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Areia movediça

Mão saindo da areia, como se alguém estivesse preso ou afundando.
Motortion / Getty Images / Canva
Escrito por Andrea Ralize

Um bilhete esquecido, uma dor exposta, uma história que ecoa… Até onde sentimentos não resolvidos podem nos arrastar? E se aquilo que evitamos encarar ainda estiver nos definindo? Há algo nesse relato que pode tocar mais do que você imagina… Continue a leitura.

Ontem eu estava sentada em um café para relaxar até dar a hora de voltar para o trabalho e vi um papel dobrado, caído no chão. Olhei em volta para ver se encontrava o dono, mas eu era a única pessoa presente naquele lugar. Minha curiosidade foi mais forte que o controle e abri a mensagem. O que li foi algo que me fez pensar muito a respeito. E, por esse motivo, decidi compartilhar com você o texto sem assinatura encontrado em um café, que possivelmente tenha servido apenas de catarse ao autor e que pode agora nos servir de reflexão.

“O fato de não ter a sensação genuína de possuir uma mãe levou-me a lugares sombrios por inúmeros momentos durante a vida.

Sensação de cansaço eterno, dificuldade em saber meu local no mundo, aceitação recorrente de qualquer migalha oferecida.

Mas o que mais evidente ficou é essa capacidade que adquiri de não me reconhecer como alguém merecedor de qualquer coisa além de desprezo.

Apesar de não querer mais ficar sucumbindo a essa história de novo e de novo, ela me corrói por dentro, feito ferrugem. É lento, mas constante.

Não me senti protegida em situações reais de abuso e aprendi a me colocar nesse tipo de situação de propósito (ou inconscientemente?), a fim de ver se há alguém capaz de cuidar de mim.

Mulher sentada abraçando os joelhos, com expressão triste e introspectiva.
Karola G / Pexels / Canva

Passei quase a totalidade da vida esperando uma figura mágica que viesse me salvar de tanta angústia. Hoje, no entanto, sei que apenas eu mesma posso me salvar, me cuidar e me ver.

Preciso fortalecer essa certeza para ser capaz de proteger as muralhas de defesa que me rodeiam e, aos poucos, olhar para mim com um pouco de autoamor e compaixão. Tentar aceitar o fato de que eu posso ser vista e amada pelo que sou.

Mas desenvolvi garras tão afiadas e as uso para sobreviver, o que dificulta a minha busca por serenidade e confiança.

Hoje tento ouvir a mim mesma e sou obrigada a verbalizar o que sempre existiu escondido em minhas entranhas: nunca fui amada pela pessoa que me proporcionou a possibilidade de reencarnar nesta vida. Honro e agradeço por isso, pela vida. Mas o que eu faço com essa vida que não sabe gerar prazer nenhum?

Passo o tempo me cobrando que preciso fazer coisas, o tempo todo fazer coisas, sem descanso.

Uma busca desenfreada por proteção de vários os tipos: material, emocional, financeira, autoestima, autovalor. Como se eu fosse culpada pelo descanso ou pelo prazer ou pelo sucesso.

Estou cansada de pensar sobre isso. Estou cansada de ser a filha que precisa estar do lado dessa mãe que agora é velha e quer atenção e amor.

Eu não amo essa mulher. Sinto repulsa por ela. Vontade de ficar longe, a léguas de distância.

Vontade de que ela me esqueça e não fale comigo.

Daí vem de novo a culpa. Isso é errado. Está tudo errado.

Para onde devo fugir para me esconder?

Preciso ser adulta. Preciso olhar verdadeiramente para a minha criança e dizer a ela que está tudo bem. Que eu cuido dela agora. Que ela não precisa de uma mãe externa. Que está segura e em paz. Que pode sentir prazer e lambuzar-se com um bolo de chocolate, sem culpa.

Mas daí surgem os pensamentos repetitivos de que eu preciso cuidar da mulher velha… de que eu estou sozinha nessa empreitada… de que eu não quero fazer isso. É um caminho randômico. Vai e vem. Como saio dele? Como refaço meu olhar?”

Ler o relato de uma desconhecida me fez refletir sobre como o dia a dia pode parecer uma queda silenciosa dentro da areia movediça do ser. Uma vida inteira se debatendo para não ser enterrada pela tonelada de sentimentos confusos que permeiam momentos de lucidez. Queria poder olhar para essa pessoa agora e dizer a ela que, se quiser, pode contar comigo. Que estou disponível para ficar a seu lado enquanto a dor existir. Que ela não está sozinha. Que seus sentimentos em relação a tudo o que foi relatado não são errados, são humanos. E que ela não vai cair e desaparecer nessa areia movediça, pois sempre há um braço forte, em forma de ouvidos, que pode ajudá-la a recuperar o fôlego e, assim, ir se curando com o tempo. Ver a cicatriz se formar, criar cascas, às vezes sangrar novamente, criar cascas mais fortes e, um dia, quando estiver distraída, passar a mão sobre a ferida e perceber que não há mais sinal de dor. Que pode haver uma marca, um dos muitos sinais de alguém que se viveu e buscou conscientemente se conhecer. Não posso deixar de reforçar a humanidade dessa pessoa, pois, como dizia Guimarães Rosa: “Viver é um rasgar-se e remendar-se”.

Sobre o autor

Andrea Ralize

Escorpiana, professora de filosofia, revisora de textos, mãe de três seres de luz, praticante de yoga, estudante de Vedanta e, nas horas vagas, escritora de fragmentos da vida.

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