Autoconhecimento Educação

A sua caridade não é tão legal assim

Desenho de mão pessoa colocando uma moeda em uma caixa de doações.
Rafael Mansur
Escrito por Rafael Mansur

Em todo santo dia, a gente crucifica Jesus… É na risada que a gente dá da travesti, é no escárnio que a gente tem de política assistencial, é no olho que a gente vira para o moleque malabarista do semáforo. Exceto em dezembro, em dezembro a gente fica caridoso, do bem, a gente ama o próximo como a nós mesmos. O resto da ceia a gente doa para a empregada e comenta: “Ela ficou feliz até…”. Em dezembro, a gente leva os filhos para entregar refrigerante e boneca para as meninas pobres do abrigo e depois fala que “é para aprender a valorizar a vida.” Em dezembro, a gente se esforça para ficar tão bom, que mostramos o nosso pior lado: o caridoso seletivo.

Silhueta de uma criança dando uma moeda para um homem que esta agachado, ambos embaixo de um túnel

Há quem ame fazer caridade, e realmente é ótimo que ela exista, o que não pode ser feito é esticar o braço em dezembro “porque o espírito natalino e a paz de Jesus Cristo alcança o nosso âmago” e depois virar a cara para o morador de rua dizendo que dinheiro para ele acaba virando cachaça.

Nosso lanchinho diário é a hipocrisia, quando nos convém, fazemos da criança pobre e do velho desdentado o nosso palquinho de gente caridosa, doamos duas cestas básicas, abraçamos a criança, tiramos foto dando gargalhada com o velho e saímos por aí mostrando para todo o mundo o bem que fizemos.

Já quando não nos importa, a gente faz cara ruim para o mendigo cheirando a cachaça, atravessamos a rua se a criança preta está do mesmo lado, resmungamos do governo falando que é um absurdo ajudar os outros: “Ensina a pescar, mas não dá o peixe!”.

Sabe a criança que você abraçou, deu um brinquedo e um panetone, tirou foto, postou no Instagram e contou a história deste momento com os olhos cheios de lágrimas para a sua vizinha? Há grandes chances dessa criança sentir fome no mês que vem, mas não vai rolar cesta, nem panetone, nem brinquedo…

Fila de crianças carentes tristes e cabisbaixas, com a primeira criança da fila recebendo uma laranja da mão de um adulto.

É janeiro. A gente só é solidário no Natal, talvez na Páscoa e, se sobrar dinheiro e paciência, no Dia das Crianças.
Ou façamos da caridade um estado de vida constante, que começa na desconstrução dos preconceitos diários, continua nos sorrisos que a gente doa a quem precisa e termina na busca e na garantia do acesso geral à qualidade de vida, ou admitimos de uma vez que a gente gosta mesmo é de se sentir por cima, que a gente doa para mostrar que somos melhores, mas que nunca a gente dá condição para fazer um pobre chegar lá.

Que a caridade se transforme em políticas públicas, contínuas e bem aceitas pela sociedade. Do contrário, nada mais é do que um momento para se sentir superior.


Você também pode gostar de outros artigos do autor: Um ano nunca é ruim, as pessoas que são

Sobre o autor

Rafael Mansur

Rafael Mansur

Rafael Mansur é Pedagogo e Gestor Educacional. É filho, neto, e aspirante a pai. Acredita que apenas escutando e estudando às crianças será possível construir uma sociedade feliz.

Contatos:

E-mail: [email protected]
Twitter: @rafamansur
Facebook: Rafael Mansur
Skype: rafa.mansur4
Instagram: @m4nsur
Snapchat: rafa.mansur