Autoconhecimento Convivendo

A jornada em busca de si mesmo

Mulher sentada de costas em deserto de areia
Regiane Rocha
Escrito por Regiane Rocha

Cumprir o trabalho a que se propôs com disciplina é superar, grão a grão, o mar de areia da resistência.

O mundo ao qual fomos trazidos para viver essa jornada chamada vida é caracterizado pela dualidade, por polaridades que se complementam, mas que se encontram separadas; uma remete a outra, mas quando olhamos distanciadas nos parecem opositoras a ponto de se aniquilarem, no entanto a aparente aniquilação nada mais é do que a fusão das partes ao todo.

Nossa capacidade de leitura inicial nos abre as portas da sobrevivência, ou seja, nascemos com o modo sobrevivência habilitado. Além de ser nossa memória mais primitiva, é por onde começamos nossa jornada, mesmo em tempos de tecnologia dita avançada, pois, apesar de conseguirmos esmiuçar partículas, nos negamos a assumir responsabilidades elementares no que diz respeito à descoberta de nós mesmos enquanto indivíduos e espécie que despertou a consciência – ou melhor, a capacidade de raciocinar.

O modo sobrevivência é um dispositivo que trazemos em uma memória ancestral profunda e que nos pareia com os répteis. Esta parte de nosso banco de dados que trazemos no DNA é responsável por nossa sobrevivência. Esta parte do cérebro é chamada de reptiliana (arqueocórtex), na teoria do cérebro trino de Paul Maclean. A segunda é chamada de límbica (paleocórtex) e nos relaciona aos mamíferos; ela nos permite acessar afetividade e pertencimento. Por fim, a parte que nos difere dos outros tipos de animais é a capacidade de pensar (neocórtex), desenvolver estratégias e acessar funções superiores que podemos ou não acessar, ou seja, temos essas habilidades superiores disponíveis, mas elas precisam de estímulos específicos para serem desenvolvidas.

Mulher sentada na beira da praia

Estes estímulos ocorrem quando buscamos mais que sobreviver, quando sentimos o chamado que todos trazemos em nós, mas que silenciamos quando estamos comprometidos com o modo sobrevivência. É importante compreender que, para sobreviver, temos que nos privar de riscos e, portanto, quanto mais controle, racionalidade e repressão, mais proteção e segurança para sobreviver. É claro que ainda corremos riscos, mas as chances de morte são reduzidas ao limite que o controle e a repressão sugerem como segurança, trazendo a ilusão de que, se fazemos tudo “certo”, nada pode nos acontecer de mal, porque estamos pagando o preço para que a vida seja preservada.

No entanto quanto mais repressão e controle, mais sufocamos nossos sonhos e desejos, e vamos gerando um rio de frustração que nos acompanha em silêncio, até que possa transbordar e lembrar que a vida pode ser muito mais poderosa que a devoção ao medo da morte. É importante ressaltar que buscar liberdade pra sua vida não significa abandonar p bom senso e se tornar destrutivo, mas reconhecer que sobreviver não é nossa única opção, como comenta a filósofa Maria Lúcia Galvão: “O medo precisa estar atrás de nós, nos impulsionando, e não agigantado à nossa frente, nos impedindo de passar”. Nessa medida, o medo que preserva a vida é um grande farol de segurança, mas quando confundido com o medo do novo se traveste de carrasco na nossa busca por liberdade e realização.

Pessoa de costas com pôr do sol

A resistência a amadurecer enquanto pessoas e enquanto espécie nos impele a uma vida de negação do que sonhamos. Vamos nos acostumando a deixar de lado o que de fato é importante para nós e nos jogamos ao costume coletivo e ao senso comum. A vida não vivida vai se tornando um fantasma que aterroriza nos momentos de suspensão dos afazeres e na hora de dormir, ou seja, em qualquer momento em que esse fantasma pode emergir e nos lembrar de que estamos nos distanciando de nós mesmos, ignorando nossos sonhos e empurrando tudo para um futuro que certamente não virá se nada fizermos no agora.

O termo “resistência” é utilizado para descrever uma força que habita em todos nós e que tem uma natureza polar em relação à nossa capacidade de criar a obra de nossas próprias vidas. Assim, enquanto a criatividade nos leva a viver, a resistência nos impele a sobreviver. Essa força foi chamada pelos ensinamentos de vedanta de Ignorância (avydia), no entanto, independentemente do nome pelo qual essa força é chamada, sua ação é a mesma: impedir o fluir de nosso potencial de realização.

