas. Incomodada com questões sociais e que mexem com a convivência e a saúde das pessoas.