Convivendo

Algema

Andrea Ralize
Escrito por Andrea Ralize
E então, a loucura tomou corpo e alma e se fez presente entre nós…

Qual mágica, na tentativa de realizar todos os sonhos da princesa, um viajante, atormentado pela dor, iniciou nova farsa. A farsa da conquista.

A princesa, qual flor desavisada, colocou-se inteira nas mãos do viajante, sem restrições, sem segredos, sem nenhum senão.

O encontro foi mágico e colorido. Houve descobertas caríssimas e a explosão de sentimentos há tanto esperada realizou-se sob a luz de um luar, de um céu, de um universo estrelado.

Com o passar dos dias, além da alegria do prazer, houve o início de uma armadilha sutil. O viajante, algema da princesa, na tentativa de fugir de si mesmo, aprisionou, pouco a pouco, a desejosa amante a seu lado. Angústia e prazer misturavam-se. Músicas sublimes embalavam ambos os momentos: o de amargura e o de êxtase.

Lábios de algodão misturados à falta de pudor bem-vinda transformaram a princesa em uma mulher. No entanto, lá no fundo da alma, ela intuía que suas escolhas trariam dor… Imensa dor que advém da farsa necessária do amor romântico.

E, assim, ambos seguiram… Amaram-se e magoaram-se, mas tudo era arte, tudo jorrava talento, os olhares, os toques, os pensamentos, o ciúme, o despudor, a entrega. Obra de arte encenada em cores, em meio a um ninho preparado a dedo pelo ator.

A mulher ficava mais forte… A mulher ficava mais sozinha.

O viajante ficava mais tentado a entregar-se… O viajante cada vez atormentava-se mais… E corria, corria como louco em direção ao destino desconhecido, pois o comum não alimentava mais. Corria como louco em direção ao outro lado da felicidade. E a felicidade corria atrás de sua loucura tensa, desbravadora e mortal.

Até que não houve mais espaço para a dor. Ela era tamanha, que o prazer (ainda ali) sufocou-se em meio às lágrimas de ambos. E a música de violinos transformou-se em soluços desferidos por gargantas magoadas.

Tatuados um no outro, eternamente algemados pela experiência do reencontro, se afastaram.

Mas o amor existiu. Louco. Único. Inimaginável. Inatingível. Sutil. Devastador. Existiu um dia, tendo como testemunhas os anjos, os sonhos a desvendar a união do tormento e da inocência, da segurança e da mentira, da esperança e do impossível, da sanidade e da loucura.

Os nomes misturavam-se em um círculo perfeitamente misterioso, como se partes iguais, porém separadas fossem… Ciclicamente, salivas misturavam-se, juras, promessas, mentiras novamente… E a inútil insistência em acreditar.

Não houve adeus. Foi de repente. Nem mesmo um último olhar.

E o céu escureceu.

Houve silêncio. Perdeu-se a miragem.

Depois de um eterno segundo, a princesa acordou menos pura, e o viajante, perdido no horizonte, quem sabe se sofre mais?

É a vida que continua…

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Sobre o autor

Andrea Ralize

Andrea Ralize

Escorpiana, professora de filosofia, revisora de textos, mãe de três seres de luz, praticante de yoga, estudante de Vedanta e, nas horas vagas, escritora de fragmentos da vida.

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