Autoconhecimento Comportamento

Ainda sobre a Morte…

Mulher deitada na cama em luto com porta-retrato
Juliana Meyer Luzio
Escrito por Juliana Meyer Luzio


Curiosamente tenho percebido que a morte tem sido um tema recorrente em meu dia a dia, seja na clínica com os pacientes ou em conversas corriqueiras com amigos e/ou colegas nos encontros triviais da vida. Talvez porque eu tenha aberto uma porta para ela ao escrever meu último texto “A Morte e o Morrer”, ou talvez seja simplesmente porque ela é tão natural como o acordar todas as manhãs.

Fato é que falamos pouco ou quase nada sobre a morte real do corpo. No texto acima citado escrevi e levantei questões sobre as muitas mortes simbólicas que temos nas várias fases da vida, mas aqui quero refletir sobre essa morte que nos leva literalmente embora. Essa morte que nos priva da presença física de quem amamos, que pontua a finitude de nosso corpo físico e que dói, dói muito.

Homem sentado no sofá com mão no rosto

A primeira questão é: por que não falamos sobre morte? Por que esse assunto nos incomoda a ponto de preferirmos fingir que nunca passaremos por isso?

Nunca me esqueço de que, no início da faculdade, uns bons anos atrás, precisei fazer um trabalho sobre morte e uma das autoras que li foi Maria Julia Kovacs, que trazia relatos de pacientes terminais sobre a experiência da morte. Lembro-me de ter ficado surpresa ao saber que um dos maiores, senão o maior, sofrimentos da maioria deles era a dor que acreditavam causar nos familiares em consequência de seu diagnóstico de fim de vida. Esse sofrer por causar o sofrimento no outro era gerador de um silêncio, de um abismo entre os envolvidos. Semana passada, em uma conversa na padaria, ouvi de uma colega cuja mãe faleceu no início desse ano, que ela e a mãe não trocaram uma única palavra sobre a morte e sobre o morrer durante todo o tratamento e o tempo que passaram juntas antes do falecimento acontecer.

Se por um lado temos o sofrer por causar o sofrimento naqueles que ficam, por outro temos o medo, o desconforto, a incapacidade e tantos outros sentimentos que impedem aqueles que ficarão de abrir um espaço de fala e de escuta àquele que está vivenciando a partida. Isso é muito sério! Isso é algo que precisamos repensar!

É preciso falar sobre a morte, é preciso escutar sobre a morte! 

Ela é condição básica do ser humano, então podemos até nos enganar tentando deixá-la num quarto escuro, mas a qualquer hora e sem aviso ela nos toma, invade nossos dias e, ainda assim, tentamos empurrá-la novamente para aquele quarto. Assim sendo, pergunte-se, e de preferência em voz alta, “o que a morte significa para você?”.

Proponha esse assunto numa roda de amigos durante um encontro corriqueiro, levante questões sobre esse tema com sua família. Tantas são as oportunidades para se falar sobre isso: novelas, músicas, filmes, livros, a morte de conhecidos. Enfim, difícil é não falar sobre algo que está posto em nossa rotina. Estranho é nos fazermos de mortos diante da morte.

E essa estranheza me leva à segunda questão: ao nos encontrarmos com a possibilidade real da morte, seja a nossa ou a de outrem, o que sentimos? Esse sentir é tão amedrontador que nos rouba as palavras a ponto de nos calar e nos jogar em um abismo solitário?

Busque em sua memória como foram seus encontros com a morte e permita-se sentir as sensações advindas dessas lembranças, se abra para um reencontro e se surpreenda com a força que a vida ganha diante da morte.

Rapaz visto de frente triste com campo de fundo em preto e branco

Já tive alguns encontros. No primeiro eu era criança e fui levada a um velório (naquela época eles aconteciam nas casas das famílias, em suas salas). Sem entender muito o que se passava ali, fiquei brincando, até que um tio me pegou no colo e me levou até o caixão para ver a morta (era madrinha da minha mãe, se não me engano) e ela estava lá, deitada, imóvel e com os olhos abertos. Estranho, muito estranho ver uma pessoa morta de olhos abertos. Nunca me esqueci daquela cena. Como é possível morrer e estar viva? Afinal, para mim, criança, estar de olhos abertos era estar viva. Claro que não quis mais entrar naquela sala, senti medo e desconfiança dessa coisa que era estar morta. Mas alguns anos se passaram e ir a velórios (aqui já não mais nas casas) foi algo que se repetiu algumas vezes, não por mortes de familiares ou conhecidos, pelo contrário. Minha avó materna gostava de ir a velórios, pois eles tinham sanfoneiros, bolachinhas, cafés e isso era um passeio no interior. Como eu ficava com ela, às vezes passeávamos pela Avenida Saudade e o peso daqueles olhos abertos foram se perdendo diante de tantos outros fechados. O medo e a estranheza foram dando lugar para conversas.

