Convivendo

Até onde você iria para realizar o sonho do seu pai?

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Todos nós somos movidos pelos sonhos, aliás, há quem afirme que o indivíduo que não é mais capaz de sonhar não vive, apenas vegeta. Entretanto, vamos deixando certos sonhos em um cantinho de nossos corações, pois, temos que nos ocupar de coisas mais objetivas e urgentes, como sustentar nossas famílias e custearmos um padrão de vida senão confortável, ao menos digno, à custa de um cotidiano de trabalho exaustivo.

Acontece que nessa rotina de adiarmos nossos sonhos mais íntimos, em nome de algo tão nobre que são os compromissos assumidos na ocasião do matrimônio e do nascimento dos filhos, cometemos o equívoco de desmerecer nossos sonhos, colocando sobre eles uma aura de coisa sem importância, quase um hobby, o qual deixamos de praticar por termos coisas mais importantes a fazer. Como não somos eternos aqui na Terra, a morte pode chegar muitas vezes de forma abrupta e violenta. Quem vive em lugares marcados pela guerra, das duas uma, ou tenta, dentro das circunstâncias realizar seus sonhos, até mesmo aqueles considerados juvenis, ou enterram eles de uma vez e concentram-se na difícil arte de viver em uma zona de conflito. É nesse contexto que apresentaremos que seus sonhos podem ser realizados, e quando eles não são renegados, nem mesmo a iminência da morte é capaz de impedir a concretização deles.

Síria, país árabe localizado no sudoeste asiático, há anos sofre com uma guerra civil desencadeada por questões políticas e intolerância religiosa de grupos extremistas. Sua paisagem desoladora e a falta de perspectivas fazem muita gente buscar refúgio em países vizinhos e em outros continentes. Ninguém poderia imaginar que dentro desse cenário de horror possa existir uma história de um sonho realizado, mas, tem. O País abriga um solitário vinhedo, que teima em resistir à guerra. O negócio produz 45 mil garrafas de um vinho de ótima qualidade e virou símbolo de resistência e orgulho para os sírios que ainda vivem lá, e principalmente, para os que fixaram residência em outros lugares.

Gerenciados pelos irmãos Karim e Sandro, o derradeiro vinhedo comercial da Síria, chamado Domaine de Bargylus é a realização do sonho do pai deles.
 A guerra civil que assola os sírios desde 2001 complica o trabalho dos irmãos, contudo, não impede. A solução encontrada pela dupla, que gerencia o negócio em um escritório em Beirute, no Líbano, foi criar uma logística que permite as uvas chegarem até eles, para que possam ser degustadas e chegarem a conclusão se estão ou não prontas para a colheita. Mas esse é apenas a primeira das muitas dificuldades no caminho desses empreendedores.

Karim e Sandro importam da França as garrafas, as rolhas e os rótulos. Porém, com o avançar da guerra, os produtores das garrafas, decidiram não mais enviá-las para a Síria. Quando o vinho fica pronto, ele é enviado para um galpão na Bélgica, via Egito. A bebida passa por Port Said (no Egito), antes de eles chegarem na Antuérpia (Bélgica). Esse trajeto demora 45 dias.

Essa produção de vinho que envolve vários países chega a ser irônica, porque o pai de Karim e Sandro rejeitou comprar uma vinícola na cidade francesa de Bordeaux, pois, o sonho dele era produzir vinhos em seu País. O patriarca da família procurou terras no Líbano, entretanto, encontrou as melhores terras na Síria. Aliás, retornar para a Síria era um velho sonho. A família Saade é cristã ortodoxa, donas de indústrias e terras no País, contudo, em 1958, o Egito e a Síria se uniram e, nesse período foi chamado de República Árabe Unida, onde uma série de nacionalizações ocorreu.

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Segundo o relato de Sandro, um dia o pai foi comunicado que não era mais proprietário da vinícola e nem pôde entrar para retirar documentos. De uma hora para outra, o negócio estabelecido as duras penas passou a ser posse do governo. Diante dessa situação, a família se mudou para o Líbano, onde vivem até hoje. Os Saade são donos da vinícola, Chateau de Marsyas, no vale do Bekaa. O patriarca da família ainda está vivo, e bastante envolvido com o negócio, mas, o controle está nas mãos dos filhos.