Mulher com meditando

A cada derrota que sofremos para essa força, ela mina nossos ideais e nos joga à sorte do passar do tempo. A partir daí, gradativamente perdemos o viço e o silenciamento de nossos desejos vai gerando frustrações que, por sua vez, alimentam compulsões sorrateiras, pacientes e alertas, esperando qualquer fissura em nossa estabilidade emocional para emergir e atacar. Rendidos, vamos aprofundando cada vez mais em nosso mundo inferior, nos deixando à própria sorte.

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Tanto a resistência quanto a criatividade exigem o mesmo combustível: nossa predisposição. Nessa medida, compreende-se que a dualidade que essas forças representam compõe nossa grande jornada da vida. Se cedemos em resistir ao fluir da vida, seguimos sob a regência do controle, da crítica desprovida de reflexão, das dúvidas, do medo e de tantos outros efeitos que a resistência nos propõe como pagamento por segui-la. Se optarmos, no entanto, por viver a criatividade, será um caminho de descoberta que nos conduzirá à liberdade, no entanto libertar-se é abrir mão dos sedativos que entorpecem e disfarçam nosso medo de assumir nossa responsabilidade diante de nossa própria história, portanto nos traz a lucidez de que crescer depende de nossa escolha, mas o mais importante é saber que, se escolhermos viver, somos capazes de realizar maravilhas em nossas vidas e tantas outras surpresas adoráveis que acreditar na vida pode nos despertar.

A serviço da sobrevivência temos uma força muito potente, que é a resistência à vida, que, com poucas experiências e muitas fantasias que alimentam os medos, garante a manutenção da ignorância sobre nós mesmos, limitando-nos ao que temos. Já a serviço da descoberta de nós mesmos estão a criatividade e a intuição. É importante compreendermos que, enquanto a fantasia nos estimula a pensar e a raciocinar sobre as ações, a criatividade nos estimula a agir. As formas de aprendizagem que a fantasia e a criatividade propõem são bem distintas; enquanto a primeira pensa em fazer e sente uma emoção alucinada, a segunda traz a dureza do sentir na pele. A primeira nos orienta a sobreviver, a segunda nos orienta a superar nossos limites e a desenvolver nosso potencial em sua plenitude. Desse modo, não há nada de errado, de fato, ao ceder À resistência, mas certamente sua realização enquanto indivíduo ficará em aberto, pois, para seguirmos, precisamos assumir os riscos de crescer.

Sobre o autor

Regiane Rocha

Regiane Rocha

Regiane Rocha é inconformada, curiosa e buscadora por natureza, profunda admiradora da vida e convicta da sabedoria e beleza que habita no íntimo de cada ser. Entregue ao divino sagrado e a serviço da grande Shakti, iniciou sua busca na identificação da “incompetência” em se adaptar aos padrões sociais vigentes.

Começou a trilhar o caminho dos conhecimentos espirituais no estudo do paganismo celta e se dedicou a conhecer mais profundamente a mitologia celta, nórdica, africana e finalmente a indiana, na qual atualmente pesquisa tantra yoga, hatha yoga e vedanta.

Mãe do Enzo Uriel e parceira de vida do Thiago Rodrigues, se dedica a compreender em nível pessoal como honrar cada dia mais a manifestação da abundância que a natureza oferece na forma desses dois homens, que ensinam a cada dia a sacralidade feminina no núcleo familiar de maneira cotidiana pelo exercício do respeito, acolhimento, cuidado e apoio. Irmã, filha e eterna aprendiz das maravilhas que resultam da harmonia entre forças primais da vida.

É educadora de formação, pesquisadora por vocação, terapeuta, facilitadora de processos de despertar humano por meio de medicinas como reiki, PNL (programação neurolinguística), florais de Bach, yoga, vedanta e saberes literários, e se dedica à educação e à formação humana há mais de 20 anos.

Hoje está à frente de pesquisas em autoconhecimento e espiritualidade aplicados à prática do desenvolvimento humano, realizadas através de sua empresa: Espaço Autonomia.

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