Outro encontro foi na adolescência, quando tudo o que acreditamos ter é vida pulsante, são sonhos e rebeldias a serem vividos intensamente. Fase em que vivíamos o presente com toda força que ele podia ter, riamos e chorávamos como se fosse a última ou única vez. Era o tempo de viver em turma e os amigos eram inseparáveis, até que a morte bateu em nossa porta e levou um de nós aos 16 anos, assim, sem avisar, numa madrugada, voltando de uma balada. E nunca mais fomos os mesmos! Abruptamente me foi arrancada a ingenuidade de uma juventude eterna, como assim morrer tão jovem? Como assim morrer do nada, sem estar doente? Como assim aos dezesseis anos ver um amigo também aos dezesseis num caixão e enterrá-lo? Lembro-me que tive um ataque de riso no meio do velório, eu simplesmente ria e não conseguia parar. Ria de desespero, de dor, ria por não saber o que fazer ali. Esse riso denunciava uma loucura, a loucura que é uma pessoa deixar de existir ainda existindo na minha história e na minha memória.

Olho com lágrima escorrendo

Agora, na vida adulta, tive um encontro sublime com a morte, um encontro bonito e inesquecível que tocou algo tão profundo e sagrado em mim, que desde então me sinto um pouco íntima dela. Foi com meu sogro, estávamos acompanhando-o numa de suas inúmeras internações; ele, em estado terminal, deitado em sua cama de mãos dadas à esquerda com seu filho mais velho; à direita com seu filho do meio; e em seus pés sua esposa, acarinhando e agradecendo a vida que viveram juntos, agradecendo a companhia que foram um para o outro e eu ali, sentada no sofá, assistindo a essa cena e vendo nos equipamentos que a morte se aproximava. Eu olhava e sentia o amor, a tristeza, o alívio, as lágrimas e toda a contradição que viver e morrer pode ter, eu sentia uma gratidão por estar ali presenciando e vivendo aquele momento em que a morte chegou e levou meu sogro. E ele se foi sentindo o amor dos filhos e de sua companheira, se foi sabendo e sentindo que não estava só, ele se foi após olhar para cada um de nós e se enxergar em nossos olhares; e então percebi que não há jeito melhor de encontrar a morte.

Após esses relatos muito pessoais e, para encerrar esse texto, deixo uma última questão: “se você pudesse escolher entre uma morte repentina e uma anunciada, qual seria sua escolha?”.

Eu quero a anunciada, quero ter a chance de me despedir, de transmitir o que estou sentindo, de chorar e rir pela vida que vivi, quero poder abraçar meu filho, meu marido e quem mais estiver ao meu lado nesse tempo vindouro e dizer a cada um que valeu a pena, que foi lindo e que seja lá o que nos aguarde não tenhamos medo de viver a morte e de falar da morte. Morrer assim, de morte repentina, só se for para morrermos todos juntos, senão eu quero é viver cada segundo que eu puder, quero é morrer uma morte bem morrida, quero olhar para os olhos dela e dizer que ela não é um monstro, mas apenas um mistério que vale a pena ser desvendado.

Tenho vontade de ficar aqui escrevendo muita coisa, mas tenho uma vontade ainda maior, que é a de ler o que você tem a dizer sobre a morte, me conte! Fale sobre a morte com quem quer que seja, mas FALE!


Você pode se interessar por outro texto da mesma autora. Acesse: A morte e o morrer

 

Sobre o autor

Juliana Meyer Luzio

Juliana Meyer Luzio

Terapeuta que constrói sua clínica através de um espaço que integra fala, consciência corporal e quietude, tornando possível uma reconexão com o que há de belo, delicado e muito forte em nós - nossa saúde.

Formada em Psicologia, Psicanálise, Terapia de Integração Craniossacral, Transmutation Therapy, entre outros, está sempre em busca de conhecimentos que agreguem, em seu dia-a-dia maneiras, diferentes de olhar a vida.

Atualmente, além de sua clínica, lançou a Îandé, onde tem se dedicado à arte de criar e costurar produtos exclusivos e cheios de carinho.

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