Produzir vinhos fora dos países tradicionais, França, Chile, Uruguai, Argentina, é muito ambicioso, ainda mais em um local onde a guerra faz parte do cotidiano. Porém, mesmo nos ambientes mais desfavoráveis, é possível encontrar solos férteis, nesse caso, o local perfeito foi encontrado na Síria, perto da costa montanhosa de Jebel Al-Ansariye, conhecida como Monte Bargylus nos tempos romanos, quando os vinhedos eram abundantes. A família Saade levou a cultura do vinho à população local, o que implicou a educar seus compatriotas sobre a importância de manter o solo limpo e livre de qualquer tipo de lixo. Foram contratados os moradores dos vilarejos vizinhos, que, segundo Karim e Sandro, são responsáveis pelo sucesso desse projeto que começou como um sonho do pai. Atualmente, mais de 35 famílias tiram seu sustento através do trabalho que desempenham na vinícola, que é um verdadeiro símbolo de resistência.

Os primeiros vinhedos foram plantados em 2003, eram uvas chardonnay e sauvignon Blanc para vinho branco e cabernet sauvignon, syrah e merlot para o tinto. As primeiras garrafas foram produzidas somente em 2006. Os problemas começaram a surgir em 2011, e desde então, todos os anos, o vinhedo é atingido por bombas, mas nunca foi registrado casos de funcionários feridos. Karim acredita que o negócio pode ser sim alvo dos fundamentalistas, visto que o vinho é algo proibido. Ele ainda diz que diante da situação em que se encontra a Síria “o pior é sempre possível”.

Mesmo com todas as adversidades, os irmãos Karim e Sandro mantêm firme o sonho do pai deles. Quando o sonho ganha ares de missão de vida, conseguimos driblar as dificuldades, até mesmo quando elas têm contornos de violência.  A vinícola Domaine de Bargylus é um sucesso, produz anualmente 45 mil garrafas, que são exportadas para inúmeros países, o Brasil é um que está lista da família Saade, que conseguiu não perder a capacidade de sonhar em meio a uma atmosfera de terror e medo em decorrência da guerra civil.

O nosso objetivo com essa história da vida real é mostrar que o sonho, muitas vezes tendo como ponto de partida um desejo familiar, nesse caso do patriarca da família Saade, tem o poder de resistir aos abalos financeiros, instabilidades governamentais e as atrocidades de uma guerra. A trajetória dessa família reforça a importância de acreditarmos em nossos sonhos e usá-los como combustível para nos mantermos vivos.

O pai dos irmãos Karim e Sandro, conforme dito anteriormente, está vivo e continua trabalhando, mas, e se ele tivesse morrido, será que o sonho teria ido junto? Não. O patriarca conseguiu transmitir não somente o sonho, mas, principalmente a paixão que o cerca para seus filhos. Eles tomaram para si esse sonho, essa missão de vida e levam ao país não apenas uma cultura diferente, deixam um legado de persistência frente às imposições de alguns grupos que distorcem a política e a religião.

A história que contamos é de um sonho realizado que rende muito dinheiro. Agora, vamos contar outra, que está mais próxima a nossa realidade. A americana Mary Petrie sempre sonhou em ver publicada um romance escrito por ela, entretanto, desistiu após o editor ter dito não 27 vezes. O livro “At the end of Magic” – O fim da Magia, em tradução livre foi escrito enquanto ela estava grávida do filho caçula e fala sobre uma família que perdeu uma criança. Petrie deixou o rascunho e o livro dentro de uma gaveta e seguiu com o seu trabalho de professora de inglês em uma faculdade. Ela não se sentia completa. Seu filho de 18 anos descobriu o sonho da mãe e por dois meses trabalhou, junto com a namorada na edição e na concepção da capa, que tem uma moça com vestido na capa, igualzinho como ela sonhou. O filho não esperou o dia das mães, aniversário ou natal para entregar o presente, o fez em um dia absolutamente normal, quando a mãe estava na cozinha. A iniciativa do filho ganhou repercussão e hoje, a editora que disse não 27 vezes mostra interesse em publicar em outro romance escrito por ela. A professora de inglês que se sentia incompleta por não ter conseguido publicar seu livro, agora vê a editora que a rejeitou demonstrar intenção em sua outra obra.

Muitas vezes, nos sentimos frustrados por não conseguir realizar nossos sonhos, mas, muitas vezes, a realização deles vem de um jeito meio “torto” e não pelas nossas mãos, porém, sempre por meio da nossa paixão.
As histórias apresentadas aqui são belos exemplos que sonhos e desejos dos nossos pais podem ser nossos não por imposição, e nos motivar a realizá-los, no intuito de proporcionar alegrias aos seres que todos os dias dão a vida por nós sem esperar nada de volta. Nessas duas situações apresentadas, vemos claramente que os filhos sentem-se extremamente felizes por conseguir dar vida aos sonhos dos pais.

Converse mais com seus pais, descubra quais são os sonhos que eles guardaram nas gavetas da vida. Como dissemos no início desse artigo, todos nós temos sonhos que abandonamos, devido ao trabalho e a preocupação em sustentar os filhos e dar uma vida digna a eles. Pode ser algo que renda muito dinheiro, como a produção de vinhos, ou a publicação de um livro, um curso de corte e costura ou uma viagem. Realizar os sonho do pai ou da mãe, em hipótese nenhuma deve ser considerado um fardo, como apontam muitos especialistas em comportamento. Nos dois casos, não vemos os filhos obrigados a continuar ou dar início a um projeto idealizado por seus progenitores. Enquanto, no primeiro os filhos cresceram dentro da atmosfera de sonho e resistência que mantinham o pai vivo e feliz, no segundo, o sonho foi descoberto por acaso. Os filhos, à sua maneira, deram ao sonho consistência mais firme e real.

Convidamos você, leitor, a fazer uma reflexão após a leitura desse texto.

Pense qual foi à última vez que realizou os sonhos dos seus pais. Não serão poucos os que verão que nunca conseguiram. Pela correria imposta pela vida moderna, não temos tempo sequer de cumprir com nossos deveres profissionais, tanto que cada vez mais levamos trabalho para casa e não desfrutamos dos finais de semana como um período destinado ao descanso. Aprenda a administrar melhor o seu tempo. Imagine que a vida é uma balança, do lado mais alto está o trabalho, o dinheiro e as contas a pagar, do lado mais baixo estão as questões subjetivas. Que tal tirarmos o pé do acelerador e diminuirmos nossos ideais materiais?

Deixe um pouco de querer ter apenas para ficar em pé de igualdade com o vizinho ou com o colega de trabalho. Guarde dinheiro na finalidade de realizar os sonhos dos seus pais, que não fizeram outra coisa na vida, a não ser juntar dinheiro para o seu conforto. Se eles têm aptidões artísticas, faça uma exposição com suas obras ou banque a publicação de um livro, com direito a tarde de autógrafos. Se for uma viagem, trace o roteiro que eles sempre sonharam e entregue esse presente sem esperar alguma data comemorativa, não dizem que não tem dia certo para dar presente?

Faça essa reflexão, coloque-a em prática, e conte para a gente como se sentiu com essa experiência. A gente tem certeza que realizar os sonhos dos seus pais será muito mais gratificante para você, tanto que mudará sua forma de ver o mundo, e vai se dar conta que eles são completamente diferentes daquilo que sempre imaginou. Vamos lá, crie coragem, estabeleça novos padrões, coloque os sonhos dos seus pais na pauta da sua vida. Abra seu coração e seja menos egoísta. Nesse texto nós apresentamos dois belos exemplos de que para realizar os sonhos dos seus pais basta coragem.


• Artigo escrito por Sumaia Santana da Equipe Eu Sem Fronteiras

Fotos: John McGill | Bargylus